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  • A dívida pública brasileira ficou mais exposta à Selic. Por que isso importa?

    O Tesouro projeta que até 53% da dívida federal poderá estar ligada à Selic em 2026.

    Existe uma diferença importante entre ter uma dívida grande e ter uma dívida vulnerável a mudanças nos juros.

    O Brasil está enfrentando as duas questões ao mesmo tempo.

    O Tesouro Nacional revisou sua projeção e agora estima que os títulos públicos vinculados à taxa Selic poderão representar 49% a 53% da Dívida Pública Federal em 2026. A projeção anterior era de 46% a 50%. Em julho, essa participação já havia chegado a 51,1%.

    O problema não é simplesmente o percentual.

    É o mecanismo por trás dele.

    O que significa uma dívida ligada à Selic?

    Imagine que você tenha uma dívida de R$ 100 mil cuja remuneração acompanha uma taxa de juros.

    Se os juros sobem, sua despesa financeira sobe.

    Se os juros caem, ela diminui.

    Agora imagine isso em uma escala de trilhões de reais.

    É aproximadamente esse o problema que aparece quando uma parcela grande da dívida pública está ligada à taxa básica de juros.

    O governo precisa refinanciar sua dívida continuamente.

    Quando a taxa é alta, o custo financeiro aumenta.

    Por que o Tesouro está emitindo mais títulos desse tipo?

    A resposta é menos intuitiva do que parece.

    Em períodos de maior incerteza, investidores tendem a preferir títulos de prazo menor ou com remuneração flutuante porque eles ficam menos expostos às oscilações dos juros de mercado.

    O próprio Tesouro atribuiu o aumento da participação dos títulos flutuantes à combinação de volatilidade elevada e juros altos.

    É uma espécie de círculo.

    O governo precisa vender títulos.

    Os investidores querem determinados tipos de títulos.

    O Tesouro adapta sua estratégia de financiamento.

    O resultado pode ser uma composição de dívida mais sensível aos juros.

    Isso significa que o governo está quebrado?

    Não.

    Essa seria uma interpretação exagerada.

    A dívida pública é administrável quando o governo consegue refinanciá-la e quando sua trajetória é compatível com a capacidade de geração de receita e crescimento da economia.

    O problema aparece quando a combinação de:

    dívida elevada + juros elevados + crescimento baixo + resultado fiscal fraco

    começa a produzir uma trajetória pouco sustentável.

    É uma questão de dinâmica.

    A Selic entra diretamente nessa conta

    A Selic está em 14% ao ano.

    Ao mesmo tempo, a inflação em 12 meses estava em torno de 4,2% em meados de agosto.

    Isso significa que o Brasil continua com uma taxa real de juros muito elevada.

    Para o governo, isso tem consequência direta.

    Quanto maior o custo de financiamento, maior tende a ser a despesa com juros sobre a dívida.

    E quanto maior a parcela da dívida que acompanha a taxa básica, mais rapidamente esse efeito aparece.

    Existe uma diferença entre estoque e fluxo

    Esse é um detalhe que costuma desaparecer nas discussões sobre dívida pública.

    O governo possui um estoque de dívida.

    Mas o custo da dívida aparece continuamente como fluxo de juros.

    Se uma parte importante do estoque é refinanciada a juros altos, o custo anual pode aumentar.

    É parecido com uma empresa que possui um grande volume de empréstimos.

    Não basta saber quanto ela deve.

    É preciso saber:

    a que taxa?

    por quanto tempo?

    quando vence?

    é prefixado ou pós-fixado?

    há risco cambial?

    É exatamente por isso que gestores de dívida pública trabalham com composição e prazo, não apenas com o valor total.

    E o Brasil tem uma dívida grande

    A dívida pública bruta brasileira chegou a 81,9% do PIB, segundo os dados citados pela Reuters.

    A Dívida Pública Federal, por sua vez, chegou a R$ 9,289 trilhões em julho.

    São medidas diferentes e não devem ser misturadas.

    A dívida bruta do governo geral é uma medida ampla da posição fiscal.

    A Dívida Pública Federal corresponde às obrigações administradas pelo Tesouro Nacional.

    Essa distinção é importante para não transformar números diferentes em uma única estatística.

    O problema não é apenas o tamanho

    Imagine duas empresas.

    A primeira deve R$ 1 bilhão.

    A segunda também.

    Mas a primeira possui dívida de longo prazo, com taxa fixa e fluxo de caixa previsível.

    A segunda possui dívida de curto prazo, pós-fixada e precisa refinanciar grande parte dela todos os anos.

    As duas devem o mesmo valor.

    Mas enfrentam riscos muito diferentes.

    A mesma lógica vale para o governo.

    Por isso, a composição da dívida é tão importante.

    E aqui existe uma notícia ruim

    O Tesouro reduziu a previsão para a participação dos títulos prefixados e indexados à inflação.

    A estimativa para títulos ligados à inflação passou para 21% a 25%, contra 23% a 27% anteriormente.

    A projeção para prefixados caiu para 20% a 24%, ante 21% a 25%.

    A faixa prevista para títulos cambiais permaneceu em 3% a 7%.

    O resultado é uma dívida potencialmente mais concentrada em instrumentos sensíveis à taxa de juros.

    Mas existe uma notícia boa

    O Brasil possui um mercado doméstico de dívida relativamente desenvolvido.

    O Tesouro tem acesso a diferentes tipos de investidores e instrumentos.

    Além disso, o Plano Anual de Financiamento estabelece como objetivo de longo prazo reduzir gradualmente a participação de títulos flutuantes e aumentar instrumentos prefixados e indexados a preços.

    Portanto, a composição atual não é necessariamente uma decisão estrutural permanente.

    Ela também é uma resposta às condições de mercado.

    O que isso tem a ver com o cidadão comum?

    Muito.

    A dívida pública não é um assunto restrito ao Tesouro Nacional.

    Se o custo de financiamento do governo aumenta, existe pressão sobre o orçamento público.

    Isso pode reduzir espaço para outras despesas.

    Também pode manter os juros elevados por mais tempo, dependendo da interação entre política fiscal e monetária.

    E juros elevados afetam:

    crédito imobiliário, empréstimos, financiamento empresarial, consumo e investimentos.

    A dívida pública parece distante.

    Mas sua taxa de juros chega ao cotidiano.

    A questão central é fiscal

    É tentador tratar a notícia como um problema exclusivamente financeiro.

    Não é.

    A composição da dívida responde também à percepção dos investidores sobre o futuro.

    Se existe confiança de que a trajetória fiscal será sustentável, o Tesouro pode conseguir emitir títulos de prazo maior e com condições melhores.

    Se a incerteza aumenta, investidores podem preferir papéis mais curtos e indexados à Selic.

    Portanto, a composição da dívida também funciona como um termômetro das condições financeiras do país.

    O que devemos observar

    Três números serão particularmente importantes daqui para frente:

    A participação da dívida Selic.

    Se continuar aumentando, a sensibilidade do custo da dívida aos juros cresce.

    O resultado fiscal.

    Uma dívida elevada precisa ser acompanhada por uma trajetória fiscal capaz de estabilizá-la.

    A curva de juros.

    Não basta observar a Selic atual. O custo de financiamento do governo depende também das taxas esperadas para os próximos anos.

    A conclusão

    A notícia mais importante não é que 53% da dívida poderá estar ligada à Selic.

    É o que esse número revela.

    Em um ambiente de juros elevados e maior incerteza, o mercado está demandando uma composição de dívida mais sensível às taxas de curto prazo.

    Isso aumenta a importância da política fiscal.

    Se a inflação continuar cedendo e a Selic cair, a pressão diminui.

    Se os juros permanecerem elevados por mais tempo, a estrutura atual pode aumentar o custo de financiamento.

    Por isso, a dívida pública e a política monetária não podem ser analisadas separadamente.

    Quanto mais sensível é a dívida aos juros, mais caro fica errar na política fiscal.

    Fontes
    Tesouro Nacional, Plano Anual de Financiamento 2026.
    Tesouro Nacional, dados da Dívida Pública Federal e PAF 2026.
    Ministério da Fazenda, divulgação do Relatório Mensal da Dívida de julho de 2026.
    Reuters, “Brazil lifts forecast for share of interest-rate-linked debt to record high this year”, 26 ago. 2026.

  • A inflação desacelerou. Isso significa que a Selic pode cair mais rápido?

    O IPCA-15 veio abaixo das expectativas, mas o dado não resolve sozinho o problema do Banco Central.

    A inflação brasileira deu mais um sinal de alívio em agosto. O IPCA-15 caiu 0,40% no mês, depois de ter avançado 0,33% em julho. Em 12 meses, o índice passou de 4,52% para 4,24%, abaixo da expectativa de 4,34% dos economistas consultados pela Reuters.

    À primeira vista, parece uma notícia simples.

    Inflação menor significa que o Banco Central pode reduzir os juros.

    Mas a relação entre as duas coisas não é tão automática.

    O dado de agosto é bom. A questão é saber o quanto ele muda a trajetória da política monetária.

    O que aconteceu com os preços

    A queda do IPCA-15 foi relativamente disseminada.

    Habitação teve recuo de 1,41%, transporte caiu 1% e alimentação e bebidas recuaram 0,57%. Um dos fatores mais importantes para a habitação foi um desconto temporário na conta de energia relacionado à usina de Itaipu.

    Esse detalhe importa.

    Uma inflação menor pode resultar de uma melhora estrutural do processo inflacionário ou de fatores pontuais.

    Não é a mesma coisa.

    Se o preço da energia cai por uma razão específica e temporária, isso ajuda o índice do mês, mas não necessariamente significa que a economia passou a gerar menos pressão sobre os preços.

    É por isso que o Banco Central olha para mais do que o número cheio.

    O número que importa é a tendência

    Imagine uma pessoa que estava com febre de 39°C e agora está com 37,8°C.

    É uma melhora.

    Mas ainda não sabemos se ela está se recuperando definitivamente.

    Precisamos observar os próximos dias.

    Com a inflação acontece algo parecido.

    O IPCA-15 de agosto foi positivo para o cenário porque mostrou uma desaceleração mais forte que a esperada. Mas uma decisão de política monetária depende da trajetória dos preços, das expectativas, da atividade econômica e de outras variáveis.

    O Banco Central trabalha com uma meta de inflação de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. A inflação em 12 meses ainda está acima do centro da meta.

    Portanto, a notícia é boa.

    Mas não significa que o problema esteja resolvido.

    E a Selic?

    A Selic está atualmente em 14% ao ano, depois de quatro cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual iniciados em março.

    A questão agora é se a melhora da inflação permite acelerar esse processo.

    Em princípio, inflação menor aumenta o espaço para cortes.

    Mas existe uma segunda variável importante:

    as expectativas.

    O Banco Central não olha apenas para a inflação que já aconteceu.

    Ele precisa tentar antecipar a inflação que virá.

    Se empresas, trabalhadores e investidores acreditarem que os preços continuarão subindo acima da meta, essa expectativa pode influenciar salários, preços e contratos.

    É por isso que uma inflação corrente menor pode coexistir com uma política monetária ainda cautelosa.

    O problema das expectativas

    Imagine uma empresa que precisa reajustar seus preços daqui a seis meses.

    Se ela acredita que a inflação será de 3%, provavelmente fará um reajuste diferente daquele que faria esperando 6%.

    A expectativa altera decisões presentes.

    É justamente por isso que credibilidade importa tanto na política monetária.

    Um Banco Central não precisa apenas reagir aos preços.

    Precisa convencer os agentes econômicos de que está disposto a manter a inflação sob controle.

    Há outra coisa importante: a atividade econômica

    Juros altos fazem duas coisas simultaneamente.

    Eles ajudam a reduzir a demanda.

    Mas também encarecem o crédito.

    Uma família pode adiar a compra de um carro.

    Uma empresa pode desistir de ampliar uma fábrica.

    Um consumidor pode preferir guardar dinheiro a tomar empréstimo.

    Essa redução da demanda ajuda a diminuir pressões inflacionárias.

    Mas tem um custo sobre a atividade econômica.

    Por isso, a política monetária é sempre uma questão de equilíbrio.

    O Banco Central não está tentando simplesmente produzir a menor inflação possível.

    Está tentando fazer com que a inflação converja para a meta sem produzir uma desaceleração desnecessariamente forte da economia.

    O IPCA-15 muda alguma coisa?

    Sim.

    Mas provavelmente muda mais a margem de segurança para cortes do que a direção da política.

    O dado mostra que a inflação está comportada em relação ao que se esperava para agosto.

    Isso melhora o ambiente para uma flexibilização monetária.

    Mas ainda é cedo para concluir que o Banco Central poderá acelerar fortemente os cortes.

    A próxima reunião do Copom está marcada para 15 e 16 de setembro de 2026.

    Até lá, novos dados de inflação, atividade, mercado de trabalho e expectativas poderão alterar a avaliação.

    O que realmente devemos acompanhar

    Mais importante que comemorar o IPCA-15 de agosto é observar se a melhora se sustenta.

    Quatro pontos merecem atenção:

    Inflação de serviços. É uma das partes mais importantes para avaliar pressões persistentes.

    Núcleos de inflação. Eles ajudam a retirar efeitos muito voláteis do índice cheio.

    Expectativas. Se continuarem acima da meta, o Banco Central terá menos espaço para acelerar.

    Atividade econômica. Uma desaceleração mais forte pode aumentar o espaço para cortes.

    O dado de hoje é uma peça do quebra-cabeça.

    Não é o quebra-cabeça inteiro.

    O que o investidor deveria entender

    Existe uma consequência prática.

    Se o mercado passar a acreditar que os juros cairão mais rapidamente, ativos de renda fixa prefixados e títulos de maior duration podem se beneficiar da queda das taxas futuras.

    Mas isso depende da interpretação do mercado.

    Se os próximos dados voltarem a mostrar pressão inflacionária, a expectativa pode se inverter.

    Por isso, investir olhando apenas para a Selic atual é insuficiente.

    É preciso acompanhar a curva de juros e as expectativas sobre a política monetária.

    A inflação melhorou. A história ainda não acabou

    O IPCA-15 de agosto é uma boa notícia.

    A inflação mensal caiu.

    A inflação em 12 meses desacelerou.

    O resultado veio abaixo das expectativas.

    Mas a Selic continua em 14%, e a inflação ainda está acima do centro da meta.

    A conclusão mais correta, portanto, não é:

    “Os juros vão cair rapidamente.”

    É mais simples:

    o cenário para novos cortes melhorou.

    Agora será preciso descobrir se essa melhora é persistente.

    Fontes
    IBGE, IPCA e IPCA-15, fonte oficial das estatísticas de inflação.
    Reuters, “Brazil’s inflation cools as prices post first monthly decline in a year”, 26 ago. 2026.
    Banco Central do Brasil, informações sobre política monetária e Copom.

  • O BNDES voltou a liberar muito dinheiro. Isso ajuda ou atrapalha a economia brasileira?

    Há um número que merece atenção no debate econômico brasileiro: R$ 75,6 bilhões.

    Esse foi o volume de crédito desembolsado pelo BNDES no primeiro semestre de 2026, segundo dados da série histórica do banco divulgados nesta semana. O valor, corrigido pela inflação, representa alta de 31,2% em relação ao mesmo período de 2025 e é o maior para um primeiro semestre desde 2015.

    À primeira vista, a notícia parece simples:

    mais crédito = mais investimento = mais crescimento.

    Mas a economia é menos simples.

    O Brasil está simultaneamente tentando estimular o investimento e combater uma inflação que ainda está acima da meta.

    E é exatamente aí que o BNDES se torna interessante.

    O que o BNDES está fazendo?

    O banco de desenvolvimento possui uma função diferente da de um banco comercial convencional.

    Seu objetivo não é apenas emprestar dinheiro. É financiar investimentos que possam produzir efeitos econômicos mais amplos: infraestrutura, inovação, indústria, máquinas, exportações e outros projetos de longo prazo.

    Em maio, por exemplo, o BNDES informou que sua carteira de crédito havia alcançado R$ 678,2 bilhões no primeiro trimestre, alta de 14% em relação ao ano anterior. Os desembolsos do trimestre também haviam crescido significativamente.

    Em 2026, esse movimento se aprofundou.

    A infraestrutura recebeu R$ 28,5 bilhões no primeiro semestre, segundo os dados divulgados pela imprensa a partir da série do BNDES.

    Isso é relevante porque infraestrutura pode aumentar a capacidade produtiva da economia.

    Uma estrada melhor, uma ferrovia, uma rede elétrica ou uma fábrica mais moderna não apenas geram demanda hoje.

    Podem aumentar a oferta amanhã.

    Então por que existe preocupação?

    Porque tempo e composição importam.

    Se o crédito público financia rapidamente uma expansão da demanda em uma economia que já está próxima do pleno emprego, pode haver pressão sobre preços.

    O Banco Central está justamente tentando fazer o contrário.

    Na reunião de agosto, o Copom reduziu a Selic para 14% ao ano, mas destacou que as expectativas de inflação para 2026 e 2027 permaneciam acima da meta: 5,0% e 4,2%, respectivamente.

    Isso cria uma aparente contradição.

    De um lado:

    Banco Central: desacelerar a demanda para controlar a inflação.

    Do outro:

    política de desenvolvimento: ampliar crédito e investimento.

    Mas a contradição só existe se tratarmos todo crédito como equivalente.

    Não é.

    Crédito para consumo não é igual a crédito para investimento

    Imagine duas situações.

    Na primeira, uma família pega dinheiro emprestado para antecipar consumo.

    A demanda aumenta imediatamente.

    Na segunda, uma empresa financia uma nova máquina que aumenta sua capacidade produtiva.

    A demanda aumenta hoje, mas a capacidade de produção também aumenta no futuro.

    Os dois empréstimos têm efeitos macroeconômicos diferentes.

    Por isso, a discussão correta não deveria ser simplesmente:

    “O BNDES está emprestando demais?”

    A pergunta deveria ser:

    “Para onde está indo o crédito e qual retorno econômico ele produz?”

    Essa é uma pergunta muito mais difícil.

    E também muito mais importante.

    O verdadeiro problema do crédito público

    O risco de um banco público não é apenas provocar inflação.

    Existe outro problema: alocação ineficiente de capital.

    Se o Estado financia projetos que seriam realizados pelo mercado privado de qualquer maneira, pode simplesmente substituir uma fonte de financiamento por outra.

    Se financia projetos pouco produtivos por razões políticas, pode destruir capital.

    Mas se consegue financiar investimentos com externalidades positivas, inovação ou retorno social superior ao retorno privado, sua atuação pode ser justificável.

    Essa é uma das razões pelas quais a literatura sobre desenvolvimento insiste tanto em avaliar políticas industriais e bancos de desenvolvimento pelo efeito produzido, e não apenas pelo volume desembolsado. O próprio BNDES mantém uma estrutura de pesquisa e avaliação de efetividade de suas operações.

    O número de R$ 75,6 bilhões, portanto, não é uma conclusão

    É um ponto de partida.

    O aumento do crédito pode ser uma excelente notícia se estiver financiando aumento de produtividade, infraestrutura, inovação e expansão da capacidade exportadora.

    Pode ser menos positivo se estiver apenas substituindo crédito privado ou sustentando projetos de baixa produtividade.

    E pode criar tensão com a política monetária se a expansão da demanda ocorrer muito antes do aumento da oferta.

    O desafio brasileiro é justamente conseguir fazer uma coisa difícil:

    investir mais sem simplesmente aquecer a demanda; financiar transformação produtiva em vez de apenas estimular consumo.

    É aí que a qualidade do crédito importa mais que seu volume.

    Fontes: BNDES, Banco Central e dados reportados pela imprensa.

  • Desenvolvimento regional no Brasil: por que distribuir dinheiro não basta

    Existe uma ideia recorrente no debate brasileiro sobre desigualdade regional:

    regiões pobres precisam receber mais dinheiro.

    A afirmação parece óbvia.

    Mas ela é insuficiente.

    Se fosse apenas uma questão de transferir recursos, o Brasil provavelmente já teria resolvido uma parte muito maior de suas desigualdades territoriais.

    O problema do desenvolvimento regional é mais difícil: é preciso criar condições para que uma região produza mais, inove mais, conecte-se melhor aos mercados e forme capital humano suficiente para sustentar esse processo.

    É por isso que uma política regional séria não pode ser reduzida a subsídios, transferências ou construção de obras isoladas.

    A desigualdade brasileira é territorial

    As diferenças entre regiões brasileiras não aparecem apenas na renda.

    Elas também aparecem na produtividade, infraestrutura, qualificação profissional, capacidade tecnológica, estrutura produtiva e qualidade das instituições.

    O Ipea há décadas trata o desenvolvimento regional como um problema multidimensional. Estudos da instituição destacam que as desigualdades regionais brasileiras continuam relacionadas a diferenças de estrutura produtiva, infraestrutura, educação, emprego e capacidade institucional.

    Isso muda completamente a pergunta.

    Em vez de perguntar:

    “Quanto dinheiro uma região recebe?”

    deveríamos perguntar:

    “Quais capacidades econômicas e institucionais esse dinheiro está construindo?”

    Infraestrutura é necessária, mas não suficiente

    Imagine uma região que recebe uma nova rodovia.

    A obra pode reduzir custos de transporte.

    Mas isso não significa automaticamente desenvolvimento.

    Se as empresas locais continuam produzindo bens de baixa produtividade, se não há qualificação profissional, se a infraestrutura digital é precária e se não existe capacidade de inovação, a nova estrada pode simplesmente facilitar o escoamento de produtos primários.

    A infraestrutura resolve uma restrição.

    Não cria, sozinha, uma economia dinâmica.

    É por isso que estudos do Ipea sobre desenvolvimento regional enfatizam a combinação entre infraestrutura, formação profissional, ciência, tecnologia, inovação e fortalecimento institucional.

    O problema dos “projetos salvadores”

    Existe também uma tentação política recorrente: procurar uma grande obra capaz de transformar uma região.

    Um porto.

    Uma refinaria.

    Uma ferrovia.

    Uma fábrica.

    Um polo tecnológico.

    Esses projetos podem ser importantes.

    Mas desenvolvimento econômico raramente acontece por causa de um único empreendimento.

    Ele acontece quando várias capacidades se reforçam mutuamente.

    Uma empresa inovadora precisa de trabalhadores qualificados.

    Trabalhadores qualificados precisam de instituições de ensino.

    Instituições de ensino precisam de financiamento e conexão com empresas.

    Empresas precisam de infraestrutura.

    Infraestrutura precisa de manutenção.

    E tudo isso precisa de instituições públicas capazes de coordenar políticas ao longo do tempo.

    É um sistema.

    Não uma obra.

    O papel das cidades médias

    Uma das ideias particularmente interessantes da literatura brasileira sobre desenvolvimento regional é a importância das cidades médias.

    O objetivo não deveria ser concentrar toda a atividade econômica em algumas poucas metrópoles.

    Mas também não faz sentido tentar transformar cada município em um polo industrial autônomo.

    Uma estratégia intermediária pode ser fortalecer cidades capazes de funcionar como centros regionais de serviços, conhecimento, logística e produção.

    Estudos do Ipea destacam justamente a importância de redes de cidades intermediárias para articular sistemas produtivos e inovativos locais.

    Isso permite pensar desenvolvimento regional como uma rede, e não como uma coleção de municípios competindo individualmente por recursos federais.

    A política regional precisa produzir produtividade

    Esse talvez seja o ponto mais importante.

    A finalidade de longo prazo de uma política regional não deveria ser apenas elevar a renda por meio de transferências.

    Deveria ser aumentar a capacidade produtiva.

    Isso significa:

    • elevar a produtividade das empresas;
    • melhorar a infraestrutura;
    • aumentar a qualificação da mão de obra;
    • estimular inovação;
    • integrar universidades e empresas;
    • reduzir custos logísticos;
    • fortalecer instituições locais;
    • conectar produtores regionais a mercados nacionais e internacionais.

    O Ipea identifica justamente infraestrutura, formação profissional e ciência, tecnologia e inovação como elementos estruturantes do desenvolvimento regional.

    O que muda quando pensamos assim?

    Muda a avaliação das políticas públicas.

    Um programa não deve ser considerado bem-sucedido simplesmente porque:

    “R$ 1 bilhão foi investido.”

    A pergunta precisa ser:

    “O que esse R$ 1 bilhão mudou?”

    Aumentou produtividade?

    Criou empresas competitivas?

    Gerou empregos persistentes?

    Aumentou exportações?

    Melhorou a capacidade tecnológica?

    Reduziu custos logísticos?

    Criou capital humano?

    Ou apenas produziu uma fotografia bonita da inauguração?

    Essa distinção é fundamental.

    Desenvolvimento regional é uma política de longo prazo

    Talvez essa seja a principal razão pela qual políticas regionais frequentemente decepcionam.

    Governos trabalham em ciclos eleitorais.

    Desenvolvimento trabalha em décadas.

    Uma universidade pode levar anos para formar capital humano.

    Uma infraestrutura pode levar décadas para produzir retorno integral.

    Uma empresa pode precisar de dez anos para construir uma cadeia de fornecedores.

    Uma região pode precisar de uma geração para mudar sua estrutura produtiva.

    Por isso, uma política regional consistente precisa sobreviver à troca de governos.

    Ela precisa de avaliação, metas, mecanismos de correção e instituições capazes de preservar aquilo que funciona.

    O próprio plano de trabalho do Ipea para 2026 inclui apoio ao monitoramento e avaliação da Política Nacional de Desenvolvimento Regional e de seus instrumentos.

    Esse é o caminho mais promissor.

    Desenvolvimento regional não é fazer regiões pobres receberem mais dinheiro. É fazer com que elas precisem, progressivamente, de menos compensações porque passaram a produzir mais valor.

  • Lula e Trump voltaram a conversar. O que realmente mudou na relação Brasil–EUA?

    A conversa telefônica entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump em 21 de agosto produziu uma mudança importante no conflito comercial entre Brasil e Estados Unidos: o canal político voltou a funcionar.

    Mas seria um erro confundir reabertura do diálogo com solução da disputa.

    Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, depois da conversa entre os presidentes, o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, entrou em contato com o governo brasileiro para retomar as negociações. Uma reunião entre equipes brasileiras e o USTR deverá ocorrer na próxima semana, embora a data ainda não tenha sido definida.

    Isso é relevante porque, até aqui, a questão tarifária vinha sendo tratada dentro de um ambiente de forte deterioração política. O Brasil chegou a apresentar, em 27 de julho, pedido de consultas contra os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio, contestando duas medidas tarifárias baseadas na Seção 301 da legislação comercial americana.

    O que mudou?

    A primeira mudança é diplomática.

    Quando presidentes voltam a conversar diretamente, aumenta a possibilidade de transformar uma disputa política em uma negociação técnica.

    Isso não significa que as posições tenham mudado.

    Significa que voltou a existir um mecanismo para tentar aproximá-las.

    Essa distinção é importante.

    O governo brasileiro continua considerando as tarifas americanas injustificadas. Ao mesmo tempo, Washington ainda mantém instrumentos tarifários que atingem produtos brasileiros.

    Portanto, o problema central permanece.

    O que mudou foi o custo de continuar escalando o conflito sem negociação.

    Por que o comércio importa tanto nessa disputa?

    Porque tarifas não são apenas uma questão diplomática.

    Elas alteram preços relativos, margens de empresas, decisões de investimento e fluxos comerciais.

    Uma tarifa americana sobre um produto brasileiro pode reduzir sua competitividade no mercado americano. Mas também pode aumentar o preço daquele produto para consumidores e empresas nos Estados Unidos.

    É justamente por isso que uma guerra comercial raramente produz apenas um vencedor.

    O efeito depende da capacidade de cada lado de substituir fornecedores, redirecionar exportações e absorver custos.

    O governo brasileiro já vinha preparando mecanismos para reduzir o impacto das tarifas sobre empresas afetadas. Em julho, o governo apresentou uma nova etapa do Plano Brasil Soberano voltada justamente às empresas atingidas pelas tarifas e pela incerteza internacional.

    O verdadeiro teste começa agora

    O telefonema entre Lula e Trump é politicamente importante.

    Mas economicamente, o que importa será o conteúdo da negociação.

    Há pelo menos três perguntas que precisam ser respondidas:

    1. Quais tarifas podem ser efetivamente reduzidas?

    2. Quais concessões Washington espera obter do Brasil?

    3. Qual será o custo econômico de qualquer acordo para os dois países?

    O Brasil também não está entrando nessa negociação sem instrumentos.

    A abertura do processo na OMC, a diversificação comercial e as medidas internas de apoio às empresas aumentam o espaço de negociação brasileiro.

    Mas há uma limitação estrutural: os Estados Unidos continuam sendo um dos principais mercados para produtos brasileiros de maior valor agregado.

    Por isso, diversificar mercados é importante, mas não substitui automaticamente o mercado americano.

    O que devemos observar daqui para frente

    O próximo passo não é outra declaração presidencial.

    É a reunião das equipes técnicas.

    Será ali que saberemos se a conversa de 21 de agosto foi apenas uma tentativa de distensão ou o início de uma negociação capaz de produzir resultados concretos.

    A melhor leitura neste momento, portanto, não é “Brasil e Estados Unidos fizeram as pazes”.

    É mais simples:

    a diplomacia voltou a funcionar depois de um período em que a política estava dominando o comércio.

    E isso, por si só, já é uma mudança relevante.

    Fontes principais: MDIC e Ministério das Relações Exteriores.

  • O governo diz que cumpre a meta fiscal. A IFI está olhando para outra coisa

    Existe uma diferença importante entre cumprir formalmente uma meta fiscal e ter uma situação fiscal saudável.

    Essa diferença voltou ao centro da discussão nesta semana depois que a Instituição Fiscal Independente, órgão do Senado, apontou que o resultado fiscal de 2026 precisa ser interpretado com cuidado.

    Segundo a IFI, o cumprimento formal da meta depende de deduções legais de despesas e da utilização da margem de tolerância prevista na legislação. Sem essas deduções, a situação é menos confortável.

    O ponto mais importante, porém, está em outro número.

    O déficit estrutural dobrou

    A IFI estimou que o déficit estrutural do governo central, no acumulado de quatro trimestres até junho, chegou a 1,4% do PIB, contra 0,7% no mesmo período de 2025.

    Mas o que significa “déficit estrutural”?

    Imagine que a arrecadação de um governo aumente porque a economia está temporariamente forte.

    O governo pode parecer mais saudável.

    Agora imagine que parte desse aumento de receita desapareça quando o ciclo econômico mudar.

    O resultado estrutural tenta justamente separar o que é temporário do que é permanente.

    É uma tentativa de responder:

    Como estaria a situação fiscal se retirássemos os efeitos extraordinários do ciclo econômico e de outros fatores temporários?

    Por isso esse indicador é importante.

    A meta fiscal pode ser cumprida e ainda assim existir um problema

    A matemática é possível.

    Suponha que a legislação permita excluir determinadas despesas do cálculo da meta.

    O governo pode cumprir a meta definida em lei.

    Mas isso não significa necessariamente que a dívida esteja em trajetória sustentável.

    São conceitos diferentes.

    A meta fiscal é uma regra institucional.

    A sustentabilidade fiscal é uma questão econômica.

    Uma pode ser atendida enquanto a outra continua problemática.

    Os restos a pagar complicam ainda mais a fotografia

    A IFI também chamou atenção para um problema menos conhecido do público.

    O estoque de restos a pagar chegou a um nível que limita a capacidade de pagamento do governo.

    Segundo a instituição, há cerca de R$ 330,9 bilhões em obrigações passíveis de pagamento, considerando orçamento e restos a pagar, enquanto o limite de pagamento de despesas discricionárias seria de aproximadamente R$ 225,4 bilhões.

    A diferença, de R$ 105,5 bilhões, representa uma restrição relevante.

    Isso é importante porque orçamento autorizado não significa necessariamente dinheiro disponível para pagar tudo imediatamente.

    E as emendas entram nessa história

    A IFI observou que houve concentração de pagamentos de emendas parlamentares no primeiro semestre.

    A LDO de 2026 estabeleceu que 65% das emendas individuais e de bancada fossem pagas até junho. A concentração altera a trajetória de execução das despesas ao longo do ano e contribuiu para um impulso fiscal mais expansionista no primeiro semestre.

    Não é necessário transformar isso em uma discussão partidária para entender o mecanismo.

    Em ano eleitoral, a distribuição temporal dos gastos pode alterar significativamente o perfil da política fiscal.

    Se grande parte da despesa é executada no primeiro semestre, o estímulo à demanda também aparece mais cedo.

    E isso importa porque a política monetária está tentando fazer o contrário

    Aqui está a parte econômica mais interessante.

    O Banco Central reduziu a Selic para 14% em agosto, mas continua afirmando que a inflação e as expectativas estão acima do desejável.

    Imagine duas forças atuando simultaneamente.

    De um lado:

    Banco Central → juros elevados → desaceleração da demanda.

    Do outro:

    Política fiscal → aumento de despesas → sustentação da demanda.

    Isso não significa necessariamente que uma política esteja “errada” e a outra “certa”.

    Mas significa que existe uma interação.

    Se o fiscal for muito expansionista enquanto a política monetária tenta reduzir a demanda, o Banco Central pode precisar manter juros mais altos por mais tempo.

    Esse é um dos canais pelos quais a política fiscal afeta indiretamente o custo do crédito para toda a economia.

    O problema não é simplesmente “gastar”

    Essa distinção é fundamental.

    Uma despesa pública pode ser ruim para a sustentabilidade fiscal e ainda ser socialmente necessária.

    Outra pode aumentar a capacidade produtiva e melhorar a situação fiscal no futuro.

    Uma terceira pode apenas aumentar a demanda no curto prazo.

    Portanto, olhar somente para o valor total do gasto é insuficiente.

    Precisamos perguntar:

    que gasto?

    com qual retorno?

    financiado como?

    por quanto tempo?

    com que impacto sobre produtividade?

    O verdadeiro problema aparece quando a despesa é permanente

    Imagine uma receita extraordinária que financia uma despesa permanente.

    No primeiro ano, a conta fecha.

    No segundo, a receita desaparece.

    Mas a despesa continua.

    É assim que desequilíbrios fiscais estruturais podem surgir.

    Por isso a discussão sobre sustentabilidade não deveria ficar restrita ao resultado primário de um único ano.

    É necessário olhar para a trajetória.

    A própria IFI, em seu relatório de junho, projetava crescimento do déficit primário do governo central no horizonte de médio prazo, chegando a 1,4% do PIB em 2032 no cenário-base.

    O que a notícia realmente significa

    Não significa que o Brasil esteja diante de uma crise fiscal imediata.

    Também não significa que o governo necessariamente esteja “maquiando” as contas.

    Significa algo mais técnico:

    o número utilizado para verificar o cumprimento da meta fiscal não conta sozinho toda a história das contas públicas.

    Para entender a situação fiscal, é preciso olhar simultaneamente para:

    • resultado primário;
    • dívida pública;
    • despesas obrigatórias;
    • restos a pagar;
    • receitas recorrentes;
    • resultado estrutural;
    • custo dos juros;
    • crescimento econômico;
    • e regras de exclusão da meta.

    É essa visão mais ampla que permite separar uma dificuldade conjuntural de um problema estrutural.

    E talvez essa seja a principal lição da discussão desta semana:

    uma meta fiscal é um instrumento de política econômica; não é um certificado automático de saúde das contas públicas.

    Fontes: Instituição Fiscal Independente — Relatório de Acompanhamento Fiscal; IFI — RAF de junho de 2026; Banco Central — comunicado do Copom de agosto de 2026.

  • O mercado de títulos americano está assustando investidores. Por que isso importa para o Brasil?

    O mercado financeiro internacional terminou a semana com uma mensagem desconfortável: os juros dos títulos públicos americanos de longo prazo continuam subindo, mesmo depois de o governo dos Estados Unidos tentar aliviar a pressão sobre o mercado.

    Nesta sexta-feira, o Treasury de 30 anos chegou a aproximadamente 5,34%, maior nível desde 2007, enquanto o título de dez anos estava perto de 4,71%. As bolsas globais caminhavam para a pior semana desde meados de julho.

    Para quem não acompanha renda fixa americana, isso pode parecer uma notícia distante.

    Não é.

    O Treasury americano é uma das principais referências de preço do dinheiro no mundo.

    Quando ele sobe, o efeito pode chegar ao Brasil.

    Por que o título americano importa tanto?

    O título do Tesouro dos Estados Unidos é utilizado como referência para praticamente todo o sistema financeiro global.

    Um investidor pode comprar um título americano considerado de baixíssimo risco ou comprar um título brasileiro.

    A diferença entre os dois precisa compensar o risco adicional.

    Se o Treasury de longo prazo paga mais, o investidor pode exigir um retorno maior também para carregar ativos mais arriscados.

    Isso significa que a alta dos juros americanos pode pressionar:

    • ações;
    • títulos corporativos;
    • mercados emergentes;
    • câmbio;
    • custo de financiamento;
    • valuation de empresas de tecnologia.

    É o famoso efeito da taxa livre de risco.

    Mas por que os juros americanos estão subindo?

    Há mais de uma explicação.

    Uma delas é a preocupação com a situação fiscal americana.

    A dívida dos Estados Unidos ultrapassou US$ 40 trilhões, enquanto os pagamentos de juros do governo estão em torno de US$ 1,2 trilhão. O déficit fiscal permanece acima de 6% do PIB.

    Outra é a inflação e o petróleo.

    O petróleo Brent voltou a ficar próximo de US$ 95 por barril, em meio às tensões geopolíticas no Oriente Médio. Energia mais cara aumenta o risco de uma inflação mais persistente.

    E existe ainda a política monetária americana.

    O mercado aguarda o simpósio de Jackson Hole e os próximos dados de inflação para tentar descobrir qual será o caminho do Federal Reserve. As minutas de julho indicaram uma postura mais dura do que alguns investidores esperavam.

    E o governo tentou intervir

    O Tesouro americano anunciou uma ampliação das recompras de títulos de longo prazo.

    A ideia é relativamente simples: comprar títulos no mercado pode aumentar a demanda por esses papéis e ajudar a reduzir a pressão sobre seus preços.

    Como preço e rendimento de um título se movem em sentidos opostos, isso poderia ajudar a conter os juros longos.

    O problema é que o mercado não parece convencido de que isso resolva a questão estrutural.

    A intervenção pode melhorar a liquidez.

    Mas não elimina um déficit fiscal elevado.

    E não elimina a necessidade de financiar uma dívida gigantesca.

    É aqui que entra o Brasil

    O Brasil tem uma situação completamente diferente, mas não está isolado.

    Se os títulos americanos ficam mais rentáveis, ativos brasileiros precisam oferecer retorno suficiente para continuar atraindo capital.

    Isso pode pressionar o câmbio e os juros locais.

    Ao mesmo tempo, se o dólar se fortalece, parte das pressões inflacionárias brasileiras pode aumentar através de produtos importados e commodities.

    Mas há um detalhe interessante.

    O movimento não é necessariamente ruim para todos os ativos brasileiros.

    O Brasil é exportador de commodities.

    O petróleo mais caro, por exemplo, pode melhorar a receita de empresas exportadoras e a balança comercial.

    Por outro lado, pode aumentar custos e pressionar inflação.

    A mesma variável pode produzir efeitos positivos e negativos simultaneamente.

    Para o investidor, o principal aprendizado é outro

    Quando os mercados caem por causa da alta dos juros longos americanos, não basta olhar para a bolsa.

    É preciso perguntar:

    o movimento é causado por crescimento?

    por inflação?

    por risco fiscal?

    por política monetária?

    Esses cenários têm implicações diferentes.

    Se os juros sobem porque a economia está crescendo fortemente, o efeito sobre empresas pode ser diferente de uma alta provocada por deterioração fiscal.

    Se sobem porque o petróleo está pressionando inflação, a reação dos bancos centrais será diferente.

    Se sobem porque o mercado começa a questionar a trajetória da dívida pública, o problema é mais estrutural.

    O que observar na próxima semana

    Há dois eventos particularmente importantes.

    Jackson Hole, onde o Federal Reserve e outros bancos centrais discutirão o cenário econômico.

    E os resultados da Nvidia, que se tornaram uma espécie de teste de realidade para o entusiasmo dos investidores com a inteligência artificial.

    A combinação é interessante.

    De um lado, temos o custo do capital.

    Do outro, temos empresas cuja valorização depende de expectativas extremamente elevadas de crescimento.

    É exatamente por isso que juros longos importam tanto para tecnologia.

    Quanto maior a taxa utilizada para descontar lucros futuros, menor tende a ser o valor presente de empresas cujo crescimento está concentrado em um horizonte distante.

    A notícia, portanto, não é apenas sobre os Estados Unidos

    O que está acontecendo no mercado de Treasuries é uma discussão sobre o preço global do dinheiro.

    E o Brasil participa desse mercado.

    Para o investidor brasileiro, a lição é simples: não basta acompanhar a Selic.

    Treasuries, petróleo, inflação americana, Fed e fiscal americano também ajudam a determinar o ambiente em que os ativos brasileiros serão precificados.

    É por isso que uma alta nos juros americanos pode aparecer, algumas horas depois, em uma tela de investimentos no Brasil.

    Fontes: Reuters, 21 de agosto de 2026; Federal Reserve; dados de mercado citados pela Reuters.

  • O BNDES voltou a emprestar muito. A pergunta importante não é se isso é bom ou ruim

    O BNDES voltou a ocupar um espaço maior no financiamento da economia brasileira.

    No primeiro semestre de 2026, o banco desembolsou R$ 75,6 bilhões, 31,2% acima do mesmo período de 2025. É o maior volume para um primeiro semestre desde 2015. As aprovações chegaram a R$ 111,7 bilhões, alta de 44,9% e maior patamar desde 2014. A infraestrutura recebeu R$ 28,5 bilhões, quase R$ 15 bilhões destinados ao transporte rodoviário.

    A notícia é relevante, mas não acho que a pergunta mais interessante seja se o BNDES está “voltando ao passado”.

    A pergunta econômica é outra:

    Quando o Estado aumenta a oferta de crédito de longo prazo, quanto desse dinheiro realmente cria investimento adicional — e quanto apenas substitui financiamento que o mercado privado já faria?

    Essa é uma questão muito mais difícil. E é justamente nela que deveria estar concentrado o debate.

    O BNDES não é simplesmente um banco maior

    É importante começar pelo básico.

    O BNDES é uma empresa pública federal e o principal instrumento do governo para financiamento de longo prazo e investimento. Sua justificativa econômica não é simplesmente emprestar dinheiro porque bancos privados não querem emprestar.

    A lógica do banco de desenvolvimento é corrigir algum tipo de falha de mercado.

    Projetos de infraestrutura, inovação tecnológica, transição energética e desenvolvimento regional podem produzir benefícios que não são integralmente capturados pelo investidor privado. Podem existir riscos elevados, prazos muito longos, assimetria de informação ou externalidades.

    Nesse caso, o crédito público pode ter uma função econômica legítima.

    Mas existe uma condição fundamental:

    o dinheiro público precisa fazer algo que provavelmente não aconteceria — ou não aconteceria na mesma escala — sem ele.

    É o princípio da adicionalidade.

    O problema do “crowding out”

    Imagine uma empresa que pretende investir R$ 1 bilhão em uma nova fábrica.

    Ela pode financiar o projeto com recursos próprios, emissão de dívida ou crédito bancário.

    Agora imagine que o BNDES ofereça uma linha subsidiada.

    Se a empresa realiza exatamente o mesmo investimento, apenas trocando uma fonte de financiamento privada por uma pública, houve transferência de financiamento, mas não necessariamente criação de investimento adicional.

    Do ponto de vista da política pública, o resultado é muito diferente.

    No primeiro caso:

    R$ 1 de crédito público → R$ 1 de investimento que não existiria sem a política.

    No segundo:

    R$ 1 de crédito público → substituição de R$ 1 que o mercado privado já financiaria.

    No segundo cenário, o benefício social é muito menor.

    Esse é o chamado crowding out.

    E existe ainda um terceiro problema

    Pode haver situações em que o crédito subsidiado faça uma empresa investir mais, mas desloque recursos de outra empresa.

    Isso acontece porque capital não é infinito.

    Se o Estado reduz artificialmente o custo de capital de determinados projetos, pode alterar a alocação de recursos dentro da economia.

    O projeto beneficiado pode ser economicamente desejável.

    Mas também pode ser simplesmente mais politicamente favorecido.

    É por isso que uma política de crédito não deveria ser avaliada apenas pelo número de reais desembolsados.

    Volume de crédito é um indicador de atividade do banco. Não é uma medida de impacto econômico.

    O número de hoje, portanto, não responde à principal pergunta

    R$ 75,6 bilhões é muito dinheiro.

    Mas esse número sozinho não permite concluir que a política esteja funcionando.

    Precisaríamos saber:

    • quantos projetos não aconteceriam sem o financiamento;
    • quanto investimento privado foi mobilizado por cada real público;
    • qual foi o efeito sobre produtividade;
    • quantos empregos adicionais foram gerados;
    • se houve aumento de exportações;
    • se houve inovação;
    • se houve efeitos regionais;
    • qual foi o custo fiscal da política;
    • e quais projetos teriam sido financiados pelo mercado de qualquer maneira.

    Essa última pergunta é especialmente importante.

    Há uma boa razão para o BNDES financiar infraestrutura

    Infraestrutura é um dos casos em que a discussão fica mais interessante.

    Uma estrada, uma ferrovia, um porto, uma rede de saneamento ou um sistema de transmissão elétrica pode produzir benefícios para empresas e consumidores que não são completamente apropriáveis pelo investidor que constrói o ativo.

    Existe, portanto, uma possibilidade real de externalidade.

    Além disso, projetos de infraestrutura têm horizontes longos.

    Um investidor privado pode exigir uma taxa de retorno elevada para compensar riscos que o Estado consegue absorver melhor.

    Isso não significa que todo projeto de infraestrutura precise de dinheiro público.

    Significa apenas que há uma justificativa econômica mais robusta para intervenção pública nesse tipo de mercado.

    E o próprio desenho institucional do BNDES reconhece esse papel de financiamento de longo prazo e de apoio ao desenvolvimento.

    Mas o Brasil tem uma alternativa que não existia na mesma escala no passado

    Existe uma mudança estrutural importante no mercado brasileiro de capitais.

    As debêntures de infraestrutura, concessões, PPPs e outras formas de financiamento privado aumentaram a capacidade do mercado de financiar projetos de longo prazo.

    Isso significa que a pergunta sobre o BNDES mudou.

    No passado, poderia ser razoável perguntar:

    “Quem vai financiar esse projeto se o BNDES não financiar?”

    Hoje, em vários segmentos, a pergunta pode ser:

    “O que exatamente o BNDES acrescenta ao financiamento que o mercado já consegue oferecer?”

    Essa é uma pergunta muito mais exigente.

    E é também uma pergunta melhor para política pública.

    O problema monetário

    Existe ainda uma discussão macroeconômica.

    O Brasil está com uma Selic de 14% ao ano, depois do corte de 0,25 ponto percentual realizado pelo Copom em agosto. O Banco Central afirma que a atividade vem apresentando moderação gradual, mas as expectativas de inflação continuam acima da meta.

    Nesse ambiente, uma expansão significativa do crédito direcionado pode parecer contraditória com uma política monetária restritiva.

    Mas essa conclusão precisa ser tratada com cuidado.

    O crédito do BNDES não necessariamente aumenta a demanda agregada da mesma forma que uma transferência direta de renda.

    Se o financiamento for destinado a investimento produtivo, pode aumentar a capacidade de oferta da economia.

    Uma nova fábrica pode produzir mais bens.

    Uma nova ferrovia pode reduzir custos logísticos.

    Uma rede elétrica mais eficiente pode reduzir gargalos.

    Uma máquina mais produtiva pode aumentar o produto por trabalhador.

    Nesse caso, existe uma diferença importante entre estimular demanda hoje e aumentar oferta amanhã.

    O ponto central é o horizonte

    É possível que uma política de crédito tenha efeitos expansionistas no curto prazo e, simultaneamente, aumente a capacidade produtiva no longo prazo.

    Por isso, não faz sentido avaliar todo crédito público apenas pela pergunta:

    “Isso aumenta a demanda?”

    A pergunta precisa ser:

    “O que esse crédito compra para a economia em termos de capacidade produtiva futura?”

    Se a resposta for produtividade, infraestrutura, inovação e capital humano, existe uma justificativa econômica.

    Se a resposta for apenas substituição de financiamento privado, o caso fica muito mais fraco.

    O que deveríamos medir

    Se o objetivo é transformar o BNDES em instrumento de desenvolvimento, eu gostaria de ver muito mais avaliação causal.

    Por exemplo:

    Empresas financiadas versus empresas semelhantes que não receberam crédito.

    Projetos financiados versus projetos comparáveis que perderam acesso ao financiamento.

    Regiões com maior exposição ao crédito versus regiões semelhantes com menor exposição.

    Não basta observar que uma empresa que recebeu crédito cresceu.

    Ela pode ter crescido porque era uma empresa boa.

    A questão é saber:

    quanto ela cresceu a mais por causa do crédito?

    É exatamente aí que entram econometria e avaliação de políticas públicas.

    A discussão deveria sair do “BNDES sim ou BNDES não”

    Essa dicotomia é pouco útil.

    Bancos de desenvolvimento podem corrigir falhas de mercado.

    Também podem financiar projetos que o mercado privado não financiaria.

    Mas podem gerar crowding out, distorções de alocação e custos fiscais quando não há adicionalidade suficiente.

    As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

    Por isso, o debate maduro não deveria ser ideológico.

    Deveria ser empírico.

    Qual política gera maior investimento adicional por real de recurso público?

    Qual produz maior ganho de produtividade?

    Qual gera maior retorno social?

    E, principalmente:

    em quais mercados o Estado realmente acrescenta alguma coisa que o setor privado não consegue entregar sozinho?

    O crescimento recente do BNDES torna essas perguntas mais importantes, não menos.

    O número de R$ 75,6 bilhões chama atenção.

    Mas o verdadeiro indicador de sucesso não deveria ser quanto o banco emprestou.

    Deveria ser quanto desenvolvimento adicional aquele dinheiro conseguiu produzir.

    Fontes: BNDES — Quem somos; Estatuto do BNDES; dados de desembolsos de 2026 reportados pela Folha de S.Paulo; TCU — análise sobre subsídios creditícios e financeiros do BNDES.

  • O Brasil está desacelerando. O problema é que os juros ainda estão altos demais para ignorar o sinal

    A economia brasileira cresceu apenas 0,2% no segundo trimestre de 2026, segundo o IBC-Br, indicador de atividade calculado pelo Banco Central e frequentemente utilizado como uma prévia do PIB oficial.

    O dado mais fraco veio acompanhado de uma queda mensal de 0,6% em junho. A indústria ainda cresceu 0,5% no trimestre, mas os serviços, que representam a maior parcela da economia brasileira, recuaram 0,1%. A agricultura avançou 0,3%.

    O PIB oficial do segundo trimestre ainda será divulgado pelo IBGE em 1º de setembro. Portanto, o IBC-Br não deve ser tratado como o número definitivo.

    Mas já existe um sinal que merece atenção.

    O motor começou a perder força

    A desaceleração não é exatamente uma surpresa.

    O Banco Central reduziu a Selic para 14% ao ano em agosto, mas continua trabalhando com um ambiente no qual a inflação está acima da meta e as expectativas permanecem pressionadas. Na reunião de agosto, o Copom registrou expectativas de inflação de 5,0% para 2026 e 4,2% para 2027, ambas acima da meta.

    Isso cria um dilema conhecido.

    Se os juros permanecem altos por tempo suficiente, a atividade desacelera.

    Se caem rápido demais antes de as expectativas estarem suficientemente ancoradas, o processo de desinflação pode ficar mais difícil.

    É justamente por isso que a política monetária não pode ser avaliada olhando apenas para a taxa Selic.

    O problema está chegando às empresas e às famílias

    Uma reportagem da Folha publicada hoje reúne sinais de preocupação de empresas e bancos com 2027. A inadimplência elevada das famílias e o custo do crédito aparecem entre os fatores que já estão pressionando consumo, investimento e planejamento empresarial. Algumas empresas mencionam redução de investimentos e ajustes operacionais diante de uma perspectiva mais fraca.

    Isso é importante porque a política monetária funciona justamente por esses canais.

    Juros altos não aparecem apenas na taxa do Banco Central.

    Eles chegam ao consumidor através do financiamento.

    Chegam às empresas através do custo do capital.

    Chegam ao mercado imobiliário através do crédito.

    Chegam aos investimentos através da taxa de desconto.

    E chegam às decisões das famílias através do custo de carregar dívidas.

    Então estamos caminhando para uma recessão?

    Ainda não é possível afirmar isso.

    E aqui é importante separar desaceleração de recessão.

    Um trimestre de crescimento de 0,2% é fraco, mas não significa automaticamente contração econômica.

    O que merece acompanhamento é a persistência.

    Se os próximos indicadores mostrarem que consumo, investimento, serviços e mercado de trabalho estão perdendo força simultaneamente, a interpretação muda.

    Por enquanto, o que temos é uma economia que continua crescendo, mas com sinais mais claros de perda de velocidade.

    O que eu observaria daqui para frente

    Há quatro variáveis especialmente importantes:

    Inflação: se continuar convergindo para a meta, abre espaço para juros menores.

    Expectativas: se permanecerem desancoradas, o Banco Central terá menos liberdade.

    Mercado de trabalho: se continuar muito aquecido, pode sustentar consumo e inflação de serviços.

    Crédito: se a transmissão dos juros continuar apertando famílias e empresas, a desaceleração pode ganhar força.

    O ponto central é que esses indicadores precisam ser analisados juntos.

    Uma economia pode desacelerar e continuar pressionando preços.

    Pode crescer pouco e manter mercado de trabalho aquecido.

    Pode apresentar inflação mais baixa sem que a demanda esteja realmente fraca.

    É por isso que o trabalho do Banco Central é menos parecido com apertar um botão e mais parecido com conduzir um navio observando várias correntes ao mesmo tempo.

    O que a notícia realmente nos diz

    O dado de hoje não anuncia uma crise.

    Ele mostra algo mais simples e, justamente por isso, mais importante:

    a política monetária está começando a produzir o efeito esperado sobre a atividade econômica.

    A questão agora é saber até onde esse efeito precisa ir para trazer a inflação de volta à meta.

    E esse equilíbrio — entre desinflacionar sem provocar uma desaceleração excessiva — será provavelmente uma das principais questões da economia brasileira nos próximos meses.

    Fontes: Banco Central do Brasil, comunicado e ata da 280ª reunião do Copom; Reuters; Folha de S.Paulo.

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