A conversa telefônica entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump em 21 de agosto produziu uma mudança importante no conflito comercial entre Brasil e Estados Unidos: o canal político voltou a funcionar.
Mas seria um erro confundir reabertura do diálogo com solução da disputa.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, depois da conversa entre os presidentes, o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, entrou em contato com o governo brasileiro para retomar as negociações. Uma reunião entre equipes brasileiras e o USTR deverá ocorrer na próxima semana, embora a data ainda não tenha sido definida.
Isso é relevante porque, até aqui, a questão tarifária vinha sendo tratada dentro de um ambiente de forte deterioração política. O Brasil chegou a apresentar, em 27 de julho, pedido de consultas contra os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio, contestando duas medidas tarifárias baseadas na Seção 301 da legislação comercial americana.
O que mudou?
A primeira mudança é diplomática.
Quando presidentes voltam a conversar diretamente, aumenta a possibilidade de transformar uma disputa política em uma negociação técnica.
Isso não significa que as posições tenham mudado.
Significa que voltou a existir um mecanismo para tentar aproximá-las.
Essa distinção é importante.
O governo brasileiro continua considerando as tarifas americanas injustificadas. Ao mesmo tempo, Washington ainda mantém instrumentos tarifários que atingem produtos brasileiros.
Portanto, o problema central permanece.
O que mudou foi o custo de continuar escalando o conflito sem negociação.
Por que o comércio importa tanto nessa disputa?
Porque tarifas não são apenas uma questão diplomática.
Elas alteram preços relativos, margens de empresas, decisões de investimento e fluxos comerciais.
Uma tarifa americana sobre um produto brasileiro pode reduzir sua competitividade no mercado americano. Mas também pode aumentar o preço daquele produto para consumidores e empresas nos Estados Unidos.
É justamente por isso que uma guerra comercial raramente produz apenas um vencedor.
O efeito depende da capacidade de cada lado de substituir fornecedores, redirecionar exportações e absorver custos.
O governo brasileiro já vinha preparando mecanismos para reduzir o impacto das tarifas sobre empresas afetadas. Em julho, o governo apresentou uma nova etapa do Plano Brasil Soberano voltada justamente às empresas atingidas pelas tarifas e pela incerteza internacional.
O verdadeiro teste começa agora
O telefonema entre Lula e Trump é politicamente importante.
Mas economicamente, o que importa será o conteúdo da negociação.
Há pelo menos três perguntas que precisam ser respondidas:
1. Quais tarifas podem ser efetivamente reduzidas?
2. Quais concessões Washington espera obter do Brasil?
3. Qual será o custo econômico de qualquer acordo para os dois países?
O Brasil também não está entrando nessa negociação sem instrumentos.
A abertura do processo na OMC, a diversificação comercial e as medidas internas de apoio às empresas aumentam o espaço de negociação brasileiro.
Mas há uma limitação estrutural: os Estados Unidos continuam sendo um dos principais mercados para produtos brasileiros de maior valor agregado.
Por isso, diversificar mercados é importante, mas não substitui automaticamente o mercado americano.
O que devemos observar daqui para frente
O próximo passo não é outra declaração presidencial.
É a reunião das equipes técnicas.
Será ali que saberemos se a conversa de 21 de agosto foi apenas uma tentativa de distensão ou o início de uma negociação capaz de produzir resultados concretos.
A melhor leitura neste momento, portanto, não é “Brasil e Estados Unidos fizeram as pazes”.
É mais simples:
a diplomacia voltou a funcionar depois de um período em que a política estava dominando o comércio.
E isso, por si só, já é uma mudança relevante.
Fontes principais: MDIC e Ministério das Relações Exteriores.
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