Existe um tipo de política comercial que quase nunca vira manchete.
Não envolve uma tarifa de 20%.
Não envolve uma guerra comercial.
Não envolve um presidente anunciando uma nova barreira.
É uma lista.
Mas, em comércio internacional, uma lista pode mudar incentivos econômicos inteiros.
O governo brasileiro está recebendo até 2 de setembro de 2026 contribuições para definir produtos e cadeias produtivas que poderão integrar uma lista de produtos sustentáveis prevista no acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Serviços e Informações do Brasil
Os produtos selecionados poderão ter acesso preferencial ou adicional ao mercado europeu, além de outros incentivos previstos no acordo.
A consulta termina amanhã.
E merece mais atenção do que está recebendo.
O que está sendo decidido?
A consulta pública procura identificar produtos do Mercosul que contribuam para:
conservação
recuperação
uso sustentável
e
gestão de florestas e outros ecossistemas vulneráveis.
A proposta está prevista no Anexo 18-A do Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia, que entrou em vigor em 1º de maio de 2026. Serviços e Informações do Brasil
Isso cria uma oportunidade.
Produtos associados à sociobiodiversidade podem ganhar maior acesso ao mercado europeu.
Mas por que uma lista importa tanto?
Porque comércio internacional não depende apenas de produzir algo.
É preciso conseguir vender.
E vender internacionalmente envolve:
tarifas,
padrões técnicos,
certificações,
regras sanitárias,
rastreabilidade,
logística,
reputação.
Quando um acordo reduz algum desses obstáculos, ele altera a rentabilidade potencial de determinadas atividades.
Sustentabilidade virou uma variável comercial
Durante muito tempo, comércio internacional era discutido principalmente em termos de:
preço,
tarifa,
produtividade,
câmbio.
Agora existe uma variável adicional:
origem e sustentabilidade.
Consumidores e governos passaram a exigir mais informações sobre como determinados produtos são produzidos.
Isso cria custos.
Mas também pode criar mercados.
O Brasil possui uma vantagem potencial
O país possui uma biodiversidade enorme.
Existem cadeias produtivas associadas a:
açaí,
castanhas,
cacau,
frutas,
óleos,
fibras,
produtos florestais,
ingredientes naturais.
Alguns desses produtos possuem valor econômico justamente por estarem associados à biodiversidade.
O desafio é transformar essa característica em vantagem comercial sustentável.
E aqui existe uma questão de produtividade
Não basta ter um produto sustentável.
É preciso conseguir:
produzi-lo em escala,
garantir qualidade,
comprovar origem,
cumprir padrões,
entregar regularmente,
e competir em preço.
Sustentabilidade sem produtividade pode produzir um nicho pequeno.
Produtividade sem sustentabilidade pode produzir um produto incapaz de acessar determinados mercados.
A combinação é que cria vantagem.
A rastreabilidade se torna importante
Imagine um consumidor europeu comprando determinado produto brasileiro.
Como ele sabe que a matéria-prima não veio de uma área desmatada ilegalmente?
É necessário algum mecanismo de rastreabilidade.
Isso pode aumentar custos.
Mas também cria uma forma de diferenciar produtores.
Uma empresa que consegue demonstrar origem e conformidade pode conquistar uma reputação que um concorrente não consegue reproduzir facilmente.
Isso se aproxima da economia da informação
O consumidor não consegue observar diretamente todas as características do produto.
Ele não acompanha a cadeia produtiva inteira.
Precisa confiar em:
certificações,
selos,
marcas,
rastreabilidade,
auditorias.
Esses mecanismos reduzem assimetria de informação.
É exatamente o tipo de problema que George Akerlof ajudou a explicar.
E existe uma conexão interessante com o artigo de hoje sobre o mercado de limões.
Quanto mais difícil for distinguir um produto sustentável de um produto que apenas se apresenta como sustentável, maior será o risco de os produtos de qualidade não conseguirem capturar seu verdadeiro valor.
A política comercial pode criar incentivos
Suponha que um produto sustentável receba acesso preferencial ao mercado europeu.
Isso aumenta seu retorno esperado.
Uma empresa pode então ter incentivo para investir em:
certificação,
rastreabilidade,
tecnologia,
manejo sustentável.
A política comercial passa a alterar decisões produtivas.
Não é apenas uma questão diplomática.
É uma questão de incentivos.
Mas existe um risco
O Brasil precisa evitar transformar sustentabilidade em uma barreira burocrática que apenas grandes empresas conseguem cumprir.
Se a certificação custar R$ 500 mil, pequenos produtores podem ficar de fora.
Isso seria particularmente problemático em cadeias de sociobiodiversidade.
A política pública precisa considerar o custo de conformidade.
O acordo pode beneficiar cadeias específicas
É importante não interpretar a lista como um benefício automático para todos os produtos.
O objetivo é identificar produtos que se encaixem nos critérios previstos no acordo.
Isso significa que haverá uma seleção.
A qualidade dessa seleção importa.
Uma lista mal desenhada pode privilegiar setores já estruturados.
Uma lista bem desenhada pode ajudar a transformar produtos com potencial ambiental em produtos comercialmente viáveis.
O setor privado possui informação importante
É justamente por isso que a consulta pública existe.
O governo possui capacidade regulatória.
Mas empresas, produtores, universidades e organizações da sociedade civil possuem informações que o governo pode não ter.
Quais produtos já possuem demanda?
Quais cadeias conseguem comprovar origem?
Quais enfrentam gargalos?
Quais poderiam aumentar produção?
Quais possuem potencial de exportação?
A consulta tenta capturar parte desse conhecimento.
Isso também é política industrial
Existe uma conexão com uma discussão maior.
Quando o Estado cria condições para que determinadas cadeias produtivas se desenvolvam, está fazendo política industrial ou de desenvolvimento produtivo.
Mas uma boa política industrial não deveria simplesmente escolher vencedores.
Deveria ajudar a criar condições para que empresas aumentem:
produtividade
inovação
qualidade
escala
acesso a mercados.
O mercado europeu pode ser estratégico
A União Europeia possui um mercado consumidor grande e relativamente sofisticado.
Produtos associados à sustentabilidade podem encontrar demanda.
Mas também enfrentam padrões elevados.
Isso significa que acesso ao mercado europeu pode funcionar como uma espécie de certificação de capacidade produtiva.
Se uma empresa consegue cumprir padrões exigentes, pode abrir portas para outros mercados.
A oportunidade está no valor, não apenas no volume
Uma cadeia de exportação não precisa necessariamente vender toneladas e toneladas para ser economicamente relevante.
Produtos diferenciados podem possuir alto valor por unidade.
É o caso de alguns produtos da sociobiodiversidade.
O objetivo pode ser transformar:
biodiversidade
em
valor econômico sustentável.
Isso exige conhecimento, marca, tecnologia e acesso ao consumidor.
A consulta termina amanhã
As contribuições devem ser enviadas até 2 de setembro de 2026 pela plataforma Brasil Participativo. Serviços e Informações do Brasil
É uma janela curta.
Mas o que está sendo construído possui efeitos potencialmente mais longos.
A lista poderá influenciar quais produtos terão acesso a benefícios comerciais adicionais no mercado europeu.
A grande questão
O Brasil possui um ativo raro:
biodiversidade em escala continental.
Mas possuir um ativo não significa saber transformá-lo em riqueza.
A questão econômica é justamente essa.
Como transformar biodiversidade em:
renda,
emprego,
exportação,
desenvolvimento regional,
sem destruir o recurso que produz o valor?
A conclusão
A consulta pública do Mercosul e União Europeia parece, à primeira vista, um detalhe burocrático.
Não é.
Ela coloca uma questão estratégica para o Brasil:
podemos transformar sustentabilidade em vantagem competitiva?
Se conseguirmos combinar biodiversidade, produtividade, rastreabilidade e acesso a mercados, produtos sustentáveis podem deixar de ser apenas nichos.
Podem se tornar uma fonte de desenvolvimento.
Mas isso dependerá menos da quantidade de recursos naturais que temos e mais da nossa capacidade de construir cadeias produtivas capazes de capturar valor a partir deles.
Fontes
– Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, consulta pública sobre produtos sustentáveis no Acordo Mercosul-UE, 3 ago. e 28 ago. 2026. Serviços e Informações do Brasil
– MDIC, últimas notícias de comércio exterior, incluindo avanços recentes nas relações Brasil-Europa e demais parceiros. Serviços e Informações do Brasil