O governo diz que cumpre a meta fiscal. A IFI está olhando para outra coisa

Existe uma diferença importante entre cumprir formalmente uma meta fiscal e ter uma situação fiscal saudável. Essa diferença voltou ao centro da discussão nesta semana depois que a Instituição Fiscal Independente, órgão do Senado, apontou que o resultado fiscal de 2026 precisa ser interpretado com cuidado. Segundo a IFI, o cumprimento formal da meta depende…

O governo diz que cumpre a meta fiscal. A IFI está olhando para outra coisa

Existe uma diferença importante entre cumprir formalmente uma meta fiscal e ter uma situação fiscal saudável. Essa diferença voltou ao centro da discussão nesta semana depois que a Instituição Fiscal Independente, órgão do Senado, apontou que o resultado fiscal de 2026 precisa ser interpretado com cuidado. Segundo a IFI, o cumprimento formal da meta depende…

Existe uma diferença importante entre cumprir formalmente uma meta fiscal e ter uma situação fiscal saudável.

Essa diferença voltou ao centro da discussão nesta semana depois que a Instituição Fiscal Independente, órgão do Senado, apontou que o resultado fiscal de 2026 precisa ser interpretado com cuidado.

Segundo a IFI, o cumprimento formal da meta depende de deduções legais de despesas e da utilização da margem de tolerância prevista na legislação. Sem essas deduções, a situação é menos confortável.

O ponto mais importante, porém, está em outro número.

O déficit estrutural dobrou

A IFI estimou que o déficit estrutural do governo central, no acumulado de quatro trimestres até junho, chegou a 1,4% do PIB, contra 0,7% no mesmo período de 2025.

Mas o que significa “déficit estrutural”?

Imagine que a arrecadação de um governo aumente porque a economia está temporariamente forte.

O governo pode parecer mais saudável.

Agora imagine que parte desse aumento de receita desapareça quando o ciclo econômico mudar.

O resultado estrutural tenta justamente separar o que é temporário do que é permanente.

É uma tentativa de responder:

Como estaria a situação fiscal se retirássemos os efeitos extraordinários do ciclo econômico e de outros fatores temporários?

Por isso esse indicador é importante.

A meta fiscal pode ser cumprida e ainda assim existir um problema

A matemática é possível.

Suponha que a legislação permita excluir determinadas despesas do cálculo da meta.

O governo pode cumprir a meta definida em lei.

Mas isso não significa necessariamente que a dívida esteja em trajetória sustentável.

São conceitos diferentes.

A meta fiscal é uma regra institucional.

A sustentabilidade fiscal é uma questão econômica.

Uma pode ser atendida enquanto a outra continua problemática.

Os restos a pagar complicam ainda mais a fotografia

A IFI também chamou atenção para um problema menos conhecido do público.

O estoque de restos a pagar chegou a um nível que limita a capacidade de pagamento do governo.

Segundo a instituição, há cerca de R$ 330,9 bilhões em obrigações passíveis de pagamento, considerando orçamento e restos a pagar, enquanto o limite de pagamento de despesas discricionárias seria de aproximadamente R$ 225,4 bilhões.

A diferença, de R$ 105,5 bilhões, representa uma restrição relevante.

Isso é importante porque orçamento autorizado não significa necessariamente dinheiro disponível para pagar tudo imediatamente.

E as emendas entram nessa história

A IFI observou que houve concentração de pagamentos de emendas parlamentares no primeiro semestre.

A LDO de 2026 estabeleceu que 65% das emendas individuais e de bancada fossem pagas até junho. A concentração altera a trajetória de execução das despesas ao longo do ano e contribuiu para um impulso fiscal mais expansionista no primeiro semestre.

Não é necessário transformar isso em uma discussão partidária para entender o mecanismo.

Em ano eleitoral, a distribuição temporal dos gastos pode alterar significativamente o perfil da política fiscal.

Se grande parte da despesa é executada no primeiro semestre, o estímulo à demanda também aparece mais cedo.

E isso importa porque a política monetária está tentando fazer o contrário

Aqui está a parte econômica mais interessante.

O Banco Central reduziu a Selic para 14% em agosto, mas continua afirmando que a inflação e as expectativas estão acima do desejável.

Imagine duas forças atuando simultaneamente.

De um lado:

Banco Central → juros elevados → desaceleração da demanda.

Do outro:

Política fiscal → aumento de despesas → sustentação da demanda.

Isso não significa necessariamente que uma política esteja “errada” e a outra “certa”.

Mas significa que existe uma interação.

Se o fiscal for muito expansionista enquanto a política monetária tenta reduzir a demanda, o Banco Central pode precisar manter juros mais altos por mais tempo.

Esse é um dos canais pelos quais a política fiscal afeta indiretamente o custo do crédito para toda a economia.

O problema não é simplesmente “gastar”

Essa distinção é fundamental.

Uma despesa pública pode ser ruim para a sustentabilidade fiscal e ainda ser socialmente necessária.

Outra pode aumentar a capacidade produtiva e melhorar a situação fiscal no futuro.

Uma terceira pode apenas aumentar a demanda no curto prazo.

Portanto, olhar somente para o valor total do gasto é insuficiente.

Precisamos perguntar:

que gasto?

com qual retorno?

financiado como?

por quanto tempo?

com que impacto sobre produtividade?

O verdadeiro problema aparece quando a despesa é permanente

Imagine uma receita extraordinária que financia uma despesa permanente.

No primeiro ano, a conta fecha.

No segundo, a receita desaparece.

Mas a despesa continua.

É assim que desequilíbrios fiscais estruturais podem surgir.

Por isso a discussão sobre sustentabilidade não deveria ficar restrita ao resultado primário de um único ano.

É necessário olhar para a trajetória.

A própria IFI, em seu relatório de junho, projetava crescimento do déficit primário do governo central no horizonte de médio prazo, chegando a 1,4% do PIB em 2032 no cenário-base.

O que a notícia realmente significa

Não significa que o Brasil esteja diante de uma crise fiscal imediata.

Também não significa que o governo necessariamente esteja “maquiando” as contas.

Significa algo mais técnico:

o número utilizado para verificar o cumprimento da meta fiscal não conta sozinho toda a história das contas públicas.

Para entender a situação fiscal, é preciso olhar simultaneamente para:

  • resultado primário;
  • dívida pública;
  • despesas obrigatórias;
  • restos a pagar;
  • receitas recorrentes;
  • resultado estrutural;
  • custo dos juros;
  • crescimento econômico;
  • e regras de exclusão da meta.

É essa visão mais ampla que permite separar uma dificuldade conjuntural de um problema estrutural.

E talvez essa seja a principal lição da discussão desta semana:

uma meta fiscal é um instrumento de política econômica; não é um certificado automático de saúde das contas públicas.

Fontes: Instituição Fiscal Independente — Relatório de Acompanhamento Fiscal; IFI — RAF de junho de 2026; Banco Central — comunicado do Copom de agosto de 2026.

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