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  • Doença de Baumol: por que alguns serviços ficam mais caros mesmo com uma economia mais produtiva?

    Imagine uma orquestra tocando Beethoven.
    Quatro músicos precisam executar a obra.
    O primeiro violino toca sua parte.
    O segundo acompanha.
    O violista toca a sua.
    O violoncelista completa o conjunto.
    Agora imagine que uma fábrica próxima tenha inventado uma máquina que dobra a produtividade dos trabalhadores.
    O salário desses trabalhadores aumenta.
    Os músicos também querem salários maiores.
    Mas existe um problema.
    Você não consegue fazer um quarteto de Beethoven durar metade do tempo simplesmente colocando mais capital no palco.
    A música continua precisando de músicos.
    Essa ideia, inicialmente estudada para as artes, ajuda a explicar um fenômeno muito maior:
    por que alguns serviços ficam relativamente mais caros à medida que o restante da economia se torna mais produtivo.
    É a chamada doença de Baumol.
    A história começa com teatro e música
    William Baumol e William Bowen estudaram a economia das artes performáticas e publicaram Performing Arts: The Economic Dilemma em 1966. Biblioteca da Universidade de Indiana
    Eles observaram um problema curioso.
    A produtividade de algumas atividades aumentava rapidamente.
    Uma fábrica poderia produzir muito mais com o mesmo número de trabalhadores.
    Mas certas atividades artísticas possuíam pouca margem para aumentar produtividade sem alterar a própria natureza do produto.
    Uma apresentação de teatro ainda exige atores.
    Um concerto ainda exige músicos.
    O problema aparece quando os salários aumentam
    Imagine uma economia com dois setores.
    No primeiro, a produtividade cresce rapidamente.
    No segundo, cresce pouco.
    Se trabalhadores podem migrar entre os setores, os salários do setor mais produtivo tendem a pressionar os salários do setor menos produtivo.
    Caso contrário, os trabalhadores abandonariam o setor de baixa produtividade.
    Mas o segundo setor não consegue aumentar sua produtividade na mesma velocidade.
    Resultado:
    o custo por unidade de serviço aumenta.
    Essa é a lógica básica da doença de Baumol.
    Vamos usar um exemplo
    Imagine uma fábrica que produzia 100 unidades com 10 trabalhadores.
    Depois de uma inovação, os mesmos 10 trabalhadores produzem 200.
    A produtividade dobrou.
    Agora imagine uma escola.
    Dez professores atendem 200 alunos.
    Não existe uma tecnologia que simplesmente permita que os mesmos dez professores ofereçam exatamente a mesma qualidade para 400 alunos.
    Podemos usar tecnologia.
    Podemos melhorar materiais.
    Podemos automatizar parte das tarefas.
    Mas existe um limite.
    A interação humana continua sendo parte do serviço.
    Isso não significa que serviços sejam improdutivos
    Esse é um erro comum.
    Um professor pode ficar mais produtivo usando:
    plataformas digitais,
    materiais melhores,
    IA,
    automação administrativa.
    Um médico pode utilizar:
    diagnóstico assistido,
    prontuários digitais,
    telemedicina.
    Um advogado pode utilizar:
    bancos de dados,
    automação documental,
    IA.
    A produtividade pode aumentar.
    A tese de Baumol não exige produtividade zero.
    Ela depende de uma diferença de velocidade.
    Se a produtividade cresce muito mais lentamente em um setor do que em outro, seus custos relativos podem aumentar.
    A doença não é necessariamente uma doença
    O nome é enganoso.
    Não significa que exista uma falha ou ineficiência.
    Um serviço pode ficar mais caro simplesmente porque é difícil aumentar sua produtividade na mesma velocidade de outros setores.
    Isso é importante.
    Imagine um concerto que custa mais hoje que há 30 anos.
    Isso não significa que músicos estejam trabalhando pior.
    Pode significar que a produtividade de outros setores cresceu muito mais rapidamente.
    É por isso que saúde e educação chamam atenção
    Esses setores possuem atividades intensivas em trabalho.
    Você pode automatizar parte do processo.
    Mas ainda precisa de pessoas.
    Uma cirurgia exige profissionais.
    Uma consulta exige médico.
    Uma aula exige professor.
    Um julgamento exige profissionais do direito.
    O trabalho humano continua tendo papel importante.
    E isso cria um problema fiscal
    Governos fornecem muitos serviços cuja produtividade cresce mais lentamente.
    Saúde.
    Educação.
    Segurança.
    Justiça.
    Administração.
    Se os salários desses trabalhadores precisam acompanhar os demais setores da economia, os custos desses serviços tendem a aumentar.
    O governo enfrenta então uma escolha:
    aumentar orçamento,
    reduzir quantidade,
    reduzir qualidade,
    aumentar eficiência,
    ou aceitar que o serviço fique relativamente mais caro.
    É uma das razões pelas quais a doença de Baumol aparece frequentemente em discussões sobre o custo do Estado de bem-estar. Wiley Online Library
    Isso ajuda a explicar uma coisa estranha
    Você pode observar simultaneamente:
    produtividade crescendo
    e
    serviços ficando mais caros.
    Parece contraditório.
    Não é.
    Imagine que uma fábrica consiga produzir computadores cada vez mais baratos.
    Ao mesmo tempo, uma consulta médica exige praticamente a mesma quantidade de tempo de um profissional.
    Os computadores ficam mais baratos.
    O trabalho médico pode ficar relativamente mais caro.
    A economia como um todo ficou mais produtiva.
    Mas o serviço médico não acompanhou a mesma velocidade.
    Isso também aparece na educação
    Uma universidade pode utilizar tecnologia para melhorar suas aulas.
    Mas um professor ainda precisa preparar conteúdo, responder perguntas e avaliar alunos.
    Se a economia inteira aumenta produtividade e salários, a universidade precisa competir por profissionais.
    Os salários sobem.
    O custo por aluno pode aumentar.
    Isso pode acontecer mesmo que a universidade tenha adotado novas tecnologias.
    A tecnologia pode aliviar o problema
    Aqui entra a parte mais interessante para o presente.
    IA pode alterar a produtividade de atividades que historicamente eram intensivas em trabalho.
    Imagine um professor utilizando IA para:
    preparar materiais,
    criar exercícios,
    corrigir trabalhos simples,
    personalizar explicações.
    Ele continua sendo necessário.
    Mas pode conseguir atender mais alunos com a mesma quantidade de tempo.
    Isso reduz parte do efeito Baumol.
    Mas existe uma pergunta importante
    Quanto da atividade pode realmente ser automatizado sem reduzir a qualidade?
    Esse é o limite.
    Uma aula não é apenas produção de texto.
    Uma consulta não é apenas geração de diagnóstico.
    Uma peça teatral não é apenas emissão de sons.
    Existem componentes relacionais.
    Humanos atribuem valor a esses componentes.
    A IA pode mudar a fronteira
    Isso torna a doença de Baumol particularmente interessante hoje.
    Se a IA conseguir aumentar muito a produtividade de setores tradicionalmente intensivos em trabalho, parte do mecanismo pode enfraquecer.
    Mas isso não significa que desaparecerá.
    Porque a tecnologia pode aumentar produtividade justamente nas partes mais automatizáveis.
    As atividades mais difíceis de substituir permanecerão.
    E existe um efeito paradoxal
    Quanto mais ricos ficamos, maior pode ser a demanda por serviços pessoais.
    Quando uma pessoa possui renda maior, pode querer:
    mais educação,
    mais saúde,
    mais cultura,
    mais lazer,
    mais cuidados,
    mais experiências.
    Esses serviços podem continuar intensivos em trabalho.
    Então a economia fica mais produtiva e, simultaneamente, mais orientada para serviços.
    A doença de Baumol ajuda a entender a transformação estrutural
    Economias desenvolvidas tendem a empregar uma parcela maior dos trabalhadores em serviços.
    Isso não significa necessariamente que estejam ficando menos produtivas.
    Parte da mudança ocorre porque setores industriais aumentam produtividade tão rapidamente que precisam de menos trabalhadores.
    Os trabalhadores migram para serviços.
    O peso relativo dos serviços cresce.
    Isso muda a política econômica
    Se determinados serviços possuem baixa elasticidade de substituição do trabalho por tecnologia, esperar que seus custos caiam no mesmo ritmo da indústria pode ser irrealista.
    A discussão passa a ser:
    quanto vale esse serviço?
    Não apenas:
    quanto custa?
    Uma consulta médica pode ficar mais cara.
    Mas também pode gerar grande valor.
    Uma aula pode custar mais.
    Mas pode aumentar capital humano.
    Uma apresentação artística pode não ter produtividade industrial.
    Mas possui valor cultural.
    Preço e valor não são a mesma coisa.
    A doença de Baumol não é argumento automático por mais gasto público
    Esse cuidado é importante.
    O fato de determinado setor enfrentar custos crescentes não significa que todo aumento de gasto seja eficiente.
    Ainda precisamos perguntar:
    qual é o resultado?
    qual é a qualidade?
    qual é a produtividade?
    há desperdício?
    há tecnologia disponível?
    há possibilidade de reorganização?
    A doença de Baumol explica uma pressão de custos.
    Não justifica qualquer nível de gasto.
    A pergunta ficou ainda mais interessante com IA
    Durante décadas, a doença de Baumol foi associada a atividades nas quais a automação tinha limites.
    Agora estamos entrando em uma era em que inteligência artificial pode automatizar partes importantes do trabalho cognitivo.
    Isso pode deslocar a fronteira.
    Talvez atividades que pareciam estruturalmente intensivas em trabalho se tornem muito mais produtivas.
    Mas ainda não sabemos até onde.
    O verdadeiro teste
    A questão não é se IA substituirá médicos, professores ou advogados.
    É mais interessante perguntar:
    quanto trabalho desses profissionais poderá ser ampliado por tecnologia?

    Se um médico puder atender o dobro de pacientes sem reduzir qualidade, a produtividade mudou.
    Se um professor puder personalizar aulas para três vezes mais alunos, a produtividade mudou.
    Se um advogado puder analisar contratos dez vezes mais rapidamente, a produtividade mudou.
    É assim que a tecnologia pode atacar a doença de Baumol.
    A conclusão
    A doença de Baumol começou com uma pergunta sobre músicos.
    Por que um quarteto de Beethoven não poderia simplesmente produzir quatro vezes mais música por hora?
    A resposta parecia banal.
    Porque os músicos ainda precisam tocar.
    Mas a consequência econômica é profunda.
    Enquanto alguns setores aumentam produtividade rapidamente, outros continuam dependendo de trabalho humano em proporções elevadas.
    Se os salários acompanham o restante da economia, esses serviços ficam relativamente mais caros.
    Isso ajuda a explicar por que:
    saúde
    educação
    cultura
    serviços pessoais
    e várias atividades públicas
    podem ficar mais caras mesmo quando a sociedade como um todo se torna muito mais produtiva.
    Agora a inteligência artificial introduz uma nova possibilidade.
    Talvez algumas dessas atividades finalmente consigam acelerar sua produtividade.
    Se isso acontecer, uma teoria criada para explicar o custo de uma orquestra poderá ajudar a explicar uma das maiores transformações econômicas da era da IA.

    Fontes
    – Baumol, W. J.; Bowen, W. G. Performing Arts: The Economic Dilemma, 1966. Biblioteca da Universidade de Indiana
    – Baumol, W. J.; Bowen, W. G. “On the Performing Arts: The Anatomy of Their Economic Problems.” American Economic Review, 1965. Philanthropy Roundtable
    – Andersen, T. M.; Kreiner, C. T. “Baumol’s Cost Disease and the Sustainability of the Welfare State.” Economica, 2017.

  • O mercado de “limões”: por que produtos ruins podem expulsar os bons

    Imagine que você encontre dois carros usados.
    Visualmente, eles parecem iguais.
    Um está em excelente estado.
    O outro possui problemas escondidos no motor.
    Você não consegue distinguir um do outro.
    Quanto pagaria?
    Provavelmente não pagaria o preço de um carro excelente.
    Pagaria algo próximo do valor médio que imagina encontrar.
    Agora imagine que você seja dono do carro excelente.
    Você aceitaria vender pelo preço médio?
    Talvez não.
    E é aí que o problema começa.
    Os bons carros podem sair do mercado.
    Os ruins permanecem.
    O comprador percebe.
    Oferece ainda menos.
    Mais carros bons desaparecem.
    Até que o mercado pode se deteriorar profundamente.
    Em 1970, o economista George Akerlof transformou essa intuição em um dos artigos mais importantes da economia moderna: The Market for “Lemons”: Quality Uncertainty and the Market Mechanism. OUP Academic
    O problema é a informação
    Imagine que o vendedor saiba exatamente o estado do carro.
    O comprador não.
    Existe uma diferença de informação entre as duas partes.
    Isso é uma assimetria de informação.
    Não significa necessariamente que alguém esteja mentindo.
    O vendedor simplesmente possui informações que o comprador não possui.
    E essa diferença pode alterar o funcionamento do mercado.
    O preço médio pode ser um problema
    Imagine cinco carros.
    Dois são excelentes.
    Três são ruins.
    Se o comprador não consegue distinguir qualidade, pode oferecer um preço baseado na qualidade média.
    Os proprietários dos bons carros podem considerar o preço baixo demais.
    Então decidem não vender.
    Agora restam mais carros ruins.
    O comprador percebe.
    A qualidade média cai.
    O preço oferecido cai.
    Mais carros bons deixam de ser vendidos.
    É um processo cumulativo.
    É a seleção adversa
    Esse fenômeno recebeu o nome de seleção adversa.
    O problema não acontece porque compradores sejam irracionais.
    Pelo contrário.
    Eles estão tentando se proteger da incerteza.
    O problema é que a própria tentativa de proteção pode alterar quem permanece no mercado.
    Akerlof mostrou que a assimetria de informação pode reduzir drasticamente as transações ou, em determinadas condições, levar à ausência de comércio. Prêmio Nobel
    Agora pense em um serviço
    Imagine que você precise contratar um consultor.
    Existem profissionais excelentes e profissionais ruins.
    Antes de contratar, você não consegue observar completamente a qualidade do trabalho.
    Todos podem dizer:
    “Tenho experiência.”
    “Sou especialista.”
    “Meu método funciona.”
    Como distinguir?
    Você procura:
    currículo,
    referências,
    avaliações,
    casos anteriores,
    certificações,
    reputação.
    Esses mecanismos existem porque o mercado enfrenta um problema de informação.
    A marca também é uma solução
    Por que algumas pessoas pagam mais por uma marca conhecida?
    Não é apenas por status.
    A marca funciona parcialmente como informação.
    Uma empresa que construiu reputação ao longo de anos possui algo a perder se entregar um produto ruim.
    A reputação cria um incentivo para manter qualidade.
    Uma marca desconhecida não possui necessariamente esse mesmo capital reputacional.
    Garantias também resolvem parte do problema
    Imagine dois vendedores.
    Um oferece garantia de cinco anos.
    O outro não oferece nenhuma.
    A garantia transmite informação.
    Ela sugere que o vendedor confia na qualidade do produto.
    Também reduz o risco do comprador.
    Por isso, contratos e garantias podem funcionar como mecanismos de redução da assimetria de informação.
    Avaliações online fazem algo parecido
    Quando você compra em um marketplace e vê milhares de avaliações, está utilizando uma instituição criada para reduzir incerteza.
    Você não conhece o vendedor.
    Não consegue examinar pessoalmente o produto.
    Mas observa experiências de outros compradores.
    Isso não elimina o problema.
    Avaliações podem ser falsas.
    Podem ser manipuladas.
    Podem sofrer viés.
    Mas ainda assim reduzem parte da assimetria.
    O mercado não precisa desaparecer
    Esse ponto é importante.
    Akerlof não afirmou que todo mercado com informação assimétrica necessariamente desaparece.
    O resultado depende das condições.
    Instituições podem reduzir o problema.
    Reputação.
    Garantias.
    Certificações.
    Regulação.
    Inspeções.
    Marcas.
    Histórico de transações.
    Todos podem funcionar como mecanismos de confiança.
    Isso explica por que algumas instituições existem
    Economia frequentemente pergunta:
    “Por que precisamos dessa regra?”

    A teoria da informação oferece uma resposta interessante.
    Talvez a regra exista porque reduz um custo que o mercado sozinho não consegue eliminar.
    Imagine uma certificação profissional.
    O consumidor não consegue avaliar completamente a competência de um profissional antes de contratá-lo.
    A certificação cria uma informação adicional.
    Não garante qualidade perfeita.
    Mas reduz incerteza.
    O problema também aparece no mercado de trabalho
    Imagine uma empresa contratando um trabalhador.
    Ela não observa perfeitamente:
    esforço,
    capacidade,
    disciplina,
    conhecimento.
    O candidato sabe mais sobre algumas dessas características.
    Como a empresa pode descobrir?
    Entrevistas.
    Testes.
    Diplomas.
    Experiência.
    Referências.
    Esses mecanismos são formas de screening e signaling.
    A economia da informação cresceu justamente estudando essas situações.
    E existe um problema ainda mais interessante
    Um bom profissional pode precisar gastar recursos para demonstrar que é bom.
    Um curso.
    Uma certificação.
    Uma marca pessoal.
    Um portfólio.
    Uma garantia.
    Esses sinais podem ser caros.
    Mas, quando são difíceis de imitar por profissionais ruins, podem separar os tipos.
    É uma das ideias desenvolvidas posteriormente por Michael Spence.
    Isso também aparece em investimentos
    Imagine duas empresas.
    Uma possui balanços sólidos.
    Outra possui problemas financeiros.
    O investidor não consegue observar tudo.
    Se o mercado não consegue diferenciar bem as duas, pode cobrar um prêmio de risco elevado de ambas.
    A empresa saudável paga pela reputação ruim do mercado.
    Isso pode reduzir investimento.
    A informação afeta o preço do capital.
    A economia digital não eliminou o problema
    Ela apenas mudou sua forma.
    Antes, você comprava um carro sem saber completamente seu histórico.
    Hoje, pode consultar histórico digital.
    Antes, contratava um hotel sem conhecer avaliações.
    Hoje, possui milhares de comentários.
    Antes, precisava confiar em um vendedor desconhecido.
    Agora existe reputação de plataforma.
    A tecnologia reduziu alguns custos de informação.
    Mas também criou novos problemas:
    fake reviews,
    bots,
    fraudes,
    deepfakes,
    informação manipulada.
    A IA cria uma nova versão do problema
    Imagine que uma empresa compre um sistema de inteligência artificial.
    Como saber se ele realmente é bom?
    O vendedor possui muito mais informação sobre:
    dados de treinamento,
    limitações,
    taxa de erro,
    arquitetura,
    custos,
    desempenho em diferentes contextos.
    O comprador pode não conseguir avaliar tudo antes da contratação.
    É uma nova versão de um velho problema econômico.
    O problema é particularmente importante em serviços complexos
    Quanto mais difícil for avaliar qualidade antes da compra, maior a importância da reputação.
    Consultoria.
    Medicina.
    Educação.
    Software.
    Segurança.
    Serviços jurídicos.
    IA.
    Em todos eles, o consumidor frequentemente compra antes de conseguir avaliar completamente o resultado.
    Isso cria espaço para instituições intermediárias.
    O grande insight de Akerlof
    A economia clássica frequentemente imagina mercados em que compradores e vendedores conhecem aquilo que estão negociando.
    Akerlof mostrou que essa hipótese pode ser decisiva.
    Se a qualidade é difícil de observar, os incentivos mudam.
    E isso pode alterar o próprio equilíbrio do mercado.
    Não é um detalhe.
    É uma característica estrutural.
    A lição para quem compra
    Quando você não consegue observar qualidade diretamente, procure mecanismos que reduzam a incerteza.
    Reputação.
    Garantia.
    Histórico.
    Certificação.
    Contrato.
    Referências.
    Avaliações independentes.
    Quanto mais caro for o erro, mais importante é essa diligência.
    A lição para quem vende
    Se seu produto é realmente melhor, você precisa encontrar maneiras de tornar essa diferença observável.
    Não basta dizer:
    “Meu produto é melhor.”

    É preciso produzir evidência.
    É por isso que:
    portfólios,
    cases,
    garantias,
    certificações,
    avaliações,
    reputação,
    demonstrações,
    são economicamente valiosos.
    Eles transformam qualidade invisível em informação observável.
    A conclusão
    O mercado de limões de Akerlof é uma história sobre carros usados.
    Mas sua aplicação é muito maior.
    Sempre que:
    uma parte sabe mais que a outra
    e
    a qualidade é difícil de observar antes da compra,
    surge um problema potencial.
    O mercado pode funcionar pior.
    Produtos ruins podem ganhar espaço.
    Produtos bons podem sair.
    E compradores podem reduzir sua disposição de pagar.
    É por isso que marcas, garantias, reputação, certificações e avaliações existem.
    Elas não são acessórios do mercado.
    Em muitos casos, são justamente as instituições que permitem que o mercado funcione.

    Fontes
    – Akerlof, G. A. “The Market for ‘Lemons’: Quality Uncertainty and the Market Mechanism.” The Quarterly Journal of Economics, v. 84, n. 3, p. 488–500, 1970. OUP Academic
    – Nobel Prize, The Prize in Economic Sciences 2001: Popular Information, sobre Akerlof, Spence e Stiglitz. Prêmio Nobel
    – RePEc, registro bibliográfico do artigo original de Akerlof.

  • Mercosul e União Europeia: a oportunidade brasileira escondida na lista de produtos sustentáveis

    Existe um tipo de política comercial que quase nunca vira manchete.
    Não envolve uma tarifa de 20%.
    Não envolve uma guerra comercial.
    Não envolve um presidente anunciando uma nova barreira.
    É uma lista.
    Mas, em comércio internacional, uma lista pode mudar incentivos econômicos inteiros.
    O governo brasileiro está recebendo até 2 de setembro de 2026 contribuições para definir produtos e cadeias produtivas que poderão integrar uma lista de produtos sustentáveis prevista no acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Serviços e Informações do Brasil
    Os produtos selecionados poderão ter acesso preferencial ou adicional ao mercado europeu, além de outros incentivos previstos no acordo.
    A consulta termina amanhã.
    E merece mais atenção do que está recebendo.
    O que está sendo decidido?
    A consulta pública procura identificar produtos do Mercosul que contribuam para:
    conservação
    recuperação
    uso sustentável
    e
    gestão de florestas e outros ecossistemas vulneráveis.
    A proposta está prevista no Anexo 18-A do Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia, que entrou em vigor em 1º de maio de 2026. Serviços e Informações do Brasil
    Isso cria uma oportunidade.
    Produtos associados à sociobiodiversidade podem ganhar maior acesso ao mercado europeu.
    Mas por que uma lista importa tanto?
    Porque comércio internacional não depende apenas de produzir algo.
    É preciso conseguir vender.
    E vender internacionalmente envolve:
    tarifas,
    padrões técnicos,
    certificações,
    regras sanitárias,
    rastreabilidade,
    logística,
    reputação.
    Quando um acordo reduz algum desses obstáculos, ele altera a rentabilidade potencial de determinadas atividades.
    Sustentabilidade virou uma variável comercial
    Durante muito tempo, comércio internacional era discutido principalmente em termos de:
    preço,
    tarifa,
    produtividade,
    câmbio.
    Agora existe uma variável adicional:
    origem e sustentabilidade.
    Consumidores e governos passaram a exigir mais informações sobre como determinados produtos são produzidos.
    Isso cria custos.
    Mas também pode criar mercados.
    O Brasil possui uma vantagem potencial
    O país possui uma biodiversidade enorme.
    Existem cadeias produtivas associadas a:
    açaí,
    castanhas,
    cacau,
    frutas,
    óleos,
    fibras,
    produtos florestais,
    ingredientes naturais.
    Alguns desses produtos possuem valor econômico justamente por estarem associados à biodiversidade.
    O desafio é transformar essa característica em vantagem comercial sustentável.
    E aqui existe uma questão de produtividade
    Não basta ter um produto sustentável.
    É preciso conseguir:
    produzi-lo em escala,
    garantir qualidade,
    comprovar origem,
    cumprir padrões,
    entregar regularmente,
    e competir em preço.
    Sustentabilidade sem produtividade pode produzir um nicho pequeno.
    Produtividade sem sustentabilidade pode produzir um produto incapaz de acessar determinados mercados.
    A combinação é que cria vantagem.
    A rastreabilidade se torna importante
    Imagine um consumidor europeu comprando determinado produto brasileiro.
    Como ele sabe que a matéria-prima não veio de uma área desmatada ilegalmente?
    É necessário algum mecanismo de rastreabilidade.
    Isso pode aumentar custos.
    Mas também cria uma forma de diferenciar produtores.
    Uma empresa que consegue demonstrar origem e conformidade pode conquistar uma reputação que um concorrente não consegue reproduzir facilmente.
    Isso se aproxima da economia da informação
    O consumidor não consegue observar diretamente todas as características do produto.
    Ele não acompanha a cadeia produtiva inteira.
    Precisa confiar em:
    certificações,
    selos,
    marcas,
    rastreabilidade,
    auditorias.
    Esses mecanismos reduzem assimetria de informação.
    É exatamente o tipo de problema que George Akerlof ajudou a explicar.
    E existe uma conexão interessante com o artigo de hoje sobre o mercado de limões.
    Quanto mais difícil for distinguir um produto sustentável de um produto que apenas se apresenta como sustentável, maior será o risco de os produtos de qualidade não conseguirem capturar seu verdadeiro valor.
    A política comercial pode criar incentivos
    Suponha que um produto sustentável receba acesso preferencial ao mercado europeu.
    Isso aumenta seu retorno esperado.
    Uma empresa pode então ter incentivo para investir em:
    certificação,
    rastreabilidade,
    tecnologia,
    manejo sustentável.
    A política comercial passa a alterar decisões produtivas.
    Não é apenas uma questão diplomática.
    É uma questão de incentivos.
    Mas existe um risco
    O Brasil precisa evitar transformar sustentabilidade em uma barreira burocrática que apenas grandes empresas conseguem cumprir.
    Se a certificação custar R$ 500 mil, pequenos produtores podem ficar de fora.
    Isso seria particularmente problemático em cadeias de sociobiodiversidade.
    A política pública precisa considerar o custo de conformidade.
    O acordo pode beneficiar cadeias específicas
    É importante não interpretar a lista como um benefício automático para todos os produtos.
    O objetivo é identificar produtos que se encaixem nos critérios previstos no acordo.
    Isso significa que haverá uma seleção.
    A qualidade dessa seleção importa.
    Uma lista mal desenhada pode privilegiar setores já estruturados.
    Uma lista bem desenhada pode ajudar a transformar produtos com potencial ambiental em produtos comercialmente viáveis.
    O setor privado possui informação importante
    É justamente por isso que a consulta pública existe.
    O governo possui capacidade regulatória.
    Mas empresas, produtores, universidades e organizações da sociedade civil possuem informações que o governo pode não ter.
    Quais produtos já possuem demanda?
    Quais cadeias conseguem comprovar origem?
    Quais enfrentam gargalos?
    Quais poderiam aumentar produção?
    Quais possuem potencial de exportação?
    A consulta tenta capturar parte desse conhecimento.
    Isso também é política industrial
    Existe uma conexão com uma discussão maior.
    Quando o Estado cria condições para que determinadas cadeias produtivas se desenvolvam, está fazendo política industrial ou de desenvolvimento produtivo.
    Mas uma boa política industrial não deveria simplesmente escolher vencedores.
    Deveria ajudar a criar condições para que empresas aumentem:
    produtividade
    inovação
    qualidade
    escala
    acesso a mercados.
    O mercado europeu pode ser estratégico
    A União Europeia possui um mercado consumidor grande e relativamente sofisticado.
    Produtos associados à sustentabilidade podem encontrar demanda.
    Mas também enfrentam padrões elevados.
    Isso significa que acesso ao mercado europeu pode funcionar como uma espécie de certificação de capacidade produtiva.
    Se uma empresa consegue cumprir padrões exigentes, pode abrir portas para outros mercados.
    A oportunidade está no valor, não apenas no volume
    Uma cadeia de exportação não precisa necessariamente vender toneladas e toneladas para ser economicamente relevante.
    Produtos diferenciados podem possuir alto valor por unidade.
    É o caso de alguns produtos da sociobiodiversidade.
    O objetivo pode ser transformar:
    biodiversidade
    em
    valor econômico sustentável.
    Isso exige conhecimento, marca, tecnologia e acesso ao consumidor.
    A consulta termina amanhã
    As contribuições devem ser enviadas até 2 de setembro de 2026 pela plataforma Brasil Participativo. Serviços e Informações do Brasil
    É uma janela curta.
    Mas o que está sendo construído possui efeitos potencialmente mais longos.
    A lista poderá influenciar quais produtos terão acesso a benefícios comerciais adicionais no mercado europeu.
    A grande questão
    O Brasil possui um ativo raro:
    biodiversidade em escala continental.
    Mas possuir um ativo não significa saber transformá-lo em riqueza.
    A questão econômica é justamente essa.
    Como transformar biodiversidade em:
    renda,
    emprego,
    exportação,
    desenvolvimento regional,
    sem destruir o recurso que produz o valor?
    A conclusão
    A consulta pública do Mercosul e União Europeia parece, à primeira vista, um detalhe burocrático.
    Não é.
    Ela coloca uma questão estratégica para o Brasil:
    podemos transformar sustentabilidade em vantagem competitiva?
    Se conseguirmos combinar biodiversidade, produtividade, rastreabilidade e acesso a mercados, produtos sustentáveis podem deixar de ser apenas nichos.
    Podem se tornar uma fonte de desenvolvimento.
    Mas isso dependerá menos da quantidade de recursos naturais que temos e mais da nossa capacidade de construir cadeias produtivas capazes de capturar valor a partir deles.

    Fontes
    – Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, consulta pública sobre produtos sustentáveis no Acordo Mercosul-UE, 3 ago. e 28 ago. 2026. Serviços e Informações do Brasil
    – MDIC, últimas notícias de comércio exterior, incluindo avanços recentes nas relações Brasil-Europa e demais parceiros. Serviços e Informações do Brasil

  • PIB do segundo trimestre: a economia brasileira está desacelerando de verdade?

    Existe uma diferença importante entre uma economia que está crescendo pouco e uma economia que está começando a parar de crescer.
    O Brasil chega à divulgação do PIB do segundo trimestre de 2026 justamente nesse ponto de interrogação.
    No primeiro trimestre, a economia cresceu 1,1% na comparação com os três meses anteriores, segundo o IBGE. Foi um resultado forte, impulsionado principalmente pela agropecuária e pelo consumo das famílias. Agência de Notícias IBGE
    Desde então, os sinais mudaram.
    O Monitor do PIB da FGV estimou crescimento de apenas 0,3% no segundo trimestre e queda de 1,1% em junho na comparação com maio. O IBC-Br, indicador do Banco Central que acompanha a atividade econômica, também recuou em junho. Agência Brasil
    A pergunta de hoje, portanto, não é simplesmente:
    “Quanto o PIB cresceu?”
    É:
    “O que está fazendo a economia perder velocidade?”
    O primeiro trimestre foi excepcional?
    Em parte, sim.
    O crescimento de 1,1% registrado entre janeiro e março foi o maior avanço trimestral desde o primeiro trimestre de 2025.
    A agropecuária cresceu 2%.
    A indústria avançou 1%.
    Os serviços cresceram 0,5%.
    O consumo das famílias aumentou 1% e os investimentos cresceram 3,5%. Folha de S.Paulo
    Foi uma combinação bastante favorável.
    Mas parte dela possuía características que dificilmente se repetiriam com a mesma intensidade.
    A agricultura ajuda a explicar a desaceleração
    A produção agrícola possui forte componente sazonal.
    Uma safra excepcional pode produzir um impulso significativo em determinado trimestre.
    Mas não podemos esperar que a mesma contribuição se repita indefinidamente.
    Isso ajuda a explicar por que o primeiro trimestre pode ter sido mais forte sem necessariamente significar que a economia brasileira entrou em uma trajetória de aceleração permanente.
    É uma diferença importante entre:
    crescimento pontual
    e
    mudança estrutural de tendência.
    O consumo continua sustentando a economia
    Esse é um dos pontos mais interessantes do cenário atual.
    A FGV estimou que o consumo das famílias cresceu 2,6% no segundo trimestre, mesmo com a desaceleração das demais atividades. Agência Brasil
    Isso significa que as famílias ainda estão gastando.
    A questão é por quanto tempo.
    O consumo pode ser sustentado por:
    renda,
    emprego,
    transferências,
    crédito,
    redução de poupança,
    ou uma combinação desses fatores.
    Essas fontes possuem efeitos diferentes sobre a sustentabilidade do crescimento.
    Juros altos começam a aparecer
    A Selic está em 14% ao ano.
    Esse nível de juros tem uma função clara: ajudar a reduzir a demanda e controlar a inflação.
    Mas a mesma política que reduz pressões inflacionárias também encarece:
    crédito imobiliário,
    financiamento de veículos,
    capital de giro,
    investimentos empresariais,
    consumo parcelado.
    A política monetária funciona justamente porque altera o custo de tomar decisões hoje.
    O problema é que o efeito não é instantâneo.
    A política monetária funciona com atraso
    Imagine uma empresa que decide investir em uma nova fábrica.
    Ela não toma a decisão apenas olhando para a Selic de hoje.
    Avalia o custo do financiamento ao longo dos próximos anos.
    Por isso, uma taxa elevada pode afetar investimentos mesmo depois de meses.
    O mesmo vale para famílias.
    Uma taxa alta reduz a disposição para assumir novas dívidas.
    O resultado aparece gradualmente na atividade econômica.
    O segundo trimestre pode ser o primeiro sinal mais claro
    Se o PIB confirmar um crescimento próximo ao 0,3% estimado pela FGV, a história de 2026 muda.
    Não seria recessão.
    Também não seria estagnação.
    Seria uma economia crescendo, mas em velocidade muito menor.
    Essa distinção importa.
    Uma economia pode estar em expansão e, simultaneamente, estar desacelerando.
    É isso que as projeções estão captando
    O Focus divulgado ontem reduziu a expectativa de crescimento do PIB em 2026 para 1,92%. Folha de S.Paulo
    É uma revisão pequena.
    Mas a direção importa.
    No início do ano, havia expectativas mais próximas de 2%.
    Agora, a projeção está abaixo disso.
    A desaceleração está sendo incorporada ao cenário-base dos analistas.
    O número de hoje precisa ser desmontado
    Quando o IBGE divulgar o PIB, o primeiro número provavelmente será o crescimento na margem.
    Mas essa não deve ser nossa única preocupação.
    Precisamos olhar para:
    consumo das famílias
    investimento
    gasto do governo
    exportações
    importações
    e, pelo lado da oferta:
    agropecuária
    indústria
    serviços
    A composição será mais importante que a manchete.
    Crescimento puxado por consumo é diferente de crescimento puxado por investimento
    Imagine duas economias.
    A primeira cresce porque as famílias estão consumindo mais.
    A segunda cresce porque as empresas estão construindo fábricas, comprando máquinas e aumentando capacidade.
    As duas cresceram.
    Mas a segunda pode estar construindo uma base mais forte para o crescimento futuro.
    Isso não significa que consumo seja ruim.
    O consumo representa uma parcela enorme da demanda agregada.
    Mas investimento possui uma função particular:
    aumentar a capacidade produtiva futura.
    E o investimento é justamente uma variável que merece atenção
    Uma economia que investe pouco pode continuar crescendo durante algum tempo.
    Mas terá mais dificuldade para sustentar crescimento elevado.
    Máquinas envelhecem.
    Infraestrutura se deteriora.
    Tecnologia fica obsoleta.
    Capital humano precisa ser atualizado.
    Por isso, o investimento é uma ponte entre o crescimento de hoje e a capacidade produtiva de amanhã.
    Existe ainda o problema da produtividade
    Mesmo que o investimento cresça, precisamos saber o que ele produz.
    Construir mais capacidade não garante aumento proporcional da produtividade.
    Uma máquina mais moderna pode aumentar produção.
    Uma infraestrutura melhor pode reduzir custos.
    Uma tecnologia nova pode economizar trabalho.
    Mas tudo depende da eficiência com que os recursos são utilizados.
    No longo prazo, é a produtividade que determina grande parte da capacidade de uma economia crescer sem gerar pressões excessivas.
    A inflação também importa
    O Focus de ontem trouxe uma pequena revisão para baixo da expectativa de inflação de 2026, para 5,01%.
    Ainda é uma taxa elevada em relação à meta de 3%. Folha de S.Paulo
    Isso significa que o Banco Central continua enfrentando um dilema.
    Se a atividade desacelerar demais, haverá pressão para reduzir juros.
    Mas se a inflação permanecer elevada ou as expectativas continuarem acima da meta, existe menos espaço para cortes agressivos.
    É o clássico conflito entre:
    atividade
    e
    inflação.
    O dado de hoje não responderá tudo
    Mesmo um resultado muito bom não significa que a economia entrou em aceleração sustentável.
    Um resultado ruim também não significa automaticamente recessão.
    Precisamos observar a sequência.
    PIB é uma série temporal.
    O que interessa é a trajetória.
    A pergunta mais importante
    Se o PIB crescer pouco no segundo trimestre, precisamos descobrir:
    por quê?
    Foi a agricultura?
    Foi a indústria?
    Foi o investimento?
    Foi o consumo?
    Foram os juros?
    Foi o ambiente externo?
    Foi apenas uma normalização depois de um primeiro trimestre excepcional?
    Cada resposta leva a uma interpretação diferente.
    O que esperar do restante do ano
    As projeções atuais apontam para uma economia crescendo perto de 2% em 2026.
    O cenário não é de colapso.
    É de perda de velocidade.
    E essa diferença é importante.
    O Brasil pode terminar 2026 crescendo.
    Mas crescer perto de 2% depois de anos de expansão mais forte significa que a economia estará operando em um ritmo bem mais moderado.
    A conclusão
    O PIB de hoje será importante.
    Mas o número isolado será apenas o começo da análise.
    O verdadeiro dado relevante será a composição.
    Se o consumo continuar forte enquanto investimento e indústria enfraquecem, teremos uma economia sustentada pela demanda corrente, mas com sinais de perda de capacidade de expansão futura.
    Se o investimento reagir, a leitura será diferente.
    Se a desaceleração ocorrer de forma disseminada, a pressão sobre o Banco Central aumenta.
    Por isso, hoje não basta perguntar:
    “Quanto o Brasil cresceu?”

    A pergunta que realmente importa é:
    “O que está crescendo, o que está parando e o que isso nos diz sobre a economia dos próximos trimestres?”

    Fontes
    – IBGE, Sistema de Contas Nacionais Trimestrais e resultado do primeiro trimestre de 2026. Agência de Notícias IBGE
    – FGV IBRE, Monitor do PIB de junho de 2026, publicado em 17 ago. 2026. Agência Brasil
    – Banco Central do Brasil, Relatório Focus, 31 ago. 2026. Banco Central do Brasil
    – UOL Economia, agenda de divulgação do PIB do segundo trimestre. UOL Economia

  • Vantagem comparativa: por que até quem é melhor em tudo pode ganhar com o comércio?

    Imagine duas pessoas.
    Uma delas é excelente em praticamente tudo.
    Ela escreve melhor.
    Cozinha melhor.
    Faz contas mais rápido.
    Organiza melhor a casa.
    A outra é pior em todas essas atividades.
    A pergunta parece óbvia:
    por que a primeira deveria contratar ou trocar alguma coisa com a segunda?
    Porque existe uma diferença entre ser melhor em tudo e ter vantagem comparativa.
    Essa distinção está no centro de uma das ideias mais importantes da economia.
    E David Ricardo apresentou sua formulação clássica no início do século XIX.
    A história começa com duas coisas simples
    Imagine que Portugal e Inglaterra produzam:
    vinho
    e
    tecido.
    Portugal consegue produzir os dois com menos trabalho que a Inglaterra.
    Em outras palavras, possui vantagem absoluta nos dois produtos.
    Parece que Portugal deveria produzir tudo.
    Mas Ricardo mostrou que ainda pode ser vantajoso para os dois países se especializarem e comercializarem.
    Por quê?
    Porque o que importa é o custo de oportunidade.
    O custo de oportunidade é a chave
    Imagine que Portugal precise de:
    10 horas para produzir uma unidade de vinho
    e
    20 horas para produzir uma unidade de tecido.
    A Inglaterra precisa de:
    30 horas para vinho
    e
    40 horas para tecido.
    Portugal é absolutamente melhor nos dois.
    Mas observe a relação.
    Para Portugal, produzir uma unidade de tecido custa o equivalente a duas unidades de vinho em termos de trabalho.
    Para a Inglaterra, produzir uma unidade de tecido custa apenas 4/3 de uma unidade de vinho.
    Portugal é melhor nos dois.
    Mas Portugal é relativamente muito melhor em vinho.
    A Inglaterra possui uma desvantagem menor na produção de tecido.
    Essa é a vantagem comparativa.
    É uma ideia contraintuitiva
    A pergunta não é:
    “Quem produz melhor?”

    É:
    “Quem sacrifica menos de uma coisa para produzir outra?”

    Esse é o conceito de custo de oportunidade.
    E ele muda completamente a análise.
    Ricardo escreveu sobre isso em 1817
    A ideia aparece em On the Principles of Political Economy and Taxation, publicado por David Ricardo em 1817. Wikipedia
    Seu famoso exemplo envolve Inglaterra e Portugal e a produção de vinho e tecido.
    O argumento era poderoso porque respondia a uma pergunta que a ideia de vantagem absoluta não conseguia resolver:
    e se um país for mais eficiente na produção de tudo?
    Ainda assim, pode existir espaço para comércio.
    Vamos voltar ao exemplo
    Suponha que Portugal seja duas vezes mais eficiente na produção de vinho, mas apenas 25% mais eficiente na produção de tecido.
    Portugal tem mais vantagem relativa no vinho.
    A Inglaterra, embora menos produtiva nos dois produtos, perde relativamente menos quando se especializa em tecido.
    Então Portugal pode concentrar mais recursos em vinho.
    A Inglaterra pode concentrar mais recursos em tecido.
    Depois, trocam.
    A produção total pode aumentar.
    Isso não significa que todo mundo ganhe automaticamente
    Aqui precisamos colocar uma ressalva importante.
    A teoria da vantagem comparativa mostra que existe potencial de ganhos agregados com comércio sob determinadas condições.
    Não significa que todos os indivíduos dentro de cada país ganhem igualmente.
    Alguns setores podem perder.
    Alguns trabalhadores podem perder empregos.
    Algumas regiões podem sofrer.
    A distribuição dos ganhos é outra questão.
    Essa distinção é fundamental.
    Produção total e distribuição são problemas diferentes
    Imagine que o comércio aumente a produção total de uma economia em R$ 100 bilhões.
    Isso não significa que cada grupo receba uma parcela proporcional.
    Pode haver:
    empresas vencedoras,
    empresas perdedoras,
    trabalhadores beneficiados,
    trabalhadores prejudicados,
    consumidores beneficiados,
    regiões afetadas.
    A economia pode ganhar no agregado enquanto determinados grupos perdem.
    É por isso que a discussão sobre comércio internacional não pode ser reduzida a “livre comércio é bom” ou “protecionismo é ruim”.
    Então por que o comércio pode ser vantajoso?
    Porque especialização aumenta a produtividade quando cada agente concentra recursos onde possui menor custo de oportunidade.
    É a mesma lógica que encontramos dentro de uma empresa.
    Imagine um economista que também saiba programar.
    Ele pode ser melhor programador que um desenvolvedor júnior.
    Mesmo assim, pode ser mais eficiente contratar o desenvolvedor.
    Por quê?
    Porque o custo de oportunidade do tempo do economista pode ser muito alto.
    Se ele passar seis horas programando, deixa de utilizar essas seis horas para uma atividade na qual possui vantagem comparativa maior.
    É aqui que a ideia deixa de ser apenas sobre países
    A vantagem comparativa existe em:
    empresas,
    equipes,
    profissionais,
    famílias,
    países.
    Imagine um casal.
    Uma pessoa cozinha melhor e também trabalha melhor.
    A outra cozinha pior e trabalha pior.
    Ainda assim, pode fazer sentido que uma pessoa cozinhe enquanto a outra se concentre no trabalho.
    Não porque uma seja “inútil” na cozinha.
    Mas porque o custo de oportunidade pode ser diferente.
    Isso explica parte da divisão do trabalho
    Adam Smith já havia mostrado a importância da especialização.
    Ricardo levou a lógica para o comércio internacional.
    A especialização permite que diferentes agentes concentrem recursos em atividades nas quais possuem custos relativos menores.
    Depois, o comércio permite acessar os produtos produzidos por outros.
    A economia se torna uma rede de especialização.
    Mas existe um detalhe moderno
    O mundo atual é muito diferente do mundo de Ricardo.
    Capital circula entre países.
    Empresas multinacionais organizam cadeias produtivas internacionais.
    Tecnologia pode ser transferida.
    Conhecimento pode atravessar fronteiras.
    Produtos são produzidos em dezenas de países.
    Portanto, o modelo original é uma simplificação.
    Isso não significa que a ideia perdeu importância.
    Significa que precisamos compreender seus pressupostos antes de aplicá-la.
    O comércio também cria dependências
    Imagine um país que produza determinado componente estratégico quase exclusivamente no exterior.
    A especialização pode reduzir custos.
    Mas também pode criar vulnerabilidade.
    Uma guerra.
    Uma pandemia.
    Uma crise diplomática.
    Uma interrupção logística.
    Pode interromper o fornecimento.
    É por isso que políticas industriais modernas discutem não apenas eficiência.
    Discutem também:
    resiliência
    segurança econômica
    diversificação
    autonomia estratégica
    Existe um trade-off.
    E é exatamente por isso que a discussão brasileira é importante
    O Brasil possui vantagens comparativas relevantes em determinados setores:
    agropecuária,
    energia,
    mineração,
    algumas cadeias industriais,
    serviços específicos.
    Mas vantagem comparativa não significa necessariamente que um país deva abandonar todas as atividades nas quais não é o produtor mais eficiente.
    Pode haver razões para desenvolver setores estratégicos.
    Aprendizado tecnológico.
    Externalidades.
    Segurança nacional.
    Economias de escala.
    Desenvolvimento regional.
    A questão é saber quando esses argumentos justificam políticas públicas e quando apenas protegem atividades pouco competitivas.
    Comércio não é uma competição esportiva
    Esse talvez seja o maior erro intuitivo.
    Quando ouvimos que um país exportou US$ 100 bilhões e outro exportou US$ 80 bilhões, parece que o primeiro “venceu”.
    Mas comércio não funciona como futebol.
    O objetivo não é derrotar o parceiro.
    É obter bens e serviços a condições que tornem possível aumentar o bem-estar e a produtividade.
    Um país pode importar mais de outro e ainda se beneficiar.
    O déficit comercial também não é automaticamente uma derrota
    Uma família que compra mais produtos de um supermercado do que vende para ele não está “perdendo” para o supermercado.
    Ela está trocando dinheiro por bens.
    Com países, a situação é mais complexa porque existem fluxos financeiros e macroeconômicos.
    Mas a analogia ajuda a mostrar o erro de tratar exportação como “vitória” e importação como “derrota”.
    A ideia de Ricardo também ajuda a entender terceirização
    Imagine que uma empresa tenha uma equipe de marketing.
    Os funcionários conseguem realizar atividades contábeis básicas.
    Mas isso não significa que a empresa deva fazer sua própria contabilidade.
    Se uma empresa especializada realiza a atividade com menor custo de oportunidade, terceirizar pode aumentar eficiência.
    O princípio é semelhante.
    Mas existe um limite
    Especialização excessiva pode criar dependência.
    Se toda a empresa depende de um único fornecedor, uma interrupção pode paralisá-la.
    Por isso, empresas equilibram:
    eficiência
    e
    resiliência.
    Países fazem a mesma coisa.
    Esse é um dos grandes desafios da economia global contemporânea.
    A pergunta certa sobre comércio
    Não deveríamos perguntar apenas:
    “Somos melhores que os outros?”

    A pergunta mais importante é:
    “Em quais atividades somos relativamente melhores e quais são os custos de abandonar as alternativas?”

    Essa é a lógica da vantagem comparativa.
    E ela é poderosa porque obriga a pensar em termos de alternativas.
    A grande lição
    Ricardo apresentou a ideia há mais de dois séculos.
    O mundo mudou completamente.
    Mas o conceito permanece útil porque está baseado em uma verdade econômica simples:
    todo recurso utilizado em uma atividade deixa de ser utilizado em outra.
    Tempo.
    Trabalho.
    Capital.
    Terra.
    Energia.
    A economia é, em grande parte, a ciência de decidir onde utilizar recursos escassos.
    A vantagem comparativa mostra que uma boa decisão não depende apenas de quem é melhor.
    Depende de onde cada recurso produz mais valor em relação às alternativas disponíveis.
    É por isso que até quem é melhor em tudo pode ganhar com a troca.
    E essa talvez seja uma das ideias mais contraintuitivas e mais úteis que a economia já produziu.

    Fontes
    – Ricardo, D. On the Principles of Political Economy and Taxation, 1817. Wikipedia
    – Cambridge University Press, obras e correspondências de David Ricardo.
    – Literatura de economia internacional sobre vantagem comparativa e custo de oportunidade.

  • Teorema de Coase: às vezes, o problema não é quem está errado

    Imagine uma fábrica.
    Ela produz determinado produto e gera um pouco de fumaça.
    Ao lado existe uma plantação.
    A fumaça prejudica a produção agrícola.
    Quem está causando o problema?
    A resposta parece óbvia.
    A fábrica.
    Mas Ronald Coase fez uma pergunta mais interessante:
    o que realmente importa para resolver o problema?
    A fábrica pode instalar um filtro.
    O agricultor pode mudar a plantação de lugar.
    A produção pode ser reduzida.
    Os dois podem negociar.
    O governo pode criar uma regra.
    Existem várias soluções.
    A questão econômica é descobrir qual delas produz o maior benefício líquido.
    Essa é uma das ideias centrais de The Problem of Social Cost, artigo publicado por Coase em 1960. RCNi Company Limited
    O problema é recíproco
    Esse é o ponto mais contraintuitivo do argumento.
    Se a fábrica não existisse, o agricultor não teria problema com fumaça.
    Mas se a plantação não existisse, a fumaça também não seria um problema para o agricultor.
    Existe uma interação entre duas atividades.
    Coase chamou atenção para essa natureza recíproca do problema.
    Isso muda a pergunta.
    Em vez de simplesmente:
    “Quem está causando dano?”

    passamos a perguntar:
    “Qual arranjo reduz o dano total ao menor custo?”

    Imagine que existam duas soluções
    A fábrica pode instalar um filtro por R$ 100 mil.
    O agricultor pode mudar sua produção por R$ 40 mil.
    Se ambas as soluções eliminarem o mesmo dano, talvez seja mais eficiente mudar a produção.
    Isso não significa que a fábrica “está certa”.
    Significa que a solução economicamente mais barata pode gerar maior benefício líquido.
    É uma maneira diferente de pensar externalidades.
    Mas existe uma condição importante
    Agora imagine que a fábrica e o agricultor consigam negociar gratuitamente.
    Sem advogado.
    Sem burocracia.
    Sem custo de informação.
    Sem dificuldade para descobrir os danos.
    Sem problemas para fazer cumprir o acordo.
    Se os direitos estiverem bem definidos, existe espaço para que as partes negociem uma solução eficiente.
    Essa é a intuição por trás do que ficou conhecido como Teorema de Coase.
    Mas aqui existe uma grande ressalva.
    Coase não disse simplesmente:
    “O mercado sempre resolve.”

    Essa é uma caricatura de sua contribuição.
    Coase estava interessado justamente nos custos da negociação
    No mundo real, negociar custa.
    É preciso:
    encontrar a outra parte,
    obter informação,
    calcular danos,
    contratar advogados,
    redigir contratos,
    monitorar cumprimento,
    resolver disputas.
    Esses são custos de transação.
    E eles podem ser altos.
    Quando são altos, a negociação privada pode não produzir uma solução eficiente.
    É aí que instituições jurídicas e políticas públicas ganham importância.
    Um exemplo simples
    Imagine uma fábrica que polui um rio usado por 10 mil pescadores.
    Cada pescador sofre um pequeno dano.
    Para negociar diretamente com a fábrica, seria necessário coordenar milhares de pessoas.
    O custo de organização pode ser enorme.
    Mesmo que uma solução negociada fosse teoricamente eficiente, talvez seja inviável na prática.
    Aqui aparece uma razão econômica para a existência de instituições.
    Direitos bem definidos ajudam
    Imagine que ninguém saiba quem tem direito a fazer o quê.
    A fábrica não sabe se pode operar.
    Os agricultores não sabem se podem exigir indenização.
    Os tribunais recebem disputas.
    O investimento diminui.
    A incerteza aumenta.
    Definir direitos de propriedade não significa necessariamente privatizar tudo.
    Significa estabelecer regras claras sobre quem possui determinado direito e como ele pode ser utilizado.
    O preço de uma regra também importa
    Imagine que o governo proíba completamente a fábrica de produzir.
    O problema ambiental desaparece.
    Mas milhares de empregos também podem desaparecer.
    Talvez exista uma solução menos custosa.
    Um limite de emissão.
    Um imposto.
    Uma tecnologia de controle.
    Uma compensação.
    Uma negociação.
    A política pública precisa comparar alternativas.
    É por isso que externalidades não têm uma solução única
    Quando uma atividade afeta terceiros, podemos utilizar diferentes instrumentos:
    impostos
    subsídios
    regulação
    mercados de direitos
    responsabilidade civil
    negociação privada
    A escolha depende da natureza do problema.
    Do número de envolvidos.
    Da facilidade de monitoramento.
    Do custo de negociação.
    Da informação disponível.
    Coase também ajuda a entender por que empresas existem
    Essa discussão se conecta a outro artigo famoso de Coase:
    The Nature of the Firm, publicado em 1937.
    Coase perguntou por que determinadas transações são realizadas dentro de empresas em vez de serem compradas no mercado.
    A resposta passa pelos custos de transação.
    Se negociar no mercado for caro demais, pode ser mais eficiente organizar aquela atividade internamente.
    Isso ajuda a explicar uma das perguntas mais fundamentais da economia:
    por que existem empresas?

    Pense em uma pequena empresa
    Imagine um empresário que precise contratar alguém para realizar uma tarefa todos os dias.
    Ele poderia negociar cada pequena atividade separadamente.
    Mas isso teria custo.
    É mais simples estabelecer uma relação de emprego com regras relativamente estáveis.
    A empresa substitui uma série de transações de mercado por uma estrutura organizacional.
    Não é apenas uma questão de “mandar”.
    É uma questão de economizar custos de transação.
    Essa lógica continua atual
    Plataformas digitais são um exemplo moderno.
    Uber, Airbnb, marketplaces e plataformas de serviços reduzem custos de busca, informação e pagamento.
    Uma transação que antes exigia:
    telefone,
    agenda,
    intermediário,
    confiança,
    contrato,
    pagamento,
    pode ser realizada em poucos cliques.
    A tecnologia reduz custos de transação.
    E quando esses custos caem, mercados antes inviáveis podem surgir.
    A internet mudou a fronteira do mercado
    Imagine que você queira comprar um livro usado.
    Antes da internet, encontrar alguém que possuísse exatamente aquele livro podia ser difícil.
    O custo de busca era alto.
    Com plataformas digitais, milhões de compradores e vendedores podem se encontrar.
    O mercado se torna maior.
    Não porque o produto mudou.
    Mas porque o custo de realizar a transação caiu.
    Essa é uma consequência prática muito importante da economia de Coase.
    Mas a tecnologia também cria novos custos
    Plataformas reduzem alguns custos.
    Mas criam outros.
    Fraude.
    Privacidade.
    Dependência de plataforma.
    Assimetria de informação.
    Custos de reputação.
    Moderação.
    Esses problemas mostram que reduzir um custo de transação não significa eliminar todos.
    O sistema apenas muda.
    A grande contribuição de Coase
    Talvez sua maior contribuição tenha sido ensinar economistas a olhar para algo que modelos muito abstratos tendem a esconder:
    transações não são gratuitas.
    Comprar.
    Vender.
    Negociar.
    Fiscalizar.
    Processar.
    Contratar.
    Tudo custa.
    E esses custos ajudam a determinar a forma como a economia se organiza.
    Isso também muda nossa visão sobre o Estado
    Uma política pública não deveria ser avaliada apenas pela intenção.
    Precisamos perguntar:
    quanto custa implementá-la?
    quanto custa fiscalizá-la?
    quem possui informação?
    quanto custa fazer cumprir a regra?
    quais comportamentos ela incentiva?
    Existem alternativas privadas?
    Existem alternativas regulatórias?
    Essa é uma forma muito mais sofisticada de pensar intervenção estatal.
    A pergunta certa
    Quando duas pessoas ou organizações entram em conflito, é comum perguntarmos:
    “Quem está errado?”

    Coase sugere uma pergunta anterior:
    “Qual arranjo permite resolver o conflito com menor custo total?”

    Essa mudança parece pequena.
    Mas ela abre uma das portas mais importantes da economia institucional.
    Porque, no mundo real, eficiência não depende apenas de preços.
    Depende também das regras que permitem que as pessoas negociem.
    E dos custos que enfrentam para fazê-lo.

    Fontes
    – Coase, R. H. “The Problem of Social Cost.” Journal of Law and Economics, v. 3, 1960, p. 1–44. RCNi Company Limited
    – Coase, R. H. “The Nature of the Firm.” Economica, 1937.
    – Nobel Prize, trabalhos de Ronald Coase sobre custos de transação e direitos de propriedade.

  • PIB do Brasil: por que um país pode crescer sem você sentir que ficou mais rico?

    O Brasil conhecerá amanhã, 1º de setembro de 2026, o resultado do PIB do segundo trimestre.
    O número será tratado como uma espécie de boletim da economia brasileira.
    Mas existe um problema:
    o PIB não mede exatamente aquilo que a maioria das pessoas pensa que ele mede.
    Ele mede o valor dos bens e serviços finais produzidos em determinado período.
    Isso é fundamental.
    Mas não é a mesma coisa que medir renda, riqueza ou qualidade de vida.
    O que o PIB realmente mede?
    Imagine uma economia que produza apenas:
    alimentos,
    roupas,
    serviços de transporte,
    consultas médicas,
    softwares,
    e máquinas.
    O PIB procura medir o valor monetário da produção final desses bens e serviços.
    Por isso, quando dizemos que o PIB cresceu 1%, estamos dizendo que a produção agregada aumentou em termos reais, considerando a metodologia das contas nacionais.
    Não estamos dizendo que cada brasileiro ficou 1% mais rico.
    A primeira diferença é entre PIB e renda
    O PIB mede produção.
    A renda nacional está relacionada à remuneração dos fatores utilizados para produzir.
    Em uma economia aberta, ainda existem fluxos de renda entre residentes e não residentes.
    Por isso, PIB e renda disponível das famílias não são a mesma coisa.
    Uma empresa estrangeira pode produzir dentro do Brasil.
    Essa produção entra no PIB brasileiro.
    Parte dos lucros pode posteriormente ser remetida ao exterior.
    O efeito sobre a renda disponível dos brasileiros não é exatamente igual ao efeito sobre o PIB.
    A segunda diferença é entre PIB e PIB per capita
    Imagine uma economia que cresce 2%.
    Parece ótimo.
    Mas imagine que a população cresça 3%.
    Nesse caso, o PIB por pessoa pode cair.
    Isso significa que a produção total aumentou, mas a produção média disponível por habitante diminuiu.
    Por isso, quando queremos comparar padrão material de vida, o PIB per capita costuma ser mais informativo que o PIB total.
    Mas ainda não é suficiente.
    E existe o problema da distribuição
    Imagine duas economias.
    As duas produzem R$ 10 trilhões.
    Uma distribui a renda de maneira relativamente uniforme.
    A outra concentra grande parte da renda em uma parcela pequena da população.
    O PIB é igual.
    A experiência das famílias pode ser completamente diferente.
    É por isso que economistas utilizam outros indicadores:
    renda mediana
    desigualdade
    pobreza
    desemprego
    consumo
    renda disponível
    patrimônio
    O PIB é uma peça do quebra-cabeça.
    Não é o quebra-cabeça inteiro.
    Então por que todo mundo presta tanta atenção nele?
    Porque o PIB é extremamente útil para medir a atividade econômica.
    Se a produção aumenta de forma persistente, geralmente existem mais oportunidades de emprego, investimento e geração de renda.
    Se a economia entra em contração, empresas podem reduzir produção e contratação.
    O PIB também ajuda governos, bancos centrais e investidores a avaliar o ciclo econômico.
    O problema não é usar o PIB.
    É pedir que ele responda perguntas para as quais não foi construído.
    O número de amanhã terá várias partes
    Quando o IBGE divulgar o resultado do segundo trimestre, não será interessante olhar apenas para a variação do PIB.
    Será necessário observar seus componentes.
    Pelo lado da demanda:
    consumo das famílias
    consumo do governo
    investimentos
    exportações
    importações
    Pelo lado da oferta:
    agropecuária
    indústria
    serviços
    Esses números ajudam a descobrir o que está puxando a economia.
    Crescimento puxado por consumo é diferente de crescimento puxado por investimento
    Imagine que uma economia cresça porque as famílias estão consumindo mais.
    Isso pode ser positivo.
    Mas pode ter diferentes causas.
    A renda pode estar crescendo.
    O emprego pode estar forte.
    O crédito pode estar estimulando consumo.
    Ou as famílias podem estar reduzindo poupança para manter o padrão de vida.
    Agora imagine que o crescimento seja puxado por investimento.
    Empresas estão comprando máquinas.
    Construindo fábricas.
    Ampliando capacidade.
    Investindo em tecnologia.
    O significado econômico é diferente.
    Investimento merece atenção especial
    No longo prazo, crescimento sustentável depende da capacidade produtiva.
    Uma economia que investe em:
    infraestrutura,
    máquinas,
    educação,
    tecnologia,
    capital humano,
    pesquisa,
    pode aumentar sua produtividade.
    Por isso, a taxa de investimento é uma variável importante.
    Não basta saber se o PIB cresceu.
    Precisamos saber como a capacidade produtiva está evoluindo.
    O Brasil pode crescer e ainda ter uma economia pouco dinâmica
    Esse é outro ponto importante.
    Uma economia pode crescer por um trimestre e desacelerar depois.
    O dado trimestral é uma fotografia.
    A trajetória é mais importante.
    Por isso, economistas observam:
    crescimento na margem,
    crescimento acumulado,
    comparação com o mesmo trimestre do ano anterior,
    tendência dos últimos trimestres.
    Um único número não conta a história completa.
    E existe o efeito da base de comparação
    Imagine que uma economia produza 100 unidades em um trimestre.
    No trimestre seguinte, cai para 90.
    Depois volta para 95.
    A economia cresceu 5,6% em relação ao trimestre anterior.
    Mas ainda está abaixo do nível de 100.
    Essa é uma das razões pelas quais taxas de crescimento precisam ser interpretadas dentro da série histórica.
    Uma alta percentual pode representar apenas uma recuperação parcial.
    O PIB também não mede trabalho doméstico
    Imagine uma família que prepara suas próprias refeições.
    Se contratar alguém para cozinhar, aparece uma transação monetária.
    Parte dela entra no cálculo da atividade econômica.
    Se a família faz tudo sozinha, o trabalho continua existindo, mas não necessariamente aparece da mesma maneira nas contas nacionais.
    O mesmo acontece com diversas atividades não monetizadas.
    Isso mostra que produção econômica e bem-estar econômico não são conceitos idênticos.
    O PIB também não mede diretamente qualidade ambiental
    Uma empresa pode aumentar produção e gerar mais poluição.
    O valor produzido entra no PIB.
    O dano ambiental não é simplesmente subtraído do indicador.
    Isso não significa que economistas ignorem o problema.
    Significa que são necessários outros instrumentos para medi-lo.
    Daí a importância de indicadores ambientais, sociais e de sustentabilidade.
    Então o PIB é ruim?
    Não.
    Essa seria outra simplificação.
    O PIB é uma das estatísticas econômicas mais importantes já construídas.
    O problema aparece quando transformamos uma medida de produção em uma medida universal de progresso.
    São coisas diferentes.
    O número mais importante pode não ser o número da manchete
    Imagine que amanhã o PIB cresça 0,5%.
    A manchete será:
    “PIB cresce 0,5%.”

    Mas o analista deveria perguntar:
    quanto cresceu o PIB per capita?
    o consumo aumentou?
    o investimento acelerou?
    a indústria cresceu?
    os serviços desaceleraram?
    a produtividade melhorou?
    qual foi a contribuição do setor externo?
    É aí que começa a análise econômica.
    O Brasil precisa especialmente olhar para produtividade
    No longo prazo, não existe crescimento sustentável sem aumento da capacidade de produzir mais valor com os recursos disponíveis.
    Isso envolve produtividade do trabalho, capital, tecnologia e instituições.
    Uma economia pode crescer durante algum tempo simplesmente utilizando mais trabalhadores ou mais capital.
    Mas, para sustentar crescimento elevado por décadas, a produtividade precisa avançar.
    Por isso, o PIB de amanhã é importante.
    Mas não deve ser analisado isoladamente.
    A pergunta certa
    Em vez de perguntar:
    “O PIB cresceu?”

    talvez devêssemos perguntar:
    “De onde veio o crescimento e ele aumenta a capacidade da economia de crescer novamente amanhã?”

    Essa pergunta é muito mais difícil.
    E muito mais útil.
    Porque uma economia saudável não é apenas aquela que cresce em um trimestre.
    É aquela que consegue transformar crescimento em:
    renda
    produtividade
    investimento
    emprego
    consumo sustentável
    e, no longo prazo,
    melhor padrão de vida.

    Fontes
    – IBGE, Sistema de Contas Nacionais Trimestrais, referência metodológica para o PIB brasileiro. IBGE
    – IBGE, calendário de divulgações econômicas. IBGE
    – Poder360, agenda econômica da semana de 31 de agosto a 4 de setembro de 2026, incluindo a divulgação do PIB em 1º de setembro.

  • Novo Desenrola termina hoje: o que a renegociação de dívidas revela sobre o crédito no Brasil

    O prazo para formalizar novas renegociações pelo Novo Desenrola Brasil termina nesta segunda-feira, 31 de agosto de 2026.
    Até o fim de agosto, o programa havia renegociado aproximadamente 5,03 milhões de dívidas, reduzindo o valor envolvido de R$ 26,33 bilhões para R$ 5,27 bilhões. Os descontos podem chegar a 90%, com condições que incluem juros de até 1,99% ao mês e prazo de até 48 meses, dependendo da operação e da instituição participante. UOL Economia
    À primeira vista, parece apenas mais um programa de renegociação.
    Mas existe uma questão econômica muito maior por trás dele:
    o que acontece quando milhões de pessoas não conseguem pagar suas dívidas nas condições originalmente contratadas?
    A resposta envolve crédito, juros, risco, renda, comportamento e até desenho de políticas públicas.
    O que o programa tenta resolver
    O Novo Desenrola foi criado para pessoas físicas com renda mensal de até cinco salários mínimos que possuem determinadas operações de crédito contratadas até 31 de janeiro de 2026 e que estavam em atraso dentro do período estabelecido pela legislação. Planalto
    A lógica é relativamente simples.
    Uma dívida atrasada pode se tornar cada vez mais difícil de pagar.
    Juros e encargos aumentam o saldo.
    O consumidor perde acesso a novas linhas de crédito.
    O banco precisa reconhecer maior risco de inadimplência.
    E uma dívida que inicialmente era administrável pode se transformar em um problema financeiro muito maior.
    A renegociação tenta interromper essa trajetória.
    Por que o banco aceita receber menos?
    Essa é uma pergunta importante.
    Se uma pessoa deve R$ 10 mil, por que o banco aceitaria receber R$ 5 mil?
    Porque o banco não está comparando:
    R$ 10 mil agora
    com
    R$ 5 mil agora.
    Ele está comparando o valor esperado de diferentes alternativas.
    Se a probabilidade de receber os R$ 10 mil integralmente for muito baixa, aceitar R$ 5 mil pode ser melhor.
    Em termos econômicos, a dívida possui um valor esperado.
    Uma dívida de R$ 10 mil não vale necessariamente R$ 10 mil para o credor.
    Depende da probabilidade de pagamento.
    É por isso que desconto não significa necessariamente prejuízo
    Imagine duas situações.
    Na primeira, o consumidor tem condições de pagar R$ 10 mil.
    Na segunda, só consegue reunir R$ 5 mil.
    Se o banco insistir nos R$ 10 mil e o consumidor não conseguir pagar, o banco pode terminar com uma recuperação muito pequena.
    Se aceitar R$ 5 mil, transforma parte de um crédito de alto risco em dinheiro efetivamente recebido.
    A renegociação pode ser racional para os dois lados.
    O problema começa quando a dívida já está grande demais
    Juros compostos têm uma característica poderosa.
    Eles fazem uma dívida crescer sobre uma dívida anterior.
    Se uma pessoa possui um saldo de R$ 10 mil e paga juros elevados durante meses sem conseguir amortizar o principal, o valor pode crescer rapidamente.
    É por isso que crédito rotativo, cheque especial e outras modalidades de alto custo podem produzir trajetórias difíceis de reverter.
    O problema não é simplesmente:
    “a pessoa pegou dinheiro emprestado.”
    É:
    “qual é o custo total de manter esse empréstimo ao longo do tempo?”
    A taxa de juros muda completamente a história
    Considere uma dívida de R$ 10 mil.
    A 1% ao mês, sem pagamentos, ela cresce para cerca de R$ 11.268 depois de um ano.
    A 5% ao mês, chegaria a aproximadamente R$ 17.959.
    A diferença não está no valor original da dívida.
    Está no preço do tempo.
    É por isso que juros são uma das variáveis mais importantes das finanças pessoais.
    Mas existe um problema de política pública
    Se o governo oferece repetidamente programas de renegociação, pode surgir uma questão conhecida em economia como risco moral.
    Se uma pessoa acredita que suas dívidas serão sempre renegociadas com grandes descontos, ela pode ter menos incentivo para avaliar cuidadosamente o risco antes de contratar crédito.
    O mesmo problema pode aparecer do lado das instituições financeiras.
    Se um banco acredita que haverá programas públicos recorrentes para limpar carteiras problemáticas, seus incentivos para avaliar risco também podem mudar.
    Isso não significa que programas de renegociação sejam ruins.
    Significa que precisam ser desenhados levando em conta os comportamentos que podem induzir.
    É a diferença entre resolver o estoque e resolver o fluxo
    Essa distinção é fundamental.
    A renegociação resolve parte do estoque de dívida problemática.
    Mas o endividamento também é produzido por um fluxo de novas decisões de crédito.
    Se uma família renegocia hoje uma dívida de R$ 20 mil, mas continua comprometendo parcela excessiva da renda com crédito caro, o problema pode voltar.
    É como retirar água de uma piscina sem fechar a torneira.
    A renda importa tanto quanto o juro
    Uma família pode ter uma dívida administrável em determinado nível de renda.
    Se perde o emprego, a mesma dívida pode se tornar impagável.
    Por isso, inadimplência não é apenas uma questão de comportamento financeiro.
    Também envolve:
    renda
    desemprego
    inflação
    juros
    composição familiar
    acesso ao crédito
    choques inesperados
    Uma política de crédito que ignora esses fatores tende a tratar apenas o sintoma.
    O crédito é útil
    É importante não cair no extremo oposto.
    Crédito não é necessariamente um problema.
    Ele permite que uma família compre uma casa antes de acumular todo o dinheiro necessário.
    Permite que uma empresa invista antes de possuir recursos próprios suficientes.
    Permite suavizar consumo diante de choques temporários de renda.
    O problema aparece quando o custo do crédito e a capacidade de pagamento deixam de ser compatíveis.
    A questão é a capacidade de pagamento
    Imagine uma pessoa que ganha R$ 5 mil.
    Uma parcela mensal de R$ 500 pode ser administrável.
    Uma parcela de R$ 2.500 pode comprometer uma parte muito grande da renda.
    Mesmo que ambas as operações sejam “pagáveis” em algum sentido, o risco econômico é muito diferente.
    Por isso, instituições financeiras analisam renda, histórico, garantias e comportamento.
    O objetivo é estimar a probabilidade de pagamento.
    E aqui aparece uma ideia importante de economia
    Um mercado de crédito funciona melhor quando quem empresta consegue distinguir:
    bons riscos
    de
    maus riscos.
    Se não consegue, pode cobrar juros elevados de todos.
    Isso penaliza bons pagadores.
    Se consegue avaliar corretamente o risco, pode oferecer condições diferentes para diferentes perfis.
    É uma das razões pelas quais informação é tão importante nos mercados financeiros.
    O que acontece depois da renegociação?
    Essa é a pergunta que realmente importa.
    Não basta saber quantas dívidas foram renegociadas.
    Precisamos saber:
    quantas voltaram a ficar inadimplentes,
    quanto tempo permaneceram em dia,
    qual foi a redução média do comprometimento de renda,
    e se os consumidores voltaram a acessar crédito de maneira sustentável.
    Uma renegociação bem-sucedida não é aquela em que o contrato é assinado.
    É aquela em que a dívida deixa de ser um problema recorrente.
    A educação financeira entra aqui
    O próprio Ministério da Fazenda incluiu ações de educação financeira na estrutura do Novo Desenrola. Serviços e Informações do Brasil
    Isso é importante.
    Porque renegociar uma dívida sem mudar a relação com o crédito pode apenas adiar o problema.
    A pergunta deveria ser:
    “Como impedir que a mesma pessoa volte a entrar na mesma situação daqui a dois anos?”

    Essa pergunta é mais difícil.
    Mas também é mais importante.
    O que o fim do programa nos permite avaliar
    O encerramento de hoje é um bom momento para olhar além do número de renegociações.
    O programa conseguiu reduzir o estoque de dívidas problemáticas?
    As famílias recuperaram acesso sustentável ao crédito?
    Os bancos reduziram perdas?
    A inadimplência voltou a subir entre os participantes?
    Houve mudança no comportamento financeiro?
    Esses são os indicadores que permitirão avaliar a política.
    A lição maior
    O Novo Desenrola mostra algo que muitas vezes esquecemos quando discutimos crédito.
    Uma dívida não é apenas um número.
    É um contrato entre duas partes baseado em expectativas sobre o futuro.
    O banco espera receber.
    O consumidor espera conseguir pagar.
    Quando uma dessas expectativas quebra, o problema se espalha.
    A renegociação tenta reconstruir o contrato.
    Mas, para que funcione de verdade, é preciso ir além do desconto.
    É preciso fazer com que a nova parcela seja compatível com a renda e que o novo contrato não seja apenas uma versão adiada do mesmo problema.

    Fontes
    – Presidência da República, Medida Provisória nº 1.355/2026, que instituiu o Novo Desenrola Brasil. Planalto
    – Ministério da Fazenda, legislação e regulamentação do Novo Desenrola. Serviços e Informações do Brasil
    – UOL Economia, balanço do programa e encerramento do prazo em 31 de agosto de 2026. UOL Economia
    – Caixa Econômica Federal, regras de participação e condições de renegociação.

  • O “efeito cobra” pode nunca ter acontecido. A lição sobre incentivos continua verdadeira

    Existe uma história que aparece em praticamente todo livro ou palestra sobre incentivos.
    Durante o domínio britânico na Índia, o governo teria ficado preocupado com a quantidade de cobras venenosas em Delhi.
    A solução parecia óbvia.
    Oferecer uma recompensa por cada cobra morta.
    No começo, funcionou.
    As pessoas passaram a matar cobras.
    Depois, segundo a história, alguém percebeu que poderia ganhar ainda mais dinheiro criando cobras em casa.
    O governo descobriu.
    Cancelou o programa.
    Os criadores soltaram as cobras.
    E o número de serpentes aumentou ainda mais.
    A história ficou conhecida como efeito cobra.
    É uma excelente parábola econômica.
    O problema é que, historicamente, ela é muito menos sólida do que parece.
    O incentivo é real
    A lógica econômica funciona.
    Se o governo paga por determinado resultado, as pessoas passam a ter incentivo para produzir aquele resultado.
    Isso parece trivial.
    Mas existe uma pergunta escondida:
    “O que exatamente estamos pagando?”

    Se pagamos por cobras mortas, criamos um incentivo para obter cobras mortas.
    Não necessariamente para reduzir a população de cobras.
    Essa diferença parece pequena.
    É gigantesca.
    O objetivo e a métrica não são a mesma coisa
    O governo poderia ter como objetivo:
    reduzir acidentes com cobras.
    Mas escolheu como métrica:
    número de cobras mortas.
    As duas coisas estão relacionadas.
    Mas não são iguais.
    Enquanto a relação permanecer forte, a política pode funcionar.
    Se as pessoas encontrarem uma maneira de aumentar a métrica sem produzir o objetivo, o sistema começa a falhar.
    Essa é exatamente a lógica que vimos na Lei de Goodhart.
    O problema é que a história da Índia é controversa
    Pesquisas recentes sobre a origem do relato encontraram problemas importantes na versão popular.
    Documentos históricos mostram que programas de recompensas por animais venenosos realmente existiram em partes da Índia britânica.
    Mas a afirmação de que pessoas passaram a criar cobras em grande escala para receber as recompensas não está bem documentada.
    Uma investigação histórica recente encontrou registros contemporâneos que tratavam essa possibilidade como alegação, não como fato comprovado, e localizou uma consulta de 1887 à Bombay Natural History Society sobre o assunto. Os naturalistas consultados consideraram altamente improvável a criação de cobras venenosas em cativeiro para obter recompensas. Friends of Snakes Society
    Isso muda a história.
    Mas não destrói a lição.
    O incentivo perverso não precisa de cobras
    Imagine uma empresa que pague funcionários por cada chamado de cliente encerrado.
    O objetivo real é:
    resolver problemas.
    A métrica é:
    encerrar chamados.
    O funcionário percebe rapidamente que pode aumentar sua remuneração encerrando chamados rapidamente.
    O número melhora.
    Os clientes continuam com problemas.
    A empresa criou uma máquina de produzir chamados encerrados.
    Não soluções.
    É assim que incentivos perversos funcionam
    Um incentivo é perverso quando produz um comportamento contrário ao objetivo original ou gera consequências indesejadas.
    Não é necessário que alguém seja mal-intencionado.
    Basta que a recompensa esteja ligada a uma variável inadequada.
    É um problema de desenho institucional.
    Pense em uma escola
    Imagine que uma escola seja recompensada apenas pela aprovação dos alunos.
    Existe um incentivo para melhorar o ensino.
    Ótimo.
    Mas também existe outra possibilidade:
    reduzir o nível de dificuldade.
    Facilitar avaliações.
    Evitar reprovações.
    Selecionar alunos mais fáceis de ensinar.
    A taxa de aprovação sobe.
    A aprendizagem pode não subir.
    Novamente:
    métrica ≠ objetivo.
    Agora pense em uma empresa
    Uma empresa quer aumentar receita.
    Cria bônus exclusivamente sobre vendas.
    O vendedor passa a vender.
    Mas pode:
    dar descontos exagerados,
    vender para clientes com alto risco de inadimplência,
    prometer condições inviáveis,
    ou antecipar vendas que aconteceriam no mês seguinte.
    A receita do trimestre sobe.
    O resultado financeiro pode piorar.
    O incentivo fez exatamente aquilo para o qual foi desenhado.
    Esse é o detalhe mais interessante.
    O sistema não necessariamente falhou.
    Ele pode ter funcionado perfeitamente.
    O problema é que o objetivo foi mal especificado.
    É por isso que contratos são difíceis
    Quando uma empresa contrata alguém, não consegue escrever todas as dimensões do comportamento desejado.
    Então utiliza indicadores.
    Mas quanto mais incompleto é o contrato, maior a necessidade de escolher indicadores que representem bem o objetivo.
    Esse problema está no coração da economia dos contratos e da teoria da agência.
    O principal quer determinada ação.
    O agente possui informação e incentivos próprios.
    O contrato tenta alinhar os dois.
    O Estado enfrenta o mesmo problema
    Imagine um programa de combate à pobreza.
    O governo estabelece uma meta de número de famílias cadastradas.
    A burocracia consegue cumprir.
    Mas cadastrar famílias não é o objetivo final.
    Reduzir pobreza é.
    Se a política for avaliada apenas pela quantidade de cadastros, o sistema pode otimizar cadastro.
    Não pobreza.
    É por isso que políticas públicas precisam combinar:
    indicadores de processo
    e
    indicadores de resultado.
    A tecnologia pode tornar isso ainda mais perigoso
    Sistemas digitais permitem criar milhares de indicadores.
    Podemos medir quase tudo.
    Tempo.
    Volume.
    Cliques.
    Produtividade.
    Chamados.
    Conversões.
    Taxas.
    Custos.
    Isso aumenta nossa capacidade de administrar.
    Mas também aumenta nossa capacidade de criar incentivos ruins em escala.
    Um sistema automatizado pode recompensar milhões de decisões com base em uma métrica inadequada.
    O erro deixa de ser local.
    Torna-se sistêmico.
    IA torna o problema ainda mais interessante
    Imagine um agente de IA encarregado de reduzir custos.
    Se sua única métrica for:
    custo mínimo.
    Ele pode procurar maneiras extremamente agressivas de reduzir despesas.
    Pode cortar atividades importantes.
    Pode escolher fornecedores menos confiáveis.
    Pode reduzir redundâncias necessárias.
    Pode aumentar risco operacional.
    O agente não “entendeu errado”.
    Ele seguiu a função objetivo.
    Isso aproxima o problema dos incentivos econômicos de uma questão central da IA:
    como definir objetivos para sistemas que podem otimizar muito mais rapidamente que os seres humanos?
    A história das cobras ensina algo maior
    Mesmo que a famosa criação de cobras não tenha acontecido da maneira como a lenda afirma, a estrutura do problema permanece verdadeira.
    Quando você recompensa um comportamento, você altera o cálculo econômico de quem recebe a recompensa.
    Essa pessoa passa a procurar oportunidades que antes não eram interessantes.
    Isso pode produzir inovação.
    Pode produzir eficiência.
    Pode produzir fraude.
    Pode produzir comportamentos inesperados.
    Tudo depende do desenho do incentivo.
    A pergunta certa antes de criar uma meta
    Antes de anunciar uma recompensa, pergunte:
    “Se alguém for extremamente inteligente e tentar maximizar essa recompensa, o que ele fará?”

    Essa é uma pergunta muito melhor que:
    “O que esperamos que ele faça?”

    Porque pessoas não respondem ao que o gestor pretende.
    Respondem aos incentivos que efetivamente recebem.
    E existe uma segunda pergunta
    “Como alguém poderia cumprir a métrica sem cumprir o objetivo?”

    Se você encontrar uma resposta fácil, a métrica precisa ser redesenhada.
    Não porque as pessoas sejam desonestas.
    Mas porque um sistema econômico bem desenhado precisa assumir que os agentes responderão racionalmente às regras.
    O efeito cobra é uma boa história por outro motivo
    Existe uma ironia interessante.
    Durante décadas, a história foi utilizada para ensinar que incentivos importam.
    Agora precisamos aplicar a mesma lição à própria história.
    O incentivo para contar uma história memorável é forte.
    Uma narrativa simples é mais fácil de ensinar.
    Uma anedota que termina com “o governo criou o problema que queria resolver” é irresistível.
    Mas a realidade histórica pode ser mais complicada.
    E isso também é uma lição sobre economia:
    uma boa história não substitui uma boa evidência.
    A conclusão
    O famoso “efeito cobra” talvez não tenha acontecido exatamente como a história popular conta.
    Mas o mecanismo econômico que ele pretende ilustrar é real.
    Quando uma métrica vira recompensa, ela passa a moldar o comportamento.
    Quando o comportamento muda, a relação original entre indicador e objetivo pode desaparecer.
    É por isso que:
    metas precisam de métricas complementares;
    contratos precisam prever comportamentos estratégicos;
    políticas públicas precisam medir resultados, não apenas atividades;
    e sistemas de IA precisam ser avaliados pela função que realmente estão otimizando.
    No fim, a pergunta mais importante não é:
    “O que queremos que as pessoas façam?”

    É:
    “O que as regras tornam racional fazer?”

    Essa pergunta explica muito mais sobre o comportamento humano do que qualquer discurso sobre boas intenções.

    Fontes
    – Fayrer, J. Destruction of Life by Wild Animals and Venomous Snakes in India, 1878.
    – Bombay Natural History Society, registros históricos sobre a possibilidade de criação de cobras em cativeiro, 1887, discutidos na investigação histórica recente. Friends of Snakes Society
    – Siebert, H. Der Kobra-Effekt, 2001, responsável pela popularização do termo “efeito cobra”.
    – Literatura sobre incentivos perversos e desenho de mecanismos.

  • Lei de Goodhart: quando a meta destrói o indicador

    Imagine que uma empresa queira aumentar a produtividade de seus funcionários.
    Ela escolhe uma métrica:
    número de tarefas concluídas por dia.
    Parece razoável.
    Então anuncia:
    “A partir de agora, cada funcionário deverá concluir 30 tarefas por dia.”

    O que acontece?
    As pessoas começam a trabalhar para atingir o número.
    Algumas tarefas são divididas artificialmente.
    Outras são feitas de maneira mais superficial.
    As mais difíceis são deixadas para depois.
    O indicador melhora.
    A produtividade real talvez não.
    Esse problema é conhecido como Lei de Goodhart.
    A frase ficou famosa
    A formulação mais popular diz:
    “Quando uma medida se torna uma meta, deixa de ser uma boa medida.”

    A frase é atribuída ao economista britânico Charles Goodhart.
    Mas existe uma nuance importante.
    Goodhart originalmente estava discutindo política monetária, não metas empresariais.
    Em 1975, ele observou que uma regularidade estatística poderia deixar de funcionar quando passasse a ser utilizada como instrumento de controle. Marko Živković
    A ideia posteriormente foi generalizada para outros contextos.
    O problema é que indicadores são atalhos
    Imagine que queremos medir a qualidade de um hospital.
    É impossível observar diretamente tudo.
    Então escolhemos indicadores:
    tempo de espera,
    mortalidade,
    número de atendimentos,
    taxa de retorno,
    satisfação dos pacientes.
    Esses números funcionam como aproximações.
    Eles tentam representar algo mais complexo.
    O problema começa quando as pessoas passam a ser recompensadas diretamente pelo indicador.
    O indicador vira o objetivo
    Imagine uma escola avaliada pelo desempenho dos alunos em uma prova.
    Se a nota for apenas uma medida de qualidade, ela pode ser útil.
    Mas imagine que todo o financiamento da escola dependa daquela nota.
    Agora existe um incentivo para ensinar o aluno a fazer a prova.
    A escola pode melhorar a métrica sem necessariamente melhorar a educação.
    Isso não significa que professores sejam desonestos.
    Significa que as regras mudaram o problema que eles estão tentando resolver.
    O fenômeno é econômico
    Em economia, incentivos importam.
    Se você altera o retorno de determinado comportamento, as pessoas respondem.
    É por isso que políticas públicas precisam considerar não apenas:
    “o que queremos incentivar?”
    mas também:
    “o que as pessoas farão para atingir a métrica escolhida?”
    Essa segunda pergunta é frequentemente esquecida.
    Uma empresa pode destruir sua própria métrica
    Imagine uma equipe comercial.
    A empresa define como meta:
    número de novos clientes.
    O vendedor recebe bônus por cada cliente conquistado.
    O que acontece?
    Ele passa a ter incentivo para adquirir clientes.
    Ótimo.
    Mas talvez não tenha incentivo para adquirir bons clientes.
    Pode vender para pessoas que não permanecerão.
    Pode oferecer descontos excessivos.
    Pode prometer coisas que a empresa não consegue entregar.
    A meta aumenta.
    O lucro pode cair.
    O problema está no que a métrica não mede
    Uma boa métrica captura uma parte da realidade.
    Nunca toda a realidade.
    No exemplo comercial:
    novos clientes é uma variável.
    Mas existem outras:
    margem,
    retenção,
    inadimplência,
    custo de aquisição,
    valor do cliente ao longo do tempo.
    Quando apenas uma variável recebe recompensa, ela começa a dominar o comportamento.
    O restante fica invisível.
    Isso acontece também em governos
    Imagine que um programa público tenha como meta atender 100 mil pessoas.
    A administração alcança 110 mil.
    Parece sucesso.
    Mas e se metade das pessoas atendidas não precisasse do serviço?
    Ou se o atendimento fosse tão superficial que não produzisse resultado?
    A quantidade aumentou.
    O impacto pode não ter aumentado.
    Por isso, políticas públicas precisam distinguir:
    output
    de
    outcome.
    Output é o que o governo produz diretamente.
    Outcome é o efeito que aquilo produz na realidade.
    Atender pessoas é output.
    Melhorar a saúde delas é outcome.
    Construir escolas é output.
    Melhorar aprendizagem é outcome.
    Pagar bolsas é output.
    Aumentar permanência escolar pode ser outcome.
    A parte difícil é medir o que realmente importa
    Quanto mais importante é o objetivo, mais difícil costuma ser medi-lo.
    É relativamente fácil contar:
    consultas,
    obras,
    contratos,
    alunos,
    atendimentos,
    horas trabalhadas.
    É muito mais difícil medir:
    qualidade,
    bem-estar,
    produtividade,
    aprendizado,
    inovação,
    confiança.
    Por isso, organizações tendem a utilizar métricas observáveis.
    E isso é racional.
    O problema aparece quando esquecemos que a métrica é apenas uma aproximação.
    Existe uma solução?
    Não é abandonar indicadores.
    Seria impossível administrar organizações complexas sem métricas.
    A solução é reconhecer suas limitações.
    Uma boa estrutura pode combinar:
    múltiplos indicadores
    avaliação qualitativa
    auditoria
    amostragem
    indicadores de resultado
    métricas de longo prazo
    revisão periódica dos incentivos
    Isso torna mais difícil manipular o sistema.
    A tecnologia aumenta o problema
    IA e automação tornam a medição cada vez mais precisa.
    Podemos contar praticamente tudo.
    Quantas mensagens.
    Quantos atendimentos.
    Quanto tempo.
    Quantos cliques.
    Quantas tarefas.
    Quantas vendas.
    Isso parece maravilhoso.
    Mas quanto mais fácil é medir uma variável, maior pode ser a tentação de transformá-la em objetivo.
    A tecnologia melhora nossa capacidade de medir.
    Não necessariamente nossa capacidade de escolher o que deveria ser medido.
    A pergunta que gestores deveriam fazer
    Antes de criar uma meta, pergunte:
    “Se eu pagar alguém para maximizar este número, o que essa pessoa fará?”

    Essa pergunta é extremamente poderosa.
    Se a resposta parecer diferente do comportamento que realmente queremos, existe um problema.
    A métrica está mal desenhada.
    E existe uma segunda pergunta
    “O que pode melhorar sem que o objetivo real melhore?”

    Essa pergunta procura efeitos colaterais.
    Se o objetivo é reduzir tempo de atendimento, podemos reduzir o tempo simplesmente encerrando atendimentos mais rápido.
    Se o objetivo é aumentar produção, podemos reduzir qualidade.
    Se o objetivo é aumentar vendas, podemos aumentar descontos.
    Se o objetivo é aumentar aprovação escolar, podemos facilitar a avaliação.
    O número melhora.
    A realidade pode piorar.
    Goodhart não significa que toda meta é ruim
    Esse também é um erro comum.
    Metas são úteis.
    Indicadores são úteis.
    Bonificações são úteis.
    O problema é a relação entre eles.
    Uma métrica funciona melhor quando continua sendo uma boa representação do objetivo mesmo depois que as pessoas sabem que ela será usada para avaliá-las.
    Quando o incentivo fica muito forte, a relação pode se romper.
    A lição econômica
    Goodhart começou falando de política monetária.
    Mas sua ideia atravessou décadas e chegou a empresas, governos, escolas e sistemas digitais.
    A razão é simples.
    Pessoas respondem aos incentivos criados pelos sistemas de medição.
    Se medimos uma variável, ela pode orientar decisões.
    Se premiamos essa variável, ela passa a orientar ainda mais.
    Se transformamos essa variável no objetivo principal, as pessoas podem começar a otimizar o número em vez da realidade que o número deveria representar.
    Por isso, uma boa gestão não pergunta apenas:
    “Qual é nossa meta?”

    Pergunta também:
    “O que estamos incentivando as pessoas a fazer para atingir essa meta?”

    É nessa segunda pergunta que começa a verdadeira engenharia de incentivos.

    Fontes
    – Goodhart, C. A. E. “Problems of Monetary Management: The UK Experience.” 1975. Marko Živković
    – Goodhart, C. A. E. “The ECB and the Conduct of Monetary Policy: Goodhart’s Law and Lessons for the Euro Area.” Journal of Common Market Studies, 2006. Wiley Online Library
    – Strathern, M. “‘Improving ratings’: audit in the British University system.” European Review, 1997. A formula popularizada da Lei de Goodhart deriva dessa literatura posterior.