Há um número que merece atenção no debate econômico brasileiro: R$ 75,6 bilhões.
Esse foi o volume de crédito desembolsado pelo BNDES no primeiro semestre de 2026, segundo dados da série histórica do banco divulgados nesta semana. O valor, corrigido pela inflação, representa alta de 31,2% em relação ao mesmo período de 2025 e é o maior para um primeiro semestre desde 2015.
À primeira vista, a notícia parece simples:
mais crédito = mais investimento = mais crescimento.
Mas a economia é menos simples.
O Brasil está simultaneamente tentando estimular o investimento e combater uma inflação que ainda está acima da meta.
E é exatamente aí que o BNDES se torna interessante.
O que o BNDES está fazendo?
O banco de desenvolvimento possui uma função diferente da de um banco comercial convencional.
Seu objetivo não é apenas emprestar dinheiro. É financiar investimentos que possam produzir efeitos econômicos mais amplos: infraestrutura, inovação, indústria, máquinas, exportações e outros projetos de longo prazo.
Em maio, por exemplo, o BNDES informou que sua carteira de crédito havia alcançado R$ 678,2 bilhões no primeiro trimestre, alta de 14% em relação ao ano anterior. Os desembolsos do trimestre também haviam crescido significativamente.
Em 2026, esse movimento se aprofundou.
A infraestrutura recebeu R$ 28,5 bilhões no primeiro semestre, segundo os dados divulgados pela imprensa a partir da série do BNDES.
Isso é relevante porque infraestrutura pode aumentar a capacidade produtiva da economia.
Uma estrada melhor, uma ferrovia, uma rede elétrica ou uma fábrica mais moderna não apenas geram demanda hoje.
Podem aumentar a oferta amanhã.
Então por que existe preocupação?
Porque tempo e composição importam.
Se o crédito público financia rapidamente uma expansão da demanda em uma economia que já está próxima do pleno emprego, pode haver pressão sobre preços.
O Banco Central está justamente tentando fazer o contrário.
Na reunião de agosto, o Copom reduziu a Selic para 14% ao ano, mas destacou que as expectativas de inflação para 2026 e 2027 permaneciam acima da meta: 5,0% e 4,2%, respectivamente.
Isso cria uma aparente contradição.
De um lado:
Banco Central: desacelerar a demanda para controlar a inflação.
Do outro:
política de desenvolvimento: ampliar crédito e investimento.
Mas a contradição só existe se tratarmos todo crédito como equivalente.
Não é.
Crédito para consumo não é igual a crédito para investimento
Imagine duas situações.
Na primeira, uma família pega dinheiro emprestado para antecipar consumo.
A demanda aumenta imediatamente.
Na segunda, uma empresa financia uma nova máquina que aumenta sua capacidade produtiva.
A demanda aumenta hoje, mas a capacidade de produção também aumenta no futuro.
Os dois empréstimos têm efeitos macroeconômicos diferentes.
Por isso, a discussão correta não deveria ser simplesmente:
“O BNDES está emprestando demais?”
A pergunta deveria ser:
“Para onde está indo o crédito e qual retorno econômico ele produz?”
Essa é uma pergunta muito mais difícil.
E também muito mais importante.
O verdadeiro problema do crédito público
O risco de um banco público não é apenas provocar inflação.
Existe outro problema: alocação ineficiente de capital.
Se o Estado financia projetos que seriam realizados pelo mercado privado de qualquer maneira, pode simplesmente substituir uma fonte de financiamento por outra.
Se financia projetos pouco produtivos por razões políticas, pode destruir capital.
Mas se consegue financiar investimentos com externalidades positivas, inovação ou retorno social superior ao retorno privado, sua atuação pode ser justificável.
Essa é uma das razões pelas quais a literatura sobre desenvolvimento insiste tanto em avaliar políticas industriais e bancos de desenvolvimento pelo efeito produzido, e não apenas pelo volume desembolsado. O próprio BNDES mantém uma estrutura de pesquisa e avaliação de efetividade de suas operações.
O número de R$ 75,6 bilhões, portanto, não é uma conclusão
É um ponto de partida.
O aumento do crédito pode ser uma excelente notícia se estiver financiando aumento de produtividade, infraestrutura, inovação e expansão da capacidade exportadora.
Pode ser menos positivo se estiver apenas substituindo crédito privado ou sustentando projetos de baixa produtividade.
E pode criar tensão com a política monetária se a expansão da demanda ocorrer muito antes do aumento da oferta.
O desafio brasileiro é justamente conseguir fazer uma coisa difícil:
investir mais sem simplesmente aquecer a demanda; financiar transformação produtiva em vez de apenas estimular consumo.
É aí que a qualidade do crédito importa mais que seu volume.
Fontes: BNDES, Banco Central e dados reportados pela imprensa.