O mercado passou a projetar Selic de 13,5% no fim do ano. O que mudou nas expectativas?

O mercado financeiro reduziu novamente a projeção para a Selic no fim de 2026. Segundo o Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, 21 de setembro, a mediana das expectativas passou de 13,75% para 13,50%. Na prática, os economistas consultados passaram a incorporar a possibilidade de mais um corte de 25 pontos-base até o fim do ano.…

Resumo

O mercado financeiro reduziu novamente a projeção para a Selic no fim de 2026. Segundo o Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, 21 de setembro, a mediana das expectativas passou de 13,75% para 13,50%. Na prática, os economistas consultados passaram a incorporar a possibilidade de mais um corte de 25 pontos-base até o fim do ano.…

O mercado financeiro reduziu novamente a projeção para a Selic no fim de 2026.

Segundo o Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, 21 de setembro, a mediana das expectativas passou de 13,75% para 13,50%. Na prática, os economistas consultados passaram a incorporar a possibilidade de mais um corte de 25 pontos-base até o fim do ano.

A mudança é pequena.

Mas não é irrelevante.

Em política monetária, o nível da taxa é importante. A trajetória esperada também.

E existe uma pergunta mais interessante:

por que o mercado passou a enxergar espaço para mais um corte justamente agora?

Primeiro, o que mudou?

A expectativa anterior era de encerramento do ano em 13,75%.

Agora:

$$ 13,75\% \rightarrow 13,50\% $$

É uma revisão de apenas 0,25 ponto percentual.

Não significa que o mercado esteja projetando uma grande virada monetária.

Significa que os agentes consultados passaram a atribuir maior probabilidade a um corte adicional.

Expectativas não são previsões certas

O Focus não representa uma promessa do Banco Central.

Ele reúne previsões de instituições participantes.

Essa distinção é importante.

O Copom define a Selic.

O mercado tenta antecipar o que o Copom fará.

Portanto:

$$ Expectativa_{mercado}\neq Decisão_{Copom} $$

A diferença pode ser grande.

Por que o mercado pode estar mais confortável com cortes?

Uma parte da resposta está no processo de desinflação.

A inflação brasileira desacelerou em relação aos picos anteriores, embora ainda existam riscos relevantes.

Além disso, a atividade econômica mostra sinais de moderação.

O Banco Central precisa equilibrar duas forças:

inflação ainda acima do objetivo

versus

crescimento desacelerando.

Se a segunda ganhar importância sem uma deterioração das expectativas de inflação, existe espaço para reduzir juros.

O corte de juros não é uma recompensa

Esse ponto merece destaque.

O Banco Central não reduz juros porque “a economia merece”.

Ele reduz quando entende que a taxa anterior deixou de ser necessária para levar a inflação à meta.

A política monetária funciona pelo custo de oportunidade.

Uma taxa muito alta reduz:

consumo financiado;
investimento;
crédito;
demanda agregada.

Mas uma taxa baixa demais pode permitir pressão inflacionária.

O problema é encontrar a taxa compatível com a convergência da inflação.

Existe uma defasagem

Esse é um dos conceitos mais importantes para entender política monetária.

Quando o Copom altera a Selic hoje, os efeitos sobre a economia não aparecem imediatamente.

Primeiro mudam as condições financeiras.

Depois crédito e expectativas.

Depois consumo e investimento.

Finalmente, parte do efeito aparece nos preços.

Podemos representar:

$$ Selic \rightarrow crédito \rightarrow demanda \rightarrow atividade \rightarrow inflação $$

Esse processo possui defasagens.

Por isso, o Banco Central precisa decidir hoje com base em inflação que ainda não aconteceu.

O mercado olha para o futuro

É exatamente por isso que a curva de juros pode cair antes da Selic.

Investidores não precisam esperar o Copom anunciar cada corte.

Se acreditam que os juros cairão no futuro, começam a ajustar posições hoje.

Essa antecipação afeta:

títulos públicos;
crédito privado;
câmbio;
ações;
custo de capital das empresas.

A expectativa vira preço.

Mas existe um limite

O mercado pode esperar mais cortes.

O Banco Central pode discordar.

E existe uma razão.

Se as expectativas de inflação se deteriorarem, o espaço para cortes diminui.

Da mesma forma, um choque cambial ou de commodities pode aumentar pressão inflacionária.

Por isso, a trajetória da Selic depende de muito mais do que a inflação corrente.

A política fiscal entra novamente na equação

Existe uma conexão inevitável com as contas públicas.

Se o mercado acredita que a política fiscal será expansionista demais, pode exigir juros maiores para financiar a dívida e compensar riscos inflacionários.

Se a percepção fiscal melhora, as taxas longas podem cair.

Isso pode aliviar o custo de financiamento e reforçar a transmissão monetária.

A política fiscal e a monetária não são independentes no mundo real.

E o câmbio?

Juros brasileiros também influenciam o câmbio.

Uma redução da Selic diminui o retorno relativo de ativos denominados em reais, tudo mais constante.

Isso pode pressionar o real.

Mas o câmbio depende de dezenas de outras variáveis.

Portanto, não existe uma regra:

$$ Selic \downarrow \Rightarrow Real \downarrow $$

O que existe é um canal de transmissão que interage com expectativas globais, risco fiscal, commodities e política monetária americana.

O corte adicional ainda precisa ser confirmado

Esse é o ponto que deve permanecer no título e no texto.

O mercado espera 13,50%.

O Banco Central ainda não prometeu 13,50%.

Essa diferença parece pequena, mas é exatamente o tipo de distinção que separa análise econômica de manchete.

O que observar agora

Três variáveis serão especialmente importantes:

expectativas de inflação;

atividade econômica;

comunicação do Copom.

Se a inflação continuar convergindo e a atividade perder força, um corte adicional se torna mais plausível.

Se expectativas de inflação subirem ou houver novos choques externos, a projeção pode voltar para cima.

O mais importante não é o número final

13,50% ainda seria uma taxa nominal muito alta.

A verdadeira mudança econômica depende da taxa real, ou seja, do juro descontado pela inflação esperada.

Se a inflação esperada estiver em torno de 4%, uma Selic de 13,5% continua representando uma taxa real bastante elevada.

Por isso, o Brasil ainda estaria distante de uma política monetária expansionista convencional.

A discussão atual é sobre o grau de restrição.

Não sobre o fim dela.

A revisão de hoje é pequena, mas informativa

O mercado está dizendo algo específico:

a economia parece permitir um pouco mais de flexibilização monetária do que se imaginava na semana anterior.

Não está dizendo que a inflação foi vencida.

Não está dizendo que os juros ficarão baixos.

E não está dizendo que o Banco Central seguirá automaticamente a mediana do Focus.

É uma atualização marginal de expectativas.

Mas expectativas marginais, acumuladas ao longo de meses, podem alterar significativamente o custo de capital da economia.