Há uma explicação que aparece com frequência no debate econômico brasileiro:
o Brasil cresce pouco porque os juros são altos.
Há uma parte verdadeira nisso.
Juros elevados reduzem investimento, encarecem crédito e dificultam projetos de longo prazo.
Mas essa explicação é insuficiente.
O problema brasileiro é mais profundo:
mesmo quando o dinheiro fica mais barato, a economia precisa saber onde investir e como transformar capital, trabalho e tecnologia em mais produção.
Esse é o problema da produtividade.
O crescimento tem limites
Uma economia pode crescer porque emprega mais pessoas.
Pode crescer porque aumenta o estoque de máquinas e infraestrutura.
E pode crescer porque aprende a produzir mais com os mesmos recursos.
Esse terceiro componente é a produtividade.
É ele que permite aumentar a produção sem simplesmente aumentar proporcionalmente a quantidade de trabalhadores ou máquinas.
O Banco Central destacou recentemente que o crescimento brasileiro continua sendo acompanhado de perto por questões relacionadas à produtividade e à capacidade de expansão da economia. No primeiro trimestre de 2026, o PIB cresceu 1,1%, mas o próprio Banco Central projetava crescimento anual de apenas 2,0%, abaixo do ritmo observado em anos anteriores.
O Brasil tem uma restrição importante
O país está chegando a uma situação em que simplesmente aumentar a quantidade de trabalhadores disponíveis será cada vez mais difícil.
Isso torna produtividade mais importante.
Um estudo do Ipea sobre crescimento de longo prazo destaca justamente a mudança de composição dos motores do crescimento: conforme a economia se aproxima de uma situação de pleno emprego, infraestrutura e produtividade passam a ganhar peso maior na expansão potencial.
Em outras palavras:
não basta colocar mais gente para trabalhar.
Precisamos fazer cada trabalhador produzir mais valor.
E isso não é responsabilidade apenas do trabalhador
Aqui existe um erro recorrente no debate.
Quando se fala em produtividade, às vezes a discussão termina em:
“Precisamos qualificar melhor o trabalhador.”
Sim.
Mas isso é apenas parte da história.
Um trabalhador altamente qualificado produz pouco se trabalha em uma empresa que utiliza tecnologia obsoleta, enfrenta logística ruim, sofre com burocracia, não consegue acessar crédito adequado e está inserido em uma cadeia produtiva pouco sofisticada.
Produtividade é também uma característica do ambiente econômico.
Tecnologia importa
O Brasil possui universidades e centros de pesquisa capazes de produzir conhecimento científico relevante.
O problema é transformar esse conhecimento em inovação produtiva.
Isso exige conexão.
Universidade precisa conversar com empresa.
Empresa precisa ter incentivo para inovar.
O sistema financeiro precisa financiar projetos de longo prazo.
O Estado precisa reduzir obstáculos institucionais.
E as políticas públicas precisam ser avaliadas pelo resultado.
O debate sobre a nova política industrial brasileira segue justamente essa direção. Estudos do Ipea argumentam que uma política industrial moderna precisa estar associada à transformação estrutural, inovação, produtividade e encadeamentos produtivos — e não simplesmente à proteção de setores existentes.
O problema da indústria brasileira
A questão industrial é particularmente importante.
O Ipea registra que o Brasil perdeu posições relativas em produtividade, complexidade e inovação ao longo das últimas décadas, enquanto sua estrutura produtiva se tornou mais dependente de importações em diversos segmentos industriais.
Isso não significa que toda política industrial seja boa.
Muito menos que proteger empresas automaticamente produza desenvolvimento.
Significa apenas que uma economia que perde capacidade tecnológica e produtiva enfrenta um problema estrutural.
A solução precisa ser igualmente estrutural.
Juros baixos ajudam?
Sim.
Mas juros baixos são condição necessária em muitos casos, não condição suficiente.
Imagine uma empresa diante de duas possibilidades.
Na primeira, investir R$ 10 milhões em uma nova fábrica que produz tecnologia avançada e atende a um mercado crescente.
Na segunda, comprar ativos financeiros porque a estrutura produtiva brasileira oferece poucas oportunidades competitivas.
Reduzir juros pode alterar a decisão.
Mas se o primeiro projeto continuar pouco rentável por causa de infraestrutura ruim, baixa produtividade, falta de fornecedores ou incerteza regulatória, o dinheiro barato não cria magicamente uma boa oportunidade.
O verdadeiro debate
Por isso, a pergunta correta não é:
“O Brasil precisa de juros menores?”
É:
“O que precisamos fazer para que, quando os juros caírem, existam projetos produtivos suficientemente bons para absorver capital?”
Essa pergunta leva diretamente a:
- infraestrutura;
- educação;
- inovação;
- ambiente de negócios;
- segurança jurídica;
- política industrial;
- integração comercial;
- financiamento de longo prazo;
- capacidade estatal;
- qualidade regulatória.
É uma agenda muito mais difícil do que simplesmente pressionar o Banco Central.
O risco de confundir sintoma e causa
Juros elevados podem ser parte do problema.
Mas uma economia com baixa produtividade também tende a ter dificuldades para sustentar crescimento elevado.
E existe uma relação circular:
baixa produtividade → menor crescimento → menor capacidade de investimento → menor inovação → baixa produtividade.
Romper esse ciclo exige mais do que política monetária.
Exige investimento.
Mas, sobretudo, exige investimento de qualidade.
É por isso que o desenvolvimento brasileiro não deveria ser medido apenas pela quantidade de capital que entra na economia.
A pergunta mais importante é:
quanto mais a economia consegue produzir com cada real investido?
Esse é o número que determina o crescimento sustentável.