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  • Problema principal-agente: por que quem toma a decisão nem sempre tem os mesmos interesses de quem paga a conta?

    Imagine que você seja dono de uma empresa.
    Você não consegue acompanhar cada decisão do gerente.
    Contrata alguém para administrar.
    A pessoa passa a tomar decisões em seu nome.
    Mas existe um problema.
    Você quer maximizar o valor da empresa.
    O gerente pode querer:
    um salário maior,
    mais prestígio,
    mais funcionários,
    um escritório melhor,
    menos trabalho,
    ou simplesmente mais segurança no cargo.
    Os interesses não são necessariamente iguais.
    Esse é o problema principal-agente.
    Quem é o principal?
    É quem delega a decisão.
    Pode ser:
    o acionista,
    o proprietário,
    o cidadão,
    o conselho de administração,
    o cliente.
    E quem é o agente?
    É quem recebe autoridade para agir em nome do principal.
    Pode ser:
    um executivo,
    um político,
    um funcionário,
    um administrador,
    um advogado.
    A relação parece simples.
    Mas cria uma dificuldade econômica fundamental:
    quem possui a informação e quem suporta o custo das decisões não são necessariamente a mesma pessoa.
    O agente sabe mais do que o principal
    Imagine que você contrate um mecânico.
    Ele sabe muito mais sobre carros do que você.
    Se disser:
    “é preciso trocar esta peça”,
    você dificilmente conseguirá verificar imediatamente se é verdade.
    Existe assimetria de informação.
    O mesmo ocorre dentro de empresas.
    O executivo sabe mais sobre as operações diárias do que o acionista.
    Isso cria espaço para comportamentos oportunistas
    Se ninguém consegue observar perfeitamente o agente, ele pode tomar decisões que beneficiam a si próprio.
    Não significa que todos os agentes sejam desonestos.
    Significa que o sistema de incentivos permite esse comportamento.
    É uma distinção importante.
    Economia não precisa assumir pessoas ruins.
    Basta reconhecer que pessoas respondem a incentivos.
    Jensen e Meckling formalizaram a questão
    Em 1976, Michael Jensen e William Meckling publicaram um dos trabalhos fundamentais da teoria da agência.
    Eles relacionaram:
    propriedade,
    controle,
    estrutura de capital,
    incentivos
    e custos de agência. DOI
    A ideia central é que delegar decisões possui custos.
    O que são custos de agência?
    São custos associados a tentar alinhar os interesses do agente aos do principal.
    Podem incluir:
    monitoramento,
    auditoria,
    contratos,
    sistemas de incentivo,
    garantias,
    e perdas decorrentes de decisões desalinhadas.
    Pense em uma empresa pública
    Imagine que o governo seja o proprietário de uma empresa.
    O ministro não administra diretamente.
    Existe um conselho.
    Existe um presidente.
    Existem diretores.
    Existem milhares de funcionários.
    A cadeia de delegação fica longa.
    Quanto mais longa a cadeia, mais difícil pode ser alinhar incentivos.
    Isso também ocorre em empresas privadas
    O acionista pode querer:
    maximizar valor no longo prazo.
    O CEO pode estar interessado em:
    aumentar lucro no próximo trimestre.
    Se o bônus depender apenas do resultado anual, o CEO pode cortar investimentos que seriam importantes daqui a cinco anos.
    O número melhora.
    A empresa pode piorar.
    O contrato tenta resolver isso
    Uma solução é criar incentivos.
    Parte da remuneração do executivo pode depender de:
    lucro,
    retorno sobre capital,
    crescimento,
    valor da empresa,
    metas de longo prazo.
    A ideia é aproximar o interesse do agente ao do principal.
    Mas incentivos também podem criar problemas
    Imagine que o bônus dependa exclusivamente de vendas.
    O vendedor pode:
    dar descontos excessivos,
    vender para clientes ruins,
    antecipar contratos,
    empurrar produtos desnecessários.
    A meta é atingida.
    Mas o resultado econômico pode piorar.
    Aqui existe uma conexão direta com Goodhart.
    Quando a métrica vira objetivo, o comportamento muda.
    Monitoramento também tem custo
    Você poderia tentar resolver tudo fiscalizando.
    Mas monitorar funcionários custa dinheiro.
    Auditar contratos custa dinheiro.
    Acompanhar cada decisão custa dinheiro.
    Existe um ponto em que monitorar mais custa mais do que o benefício gerado.
    A solução nunca é controle perfeito
    Controle perfeito seria extremamente caro.
    A empresa precisa encontrar um equilíbrio.
    Delegar algumas decisões.
    Monitorar outras.
    Criar incentivos.
    Aceitar algum nível de risco.
    Essa é a lógica da governança.
    O problema aparece também no setor público
    Cidadãos são os principais.
    Políticos são agentes.
    Mas existe uma diferença importante.
    O cidadão não consegue observar todas as decisões políticas.
    E o político possui objetivos próprios:
    reeleição,
    reputação,
    poder,
    coalizões.
    O interesse social e o interesse político podem divergir.
    Isso ajuda a entender políticas públicas
    Imagine um governante que pode escolher entre:
    investir em uma obra de retorno econômico em dez anos,
    ou criar um programa com benefício imediato antes da eleição.
    Se o sistema político recompensa resultados de curto prazo, existe incentivo para escolher a segunda opção.
    Não necessariamente porque o político seja irracional.
    Mas porque o sistema de incentivos é diferente.
    Existe ainda o problema de informação
    O cidadão possui muito menos informação sobre política pública do que o governo.
    O ministro sabe mais.
    O servidor sabe mais.
    O grupo de interesse sabe mais.
    Essa assimetria dificulta a fiscalização.
    A imprensa e as instituições reduzem esse problema
    Transparência.
    Auditorias.
    Tribunais de contas.
    Congresso.
    Imprensa.
    Dados abertos.
    Essas instituições funcionam parcialmente como mecanismos de monitoramento.
    Elas reduzem a distância entre quem delega e quem executa.
    O problema também aparece em contratos privados
    Imagine que você contrate uma empresa para reformar sua casa.
    Você quer:
    boa qualidade,
    baixo custo,
    prazo adequado.
    A empresa quer:
    receita,
    margem,
    menor custo.
    Se você não consegue observar a qualidade dos materiais, existe espaço para reduzir custos às suas custas.
    O contrato precisa criar mecanismos de proteção.
    E isso nos leva a uma conclusão importante
    Contratos não existem apenas para registrar acordos.
    Eles existem também para organizar incentivos.
    Um bom contrato tenta antecipar:
    quem decide,
    quem paga,
    quem assume risco,
    quem recebe o benefício,
    como o desempenho será medido,
    o que acontece quando algo dá errado.
    A tecnologia pode reduzir custos de agência
    Dashboards.
    Auditoria automatizada.
    Rastreamento.
    Blockchain.
    IA.
    Sensores.
    Dados em tempo real.
    Tudo isso pode aumentar a capacidade de monitorar agentes.
    Mas existe um limite.
    Mais informação não elimina conflitos de interesse.
    A conclusão
    O problema principal-agente está escondido em praticamente toda relação de delegação.
    Quando alguém decide por outra pessoa, surge uma pergunta:
    como garantir que o agente tenha motivos para fazer aquilo que o principal deseja?
    A resposta passa por:
    incentivos,
    monitoramento,
    contratos,
    transparência,
    governança.
    É por isso que a teoria da agência é tão útil.
    Ela mostra que muitas falhas de empresas e instituições não acontecem porque as pessoas não sabem o que fazer.
    Acontecem porque quem decide não é exatamente quem suporta as consequências da decisão.
    E quando isso acontece, a estrutura de incentivos passa a ser tão importante quanto a competência de quem está tomando a decisão.

    Fonte:
    Jensen e Meckling, Theory of the Firm: Managerial Behavior, Agency Costs and Ownership Structure, Journal of Financial Economics, 1976. DOI

  • Tarifas dos EUA estão afetando exportadores brasileiros. O que é drawback e por que ele importa?

    Imagine uma empresa brasileira que exporta máquinas para os Estados Unidos.
    Ela importa componentes.
    Transforma esses componentes no Brasil.
    Depois exporta a máquina.
    Agora os Estados Unidos aumentam as tarifas sobre o produto final.
    A empresa enfrenta um problema.
    Sua exportação fica mais cara.
    Mas existe outro:
    ela também precisa cumprir compromissos tributários associados aos insumos importados.
    É nesse ponto que entra o drawback.
    O que é drawback?
    É um regime aduaneiro que permite suspender ou eliminar determinados tributos incidentes sobre insumos utilizados na produção de bens destinados à exportação.
    A lógica é simples.
    Se uma empresa importa um componente apenas para incorporá-lo a um produto que será exportado, tributar esse insumo pode reduzir a competitividade da exportação brasileira.
    O regime tenta evitar isso.
    Por que o governo mexeu no prazo?
    O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços regulamentou uma prorrogação excepcional de até um ano para determinados atos de drawback afetados pelas tarifas adicionais dos Estados Unidos.
    A medida decorre da MP 1.386/2026 e da Portaria Secex 536. Serviços e Informações do Brasil
    A justificativa é direta:
    as tarifas americanas podem ter comprometido a capacidade de as empresas cumprirem seus compromissos de exportação.
    O que significa “compromisso de exportação”?
    Imagine que uma empresa importe componentes com suspensão tributária.
    Ela assume o compromisso de utilizar esses componentes em determinada operação destinada à exportação.
    Se a exportação não acontece dentro do prazo previsto, surge um problema tributário.
    A tarifa americana pode tornar aquela operação comercial inviável ou atrasá-la.
    O governo brasileiro está tentando dar mais tempo para que a empresa se ajuste.
    Isso é subsídio à exportação?
    Não exatamente.
    Essa distinção importa.
    O drawback não foi criado especificamente para compensar tarifas americanas.
    Ele é um regime de desoneração vinculado à exportação.
    A medida atual altera prazos para empresas que foram afetadas pelas novas condições comerciais.
    Por que uma tarifa estrangeira pode atingir uma cadeia inteira?
    Porque exportações são cadeias.
    Uma máquina exportada pode depender de:
    aço,
    eletrônicos,
    componentes,
    software,
    transporte,
    serviços,
    financiamento.
    Quando o produto final fica mais caro no destino, toda a cadeia pode ser afetada.
    O problema não é apenas vender menos
    Imagine que uma empresa exporte US$ 10 milhões.
    Ela possui fornecedores no Brasil que dependem daquele contrato.
    Se as vendas caírem, o impacto não termina no exportador.
    Pode atingir:
    fornecedores,
    transportadoras,
    indústrias de componentes,
    empregos,
    investimentos.
    Essa é uma das razões pelas quais políticas comerciais possuem efeitos indiretos.
    O governo identificou setores variados
    Segundo o MDIC, empresas que utilizam drawback e exportam aos Estados Unidos incluem fabricantes de:
    produtos de madeira,
    pedras trabalhadas,
    produtos químicos,
    portas,
    calçados,
    transformadores,
    carnes,
    móveis,
    máquinas e equipamentos. Serviços e Informações do Brasil
    Portanto, não estamos falando apenas de grandes commodities.
    Existe uma cadeia manufatureira relevante.
    A tarifa americana muda a conta
    Imagine um produto brasileiro que custava US$ 100 no mercado americano.
    Se uma tarifa adicional de 25% for aplicada, o custo antes de outros elementos passa a ser US$ 125.
    O exportador pode:
    absorver parte do custo,
    reduzir margem,
    negociar com o comprador,
    aumentar preço,
    ou simplesmente deixar de vender.
    A resposta depende da elasticidade da demanda e da estrutura competitiva.
    Existe uma segunda questão
    O comprador americano pode encontrar outro fornecedor.
    Nesse caso, a empresa brasileira perde mercado.
    Isso é especialmente relevante quando o produto possui concorrentes de outros países.
    Por isso, tarifa é diferente de proibição
    Uma tarifa não impede necessariamente a importação.
    Ela altera o preço relativo.
    Se o produto brasileiro continua competitivo mesmo com a tarifa, a exportação pode continuar.
    Se perde competitividade, a demanda pode migrar para outro fornecedor.
    O Brasil também está respondendo
    O governo brasileiro já criou diferentes mecanismos para apoiar empresas afetadas.
    A prorrogação do drawback é uma delas.
    Mas isso não elimina o problema estrutural.
    A empresa ainda precisa encontrar uma maneira de permanecer competitiva.
    A política pode comprar tempo
    Essa talvez seja a melhor maneira de interpretar a medida.
    O governo está dando tempo para que determinadas empresas:
    renegociem contratos,
    encontrem mercados alternativos,
    ajustem produção,
    reorganizem estoques,
    adaptem fornecedores.
    É uma política de amortecimento.
    Não é solução definitiva.
    Existe uma questão fiscal
    Toda política de desoneração ou prorrogação tributária possui custo de oportunidade.
    Recursos públicos deixam de ser arrecadados ou determinadas obrigações são postergadas.
    Por isso, a política precisa ser avaliada pela quantidade de atividade econômica que consegue preservar.
    O risco é transformar exceção em dependência
    Se uma empresa só consegue exportar quando recebe proteção ou benefício fiscal, existe um problema de competitividade.
    Mas se um choque externo temporário ameaça uma empresa que é estruturalmente eficiente, ajudá-la a atravessar o período pode fazer sentido.
    Essa distinção é crucial.
    A conclusão
    As tarifas americanas não afetam apenas o preço do produto na alfândega.
    Elas podem alterar contratos, estoques, produção, fornecedores e decisões de investimento muito antes de a mercadoria chegar aos Estados Unidos.
    O drawback aparece justamente nessa engrenagem.
    A medida brasileira não elimina a tarifa americana.
    Ela tenta impedir que o choque comercial transforme um problema temporário de acesso ao mercado em uma ruptura permanente das cadeias de exportação.
    A pergunta que ficará para os próximos meses é mais importante:
    quantas empresas usarão esse tempo para se adaptar — e quantas precisarão de proteção novamente quando o prazo terminar?
    Essa resposta dirá muito mais sobre a competitividade brasileira do que o tamanho dos incentivos concedidos.

    Fonte:
    Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — regras do drawback;
    MDIC — impacto das tarifas dos EUA sobre exportações brasileiras.

  • O emprego nos EUA surpreendeu. Por que isso pode manter os juros americanos altos — e afetar o Brasil?

    Um dado sobre empregos nos Estados Unidos pode parecer distante da economia brasileira.
    Não é.
    Na sexta-feira, 4 de setembro, o mercado recebeu uma surpresa: os empregadores americanos criaram 162 mil postos de trabalho em agosto, enquanto a taxa de desemprego permaneceu em 4,1%. Bureau of Labor Statistics
    O resultado foi muito mais forte que as expectativas que prevaleciam antes da divulgação.
    E isso mudou uma variável que importa para praticamente todos os mercados:
    o caminho dos juros do Federal Reserve.
    Por que um relatório de emprego mexe com os juros?
    O Federal Reserve possui, entre seus objetivos, a busca por estabilidade de preços e condições sustentáveis no mercado de trabalho.
    Quando a economia americana cria muitos empregos, existe uma possibilidade:
    a demanda continua forte.
    Se a demanda permanece forte enquanto a inflação está acima da meta, reduzir juros pode ser mais arriscado.
    É por isso que dados de emprego entram diretamente na equação monetária.
    O número de 162 mil foi realmente forte?
    Sim, em relação às expectativas.
    O relatório do Bureau of Labor Statistics mostrou 162 mil novos empregos não agrícolas em agosto e desemprego de 4,1%. Bureau of Labor Statistics
    Além disso, os números anteriores foram revisados para cima.
    Isso reforçou a percepção de que o mercado de trabalho americano não estava tão fraco quanto alguns indicadores anteriores sugeriam.
    Mas existe uma nuance importante
    Um bom número de criação de vagas não significa automaticamente uma economia superaquecida.
    O mercado de trabalho pode criar empregos e, simultaneamente, apresentar:
    crescimento salarial moderado,
    menor participação,
    contratações concentradas em determinados setores,
    queda de vagas em outros.
    Por isso, o Fed não olha apenas para o payroll.
    O desemprego permaneceu em 4,1%
    Esse número é particularmente relevante.
    O desemprego não aumentou apesar das incertezas econômicas.
    Isso reduz a pressão para que o Federal Reserve corte juros apenas para evitar uma deterioração rápida do mercado de trabalho.
    E a inflação continua sendo o problema
    O Fed enfrenta um dilema clássico.
    Se os juros permanecerem altos demais:
    a atividade pode desacelerar excessivamente.
    Se forem reduzidos cedo demais:
    a inflação pode permanecer elevada.
    O relatório de emprego torna a segunda preocupação mais relevante.
    O mercado mudou suas apostas
    Após os dados, instituições financeiras revisaram suas projeções.
    A Citigroup, por exemplo, passou a projetar o próximo corte de juros do Fed apenas para 2027, em vez de outubro de 2026. Reuters
    A UBS foi ainda mais hawkish e passou a projetar dois aumentos de juros em 2026. Reuters
    Isso não significa que o Fed necessariamente aumentará os juros.
    Significa que o mercado passou a considerar esse cenário mais plausível.
    Essa diferença é fundamental
    Expectativa não é decisão.
    O Federal Reserve ainda terá de analisar novos dados.
    E a agenda é importante.
    O Bureau of Labor Statistics prevê a divulgação do PPI de agosto em 10 de setembro e do CPI de agosto em 11 de setembro. Bureau of Labor Statistics
    Esses números podem alterar novamente as expectativas.
    É aqui que o Brasil entra
    Imagine um investidor internacional.
    Ele possui duas opções:
    investir em ativos brasileiros,
    ou investir em títulos americanos.
    Se os juros americanos sobem, os títulos dos EUA podem ficar mais atraentes.
    Para manter dinheiro no Brasil, o investidor pode exigir retorno maior.
    Isso afeta os preços dos ativos brasileiros.
    O câmbio sente
    Quando investidores demandam mais dólares ou reduzem posições em ativos brasileiros, o real pode se depreciar.
    Isso pode encarecer produtos importados.
    Pode aumentar o custo de alguns insumos.
    Pode pressionar inflação.
    E pode influenciar a própria política monetária brasileira.
    Os juros brasileiros também podem sentir
    O Brasil não define sua taxa de juros olhando apenas para os Estados Unidos.
    Mas o diferencial de juros entre os países importa para fluxos financeiros.
    Se o retorno americano aumenta, manter determinada diferença entre Brasil e EUA pode exigir uma taxa brasileira relativamente mais alta.
    Não existe uma fórmula mecânica.
    Mas existe uma conexão.
    Foi isso que apareceu no mercado brasileiro
    Após os dados americanos, o dólar fechou a sexta-feira em torno de R$ 5,13, enquanto o Ibovespa encerrou em queda de 0,14%, depois de uma sequência de 11 altas. UOL Economia
    O movimento não pode ser atribuído exclusivamente ao payroll.
    Mercados respondem simultaneamente a muitas informações.
    Mas o relatório foi claramente relevante.
    E existe petróleo na equação
    O Brent fechou a sexta-feira em aproximadamente US$ 96,28 por barril. UOL Economia
    Isso adiciona outra fonte de pressão.
    Petróleo elevado pode pressionar inflação.
    Inflação elevada pode limitar cortes de juros.
    E juros americanos elevados podem fortalecer o dólar.
    São canais diferentes que podem se reforçar.
    O Brasil não deve copiar o Fed
    Essa é uma conclusão importante.
    Se o Federal Reserve mantiver juros altos, isso não significa automaticamente que o Banco Central do Brasil precisará fazer o mesmo.
    A política monetária brasileira responde a:
    inflação doméstica,
    expectativas,
    atividade econômica,
    câmbio,
    fiscal,
    condições financeiras.
    O Fed é uma variável externa.
    Não é o decisor da Selic.
    O que acompanhar agora?
    Três dados merecem atenção:
    CPI americano — 11 de setembro
    PPI americano — 10 de setembro
    próximas expectativas de mercado para o Fed
    Eles ajudarão a responder se o payroll foi uma exceção ou parte de uma re-aceleração do mercado de trabalho.
    A conclusão
    O relatório de emprego americano não é apenas uma estatística sobre trabalhadores nos Estados Unidos.
    Ele altera a percepção sobre a trajetória da política monetária americana.
    E isso afeta:
    dólar,
    Treasuries,
    bolsas,
    fluxos internacionais,
    juros brasileiros.
    O ponto central é simples:
    quando a maior economia do mundo parece precisar de juros altos por mais tempo, o dinheiro internacional fica mais caro e a margem de manobra de economias emergentes diminui.
    Por isso, na próxima sexta-feira, o CPI americano será muito mais do que um número de inflação.
    Será mais uma peça do quebra-cabeça que determinará se o Fed pode cortar juros — ou se precisará manter a política monetária restritiva.

    Fontes:
    U.S. Bureau of Labor Statistics — Employment Situation;
    Calendário oficial de divulgações do BLS.

  • A crítica de Lucas: por que uma política econômica pode mudar o comportamento que ela tenta prever?

    Imagine que um governo observe uma relação histórica:
    sempre que a inflação aumentou, o desemprego caiu.
    A conclusão parece simples.
    “Se aumentarmos a inflação, podemos reduzir o desemprego.”
    Mas existe um problema.
    As pessoas também observam o governo.
    Se trabalhadores e empresas percebem que a política mudou, mudam suas decisões.
    Salários.
    Preços.
    Contratos.
    Investimentos.
    Contratações.
    A relação histórica pode desaparecer.
    Essa é a intuição central da crítica de Lucas.
    O passado não é necessariamente um bom guia para uma nova política
    Modelos econométricos frequentemente identificam relações entre variáveis.
    Por exemplo:
    quando X aumenta, Y tende a aumentar.
    Isso pode ser perfeitamente verdadeiro sob determinada regra de política.
    Mas e se a regra mudar?
    Se os agentes econômicos responderem à mudança, o relacionamento entre X e Y também pode mudar.
    Lucas colocou expectativas no centro
    Robert E. Lucas Jr. desenvolveu e aplicou a hipótese das expectativas racionais, mostrando como expectativas sobre o futuro afetam decisões econômicas presentes. O trabalho lhe rendeu o Nobel de Economia de 1995. Prêmio Nobel
    A ideia não é que as pessoas sejam oniscientes.
    É mais simples.
    Elas utilizam as informações disponíveis para formar expectativas e aprendem com erros.
    Um exemplo simples: inflação
    Imagine que o governo anuncie:
    “vamos aceitar inflação maior para reduzir o desemprego.”
    Se trabalhadores acreditarem que a inflação permanecerá baixa, podem aceitar contratos salariais menores.
    Mas se acreditarem que a inflação será maior, exigirão salários nominais maiores.
    As empresas anteciparão custos maiores.
    Os preços podem subir.
    O efeito inicial da política muda.
    A política altera as expectativas
    Esse é o ponto.
    O governo não está jogando contra uma economia passiva.
    Está jogando contra pessoas e empresas que também observam as regras.
    Se o comportamento deles muda, a relação estatística anterior deixa de ser confiável.
    É por isso que Lucas criticou modelos econométricos tradicionais
    Em seu famoso artigo de 1976, “Econometric Policy Evaluation: A Critique”, Lucas argumentou que parâmetros estimados sob um determinado regime de política podem não permanecer estáveis quando a política muda.
    A crítica teve enorme impacto na macroeconomia. Prêmio Nobel
    Pense em uma regra de trânsito
    Imagine que você observe:
    “quando há radar, os carros passam mais devagar.”
    Você conclui:
    “instalar radares reduz a velocidade.”
    Provavelmente.
    Agora imagine que os motoristas descubram exatamente onde estão os radares.
    Eles reduzem a velocidade apenas nesses pontos.
    E aceleram novamente depois.
    O comportamento agregado mudou porque a regra foi percebida.
    Economia funciona de forma mais complexa
    Empresas sabem que impostos mudam.
    Famílias sabem que juros mudam.
    Investidores acompanham o Banco Central.
    Trabalhadores acompanham inflação.
    Mercados formam expectativas.
    Portanto, políticas econômicas são anunciadas dentro de um ambiente estratégico.
    Isso aparece na política monetária
    Imagine que o Banco Central anuncie uma regra totalmente previsível.
    Se os agentes acreditarem que a inflação será de 4%, isso entra em:
    preços,
    salários,
    contratos,
    juros,
    câmbio.
    As expectativas podem influenciar a inflação antes mesmo da política produzir todos os seus efeitos.
    É por isso que credibilidade importa
    Um Banco Central que possui credibilidade consegue influenciar expectativas.
    Se os agentes acreditam que a autoridade monetária realmente perseguirá sua meta, a formação de preços pode incorporar essa expectativa.
    Se não acreditam, a tarefa fica mais difícil.
    A crítica de Lucas não diz que modelos são inúteis
    Esse é um erro comum.
    Lucas não disse:
    “não use econometria.”
    Ele disse algo mais sofisticado.
    Precisamos de modelos cujas relações estruturais não desapareçam quando a política muda.
    É uma exigência metodológica.
    Isso muda a forma de avaliar políticas públicas
    Imagine uma política de subsídio.
    Você estima que cada R$ 1 de subsídio gera R$ 1,50 de investimento.
    Ótimo.
    Mas se o governo anunciar que o subsídio será permanente, as empresas podem mudar seus comportamentos.
    Podem investir mais.
    Podem reduzir investimento próprio.
    Podem aumentar preços.
    Podem reorganizar estruturas.
    O efeito estimado originalmente pode desaparecer.
    A política pública precisa considerar o comportamento
    Isso vale para:
    impostos,
    benefícios,
    salário mínimo,
    subsídios,
    regulação,
    juros,
    câmbio.
    Sempre que uma regra muda os incentivos, os agentes respondem.
    E isso aproxima economia de teoria dos jogos
    O governo decide.
    As empresas observam.
    As famílias observam.
    Os investidores observam.
    E todos ajustam suas decisões.
    Não é uma máquina mecânica.
    É um sistema adaptativo.
    A conclusão
    A crítica de Lucas é uma das razões pelas quais economia é mais difícil do que simplesmente encontrar correlações nos dados.
    Uma relação histórica pode ser verdadeira.
    Mas isso não significa que ela sobreviverá a uma mudança de política.
    Porque as pessoas não são constantes estatísticas.
    Elas aprendem.
    Antecipam.
    Reagem.
    Mudam de comportamento.
    E esse talvez seja o ponto mais importante para quem analisa políticas públicas:
    quando o governo muda as regras do jogo, os jogadores também mudam sua estratégia.
    Por isso, avaliar uma política exige mais do que perguntar:
    “o que aconteceu quando fizemos isso no passado?”
    É preciso perguntar:
    “o que as pessoas farão quando souberem que estamos fazendo isso agora?”

    Fonte:
    Robert E. Lucas, Econometric Policy Evaluation: A Critique (1976). A contextualização histórica e metodológica pode ser conferida na documentação do Nobel.

  • O paradoxo de Jevons: por que uma tecnologia mais eficiente pode aumentar o consumo?

    Imagine que uma máquina consuma 10 litros de combustível para produzir uma determinada quantidade.
    Uma nova tecnologia reduz esse consumo para 5 litros.
    Parece lógico concluir:
    “Agora vamos gastar menos combustível.”
    Mas existe outra possibilidade.
    Como produzir ficou mais barato, a empresa aumenta a produção.
    Outras empresas também passam a utilizar a tecnologia.
    O produto fica mais barato.
    A demanda aumenta.
    E o consumo total de combustível pode subir.
    Essa ideia ficou conhecida como paradoxo de Jevons.
    A origem está no carvão
    William Stanley Jevons observou o fenômeno no século XIX, durante a industrialização britânica.
    Sua preocupação era o carvão.
    Máquinas a vapor estavam ficando mais eficientes.
    Isso deveria reduzir o uso de carvão por unidade produzida.
    Mas a eficiência também tornava a utilização do carvão economicamente mais atraente.
    O resultado poderia ser aumento, e não redução, do consumo agregado.
    A eficiência reduz o custo efetivo
    Imagine que uma empresa precise de 100 unidades de energia para produzir uma tonelada.
    Uma nova tecnologia reduz para 50.
    O custo energético por tonelada cai.
    Agora produzir uma tonelada adicional ficou mais barato.
    A empresa possui incentivo para produzir mais.
    Eficiência não significa automaticamente menor consumo
    Essa é a parte contraintuitiva.
    Existem dois efeitos.
    Primeiro:
    efeito eficiência.
    É necessário menos recurso por unidade produzida.
    Segundo:
    efeito expansão.
    Como produzir ficou mais barato, a quantidade produzida pode aumentar.
    Se o segundo efeito for suficientemente forte, o consumo total cresce.
    Pense em combustível
    Um carro que percorre 10 km por litro consome mais combustível por quilômetro que um carro que percorre 20 km por litro.
    Mas suponha que o carro eficiente reduza drasticamente o custo de dirigir.
    O proprietário pode passar a dirigir muito mais.
    Pode fazer viagens que antes não faria.
    Pode utilizar o carro diariamente.
    A economia por quilômetro aumenta.
    O consumo total pode não cair na mesma proporção.
    Isso é o efeito rebote
    O paradoxo de Jevons está relacionado ao chamado efeito rebote.
    A eficiência reduz o custo efetivo do serviço proporcionado pelo recurso.
    Isso incentiva maior utilização.
    Nem todo ganho de eficiência gera um aumento absoluto do consumo.
    Esse cuidado é importante.
    O paradoxo é uma possibilidade, não uma lei universal.
    A inteligência artificial torna o tema ainda mais interessante
    Imagine que uma tarefa de análise de dados custe 100 unidades de computação.
    Uma nova arquitetura de IA reduz o custo para 20.
    O resultado parece óbvio:
    menos computação.
    Mas o que acontece se, simultaneamente, empresas que antes não utilizavam IA começarem a utilizar?
    E se empresas que já utilizavam IA passarem a automatizar dez vezes mais processos?
    O custo por tarefa cai.
    O número de tarefas aumenta.
    A demanda por computação pode crescer
    Essa é uma questão central para entender a economia da IA.
    Modelos mais eficientes não significam necessariamente menor demanda total por infraestrutura.
    Se o custo de inteligência artificial cair suficientemente, novas aplicações podem se tornar economicamente viáveis.
    Empresas podem automatizar tarefas que antes eram caras demais.
    Consumidores podem utilizar serviços mais intensivamente.
    Novos produtos podem surgir.
    A eficiência cria novos mercados
    Imagine tradução automática.
    Se traduzir uma página custasse R$ 100, poucas empresas traduziriam milhões de páginas.
    Se o custo cair para centavos, passa a fazer sentido traduzir:
    sites,
    documentos,
    vídeos,
    atendimento,
    aulas,
    catálogos.
    A eficiência não apenas reduz custo.
    Ela pode expandir o conjunto de atividades economicamente possíveis.
    Isso acontece também com processamento de dados
    Quanto mais barato fica armazenar e processar informação, mais empresas utilizam dados.
    Quanto mais barata fica a computação, mais modelos podem ser executados.
    Quanto mais barata fica a IA, mais tarefas podem ser automatizadas.
    A demanda pode responder fortemente à queda do preço.
    O paradoxo não diz que eficiência é ruim
    Essa é uma interpretação equivocada.
    Eficiência é extremamente valiosa.
    Ela permite produzir mais com menos recursos por unidade.
    O ponto é que precisamos distinguir:
    consumo por unidade
    de
    consumo total.
    São métricas diferentes.
    Uma empresa pode consumir menos por produto e mais no total
    Imagine:
    antes:
    10 unidades de energia por produto × 100 produtos = 1.000 unidades.
    Depois:
    5 unidades por produto × 300 produtos = 1.500 unidades.
    A eficiência dobrou.
    O consumo total aumentou 50%.
    Não existe contradição matemática.
    É por isso que políticas públicas precisam ser desenhadas com cuidado
    Se o objetivo é reduzir consumo energético, simplesmente aumentar eficiência pode não ser suficiente.
    Pode ser necessário combinar:
    eficiência,
    preço,
    tributação,
    regulação,
    limites de consumo,
    mudança tecnológica.
    A política depende do objetivo.
    Isso também vale para produtividade
    Imagine uma empresa que aumenta a produtividade de seus funcionários em 30%.
    Ela pode:
    reduzir a jornada,
    manter o mesmo quadro e produzir mais,
    reduzir custos,
    baixar preços,
    expandir vendas.
    O efeito final sobre emprego depende de como o aumento de produtividade altera demanda e produção.
    Eficiência é apenas o primeiro passo.
    A IA pode produzir um grande efeito de expansão
    Esse é um dos pontos mais interessantes para os próximos anos.
    Se IA reduz drasticamente o custo de certas tarefas intelectuais, podemos não simplesmente substituir trabalho humano.
    Podemos também aumentar a quantidade de trabalho intelectual economicamente viável.
    Empresas que antes faziam dez análises podem fazer mil.
    Profissionais que antes produziam cinco relatórios podem produzir cinquenta.
    Isso pode criar demanda por computação muito maior.
    A mesma lógica aparece na história
    Computadores ficaram muito mais baratos.
    Isso não reduziu a quantidade de computação utilizada pela economia.
    Aumentou.
    Internet ficou muito mais barata.
    Isso não reduziu o uso da internet.
    Aumentou.
    Armazenamento ficou muito mais barato.
    A quantidade de dados armazenados explodiu.
    São exemplos da ideia econômica por trás do paradoxo.
    O verdadeiro efeito depende da elasticidade da demanda
    Aqui entra um conceito microeconômico importante.
    Se a demanda aumenta pouco quando o custo cai, o consumo total tende a diminuir.
    Se a demanda reage fortemente à redução do custo, o efeito rebote pode ser grande.
    Portanto, a magnitude do paradoxo depende da elasticidade.
    A conclusão
    O paradoxo de Jevons nos obriga a abandonar uma intuição confortável.
    Usar menos recurso por unidade não significa necessariamente usar menos recurso no total.
    Quando a eficiência reduz custos, ela pode estimular produção, consumo e criação de novos mercados.
    É por isso que a questão é especialmente interessante no caso da inteligência artificial.
    Se a IA tornar o processamento de informação extremamente barato, talvez a economia não simplesmente use menos computação.
    Talvez passe a usar computação em praticamente tudo.
    E esse é o ponto central.
    A eficiência não apenas reduz o custo daquilo que já fazemos. Ela pode tornar economicamente possível fazer coisas que antes eram caras demais para existir.

    Fontes: William Stanley Jevons, The Coal Question (1865)

  • Custo afundado: por que insistimos em decisões ruins só porque já gastamos dinheiro?

    Você compra um ingresso para um filme.
    Chega ao cinema.
    Os primeiros 20 minutos são péssimos.
    Você olha para o relógio.
    Pensa em ir embora.
    Mas decide ficar.
    “Já paguei.”
    É uma frase perfeitamente comum.
    E economicamente problemática.
    Porque o dinheiro já foi gasto.
    A decisão relevante agora é outra:
    vale a pena passar as próximas duas horas aqui?
    Esse é o problema do custo afundado.
    O passado não pode ser recuperado
    Um custo afundado é um recurso que já foi gasto e não pode ser recuperado independentemente da decisão futura.
    O ingresso já foi comprado.
    O dinheiro já saiu.
    Não importa se você assistir ao filme inteiro ou sair na metade.
    O valor pago não volta.
    A decisão correta olha para frente
    Imagine duas opções.
    Ficar no cinema.
    Ir para casa e ler um livro.
    O custo de ficar é o tempo restante que você poderia utilizar de outra maneira.
    O ingresso não deveria entrar no cálculo.
    Ele já pertence ao passado.
    Parece simples
    Mas seres humanos não funcionam tão racionalmente.
    Queremos justificar nossas decisões anteriores.
    Se pagamos caro por algo, sentimos necessidade de utilizá-lo.
    Se investimos muito em um projeto, queremos vê-lo terminar.
    Se passamos anos em determinada carreira, temos dificuldade para abandoná-la.
    É aí que o custo afundado se transforma em armadilha
    Imagine uma empresa que gastou R$ 20 milhões desenvolvendo um produto.
    Depois de dois anos, os testes mostram que a demanda é muito menor que o esperado.
    O projeto exige mais R$ 10 milhões.
    A administração pensa:
    “Não podemos parar agora. Já gastamos R$ 20 milhões.”
    Mas os R$ 20 milhões não podem ser recuperados.
    A decisão correta deveria comparar:
    investir mais R$ 10 milhões
    versus
    abandonar e utilizar os recursos restantes em outra oportunidade.
    O passado é informação, mas não é argumento
    Existe uma nuance importante.
    O fato de a empresa já ter investido R$ 20 milhões pode conter informação.
    Talvez o investimento anterior tenha criado infraestrutura útil.
    Talvez tenha desenvolvido tecnologia.
    Talvez tenha gerado conhecimento.
    Mas o simples fato de ter gasto dinheiro não torna o projeto mais valioso.
    É o presente que precisa ser comparado
    Imagine dois projetos.
    Projeto A já recebeu R$ 50 milhões.
    Projeto B ainda não recebeu nada.
    Agora ambos exigem R$ 10 milhões para continuar.
    Se A tem retorno esperado de R$ 5 milhões e B de R$ 30 milhões, o fato de A já ter recebido R$ 50 milhões não torna A melhor.
    Os R$ 50 milhões são passado.
    Isso acontece muito em empresas
    Projetos de tecnologia.
    Campanhas de marketing.
    Expansão internacional.
    Aquisições.
    Contratações.
    Produtos.
    Uma organização pode continuar colocando dinheiro em algo apenas porque já colocou muito antes.
    Governos também enfrentam o problema
    Uma política pública pode consumir bilhões durante anos.
    Depois, evidências mostram que o efeito esperado não apareceu.
    Existe resistência para encerrá-la.
    A justificativa:
    “Não podemos abandonar depois de tudo que investimos.”
    Mas essa é justamente a lógica que precisa ser questionada.
    O correto é avaliar o efeito futuro
    Uma política deve continuar se:
    o benefício esperado supera o custo futuro,
    ou se existem razões estratégicas para mantê-la.
    Não porque já consumiu recursos.
    O conceito é especialmente importante em investimentos
    Imagine que você comprou uma ação por R$ 100.
    Ela caiu para R$ 60.
    Você pensa:
    “Não vou vender porque só vendo quando voltar a R$ 100.”
    Mas o preço de compra não determina o valor atual da empresa.
    A pergunta deveria ser:
    se eu tivesse R$ 60 hoje, compraria essa ação novamente?
    Essa é uma forma prática de escapar da armadilha.
    O preço de compra pode virar uma âncora
    O investidor passa a enxergar R$ 100 como “o preço justo” simplesmente porque foi quanto pagou.
    Mas o mercado não sabe quanto você pagou.
    A empresa não sabe.
    Os fluxos de caixa futuros não sabem.
    A economia não sabe.
    O custo afundado é uma falha de perspectiva
    A pessoa olha para trás.
    A decisão econômica deveria olhar para frente.
    Isso não significa ignorar a história.
    Significa não permitir que recursos irreversíveis determinem uma decisão sobre recursos ainda reversíveis.
    Existe uma diferença entre persistência e teimosia
    Persistir pode ser racional.
    Uma startup pode continuar mesmo depois de resultados ruins porque aprendeu algo importante.
    Uma empresa pode continuar um projeto porque os dados recentes mostram melhora.
    Um governo pode manter uma política porque os efeitos aparecem com defasagem.
    O problema não é continuar.
    O problema é continuar por causa do que já foi gasto.
    A pergunta correta
    Sempre que uma decisão parecer difícil, experimente perguntar:
    “Se eu estivesse começando hoje, sabendo tudo o que sei agora, escolheria fazer isso novamente?”
    Se a resposta for não, o passado pode estar dominando a decisão.
    Isso também vale para decisões pessoais
    Um curso que você não pretende concluir.
    Um relacionamento profissional que não funciona.
    Uma assinatura que não utiliza.
    Um investimento ruim.
    Uma empresa que você não acredita mais.
    Um projeto pessoal que deixou de fazer sentido.
    Tempo e dinheiro já gastos não retornam.
    A pergunta é quanto vale continuar.
    O custo de oportunidade aparece imediatamente
    Ao continuar em um projeto ruim, você não está apenas gastando mais dinheiro.
    Está deixando de utilizar esse dinheiro em outro lugar.
    Esse é o verdadeiro custo.
    A conclusão
    O custo afundado é uma das ideias mais simples da economia.
    E uma das mais difíceis de aplicar.
    Porque seres humanos não gostam de admitir que erraram.
    Queremos transformar decisões passadas em justificativas para decisões futuras.
    Mas a economia exige uma separação mais fria.
    O que foi gasto pertence ao passado.
    A decisão atual precisa considerar apenas aquilo que ainda pode mudar.
    Quanto custa continuar?
    Quanto podemos ganhar?
    Quais são as alternativas?
    Qual é o custo de oportunidade?
    Essas são as perguntas relevantes.
    Talvez a melhor maneira de resumir o conceito seja esta:
    você não recupera um erro insistindo nele.

  • Orçamento de 2027: por que o governo terá menos espaço para aumentar despesas?

    O governo federal enviou ao Congresso o Projeto de Lei Orçamentária de 2027 com previsão de R$ 18,6 bilhões de superávit primário no resultado cheio.
    Mas existe um detalhe que merece atenção.
    O resultado considerado para o cumprimento da meta fiscal é diferente: chega a R$ 83,4 bilhões, depois dos descontos previstos pelo regime fiscal. Serviços e Informações do Brasil
    Isso pode parecer uma contradição.
    Não é.
    É consequência da forma como as regras fiscais brasileiras foram desenhadas.
    Primeiro: o que é resultado primário?
    É a diferença entre receitas e despesas do governo antes dos juros da dívida.
    Se o governo arrecada R$ 2 trilhões e gasta R$ 1,9 trilhão em despesas primárias, possui superávit de R$ 100 bilhões.
    Depois entram os juros.
    Por isso, superávit primário não significa necessariamente redução da dívida.
    Mas ajuda a determinar a velocidade com que ela cresce.
    O Orçamento prevê R$ 2,576 trilhões de despesas primárias
    O limite representa aumento de 7,7% em relação a 2026.
    Desse total, o governo prevê:
    R$ 272,2 bilhões para Saúde,
    R$ 141,2 bilhões para Educação,
    R$ 133,8 bilhões para investimentos. Serviços e Informações do Brasil
    Os números são grandes.
    Mas o mais importante está nas regras que determinam quanto determinadas despesas podem crescer.
    O arcabouço não permite gastar qualquer valor
    O Regime Fiscal Sustentável estabelece limites para o crescimento real da despesa.
    A lógica é relativamente simples.
    O gasto pode crescer com a inflação e, dentro de determinadas condições, também acima dela.
    Isso evita que a despesa pública cresça indefinidamente mais rápido que a economia e a arrecadação.
    Mas existem gatilhos
    E eles já estão sendo acionados.
    Como houve déficit primário em 2025, o crescimento real das despesas com pessoal e encargos em 2027 fica limitado a 0,6%, excluídas determinadas despesas judiciais.
    Há também uma restrição adicional para despesas com receitas legalmente vinculadas. Serviços e Informações do Brasil
    Por que isso importa?
    Porque o orçamento federal possui muitas despesas que não podem ser simplesmente cortadas.
    Previdência.
    Benefícios.
    Pessoal.
    Transferências.
    Sentenças.
    Quando essas despesas crescem, sobra menos espaço para aquilo que o governo consegue ajustar.
    É a diferença entre:
    despesa obrigatória
    e
    despesa discricionária.
    Imagine o orçamento de uma família
    Uma família recebe R$ 10 mil.
    Mas possui:
    R$ 4 mil de aluguel,
    R$ 2 mil de alimentação,
    R$ 1,5 mil de escola,
    R$ 1 mil de financiamento.
    Sobram R$ 1,5 mil.
    Se os gastos obrigatórios aumentarem, a família terá de cortar:
    viagens,
    restaurantes,
    roupas,
    investimentos.
    O governo enfrenta uma lógica semelhante.
    O problema fiscal brasileiro é justamente esse
    Não basta perguntar:
    “quanto o governo gasta?”
    Precisamos perguntar:
    “quanto desse gasto pode ser alterado?”
    Um orçamento com despesas muito rígidas pode possuir grande tamanho e pouco espaço de manobra.
    O investimento é uma das primeiras vítimas
    Quando despesas obrigatórias aumentam, o governo pode acabar comprimindo investimentos.
    Isso é particularmente problemático.
    Porque investimento público pode aumentar a capacidade produtiva.
    Uma estrada.
    Uma ferrovia.
    Um sistema de saneamento.
    Uma escola.
    Uma infraestrutura digital.
    São despesas que podem produzir benefícios durante muitos anos.
    Existe uma diferença entre cortar gasto e melhorar o gasto
    Um ajuste fiscal de qualidade não deveria simplesmente cortar tudo que é possível.
    Deveria tentar mudar a composição.
    Reduzir desperdícios.
    Melhorar focalização.
    Revisar benefícios.
    Aumentar eficiência.
    Preservar investimentos de alto retorno.
    É muito mais difícil.
    Mas também é muito mais inteligente.
    O orçamento prevê investimentos acima do piso
    O PLOA 2027 prevê R$ 133,8 bilhões em investimentos, acima do piso de R$ 88,7 bilhões. Serviços e Informações do Brasil
    Isso é positivo.
    Mas orçamento autorizado não é necessariamente investimento realizado.
    É preciso acompanhar a execução.
    E existe outro problema: a dívida
    O Prisma Fiscal de agosto projetava a Dívida Bruta do Governo Geral em 83% do PIB em 2026 e 86,77% em 2027. Serviços e Informações do Brasil
    Isso ajuda a explicar por que o resultado primário importa.
    Quanto maior a dívida, maior tende a ser a sensibilidade das contas públicas aos juros.
    Juros tornam o ajuste mais difícil
    Imagine uma empresa altamente endividada.
    Se os juros aumentam, uma parcela maior do fluxo de caixa vai para o serviço da dívida.
    Com o governo ocorre algo semelhante.
    Quanto maior o estoque da dívida e quanto maior o custo médio de financiamento, maior a despesa financeira.
    É por isso que fiscal e monetária se encontram
    Uma política fiscal percebida como pouco sustentável pode afetar:
    expectativas,
    câmbio,
    prêmios de risco,
    juros longos.
    Isso, por sua vez, dificulta o trabalho do Banco Central.
    Não significa que todo aumento de gasto provoque automaticamente inflação.
    A relação é mais complexa.
    Mas a sustentabilidade fiscal influencia o ambiente macroeconômico.
    O número mais importante pode não ser o superávit
    O resultado primário é importante.
    Mas eu acompanharia também a trajetória da dívida em relação ao PIB.
    Se o governo apresenta superávit pequeno enquanto a dívida continua crescendo rapidamente, existe um problema.
    Se o resultado melhora e a dívida estabiliza, a situação é diferente.
    A conclusão
    O Orçamento de 2027 mostra uma realidade que costuma desaparecer no debate político.
    O governo não possui liberdade total para escolher onde gastar.
    Grande parte do orçamento já está comprometida.
    E as regras fiscais começaram a limitar o crescimento real de algumas despesas.
    Isso significa que o debate relevante não é simplesmente:
    “o governo deveria gastar mais ou menos?”
    A pergunta mais importante é:
    “quais despesas devem crescer, quais devem ser revistas e quais investimentos precisam ser preservados para que o ajuste fiscal não destrua o próprio crescimento econômico?”
    É uma discussão menos fácil.
    Mas é a discussão que realmente importa.

    Fonte principal: Ministério da Fazenda e Ministério do Planejamento e Orçamento, PLOA 2027.

  • Goodhart: quando a meta vira objetivo, o indicador começa a enganar

    Imagine uma empresa que avalia vendedores apenas pelo número de contratos fechados.
    No começo, parece razoável.
    Mais contratos significam mais vendas.
    Então a empresa anuncia:
    “Quem fechar mais contratos receberá o maior bônus.”
    O comportamento muda.
    Os vendedores começam a buscar qualquer contrato possível.
    Descontos exagerados.
    Clientes pouco qualificados.
    Vendas que provavelmente serão canceladas.
    O indicador melhorou.
    Mas a empresa pode estar pior.
    Esse problema está relacionado ao que ficou conhecido como Lei de Goodhart.
    O indicador era bom
    Antes da meta, número de contratos era um indicador de desempenho.
    Era uma aproximação.
    Quanto mais contratos, provavelmente melhores as vendas.
    O problema apareceu quando a empresa transformou esse indicador em objetivo.
    A partir daquele momento, os funcionários passaram a otimizar o número.
    Não necessariamente a qualidade das vendas.
    Charles Goodhart formulou a ideia
    O economista britânico Charles Goodhart apresentou a formulação em um artigo de 1975 sobre política monetária.
    A ideia ganhou posteriormente uma formulação mais conhecida:
    quando uma medida vira um alvo, ela deixa de ser uma boa medida.
    A frase parece paradoxal.
    Mas descreve um problema econômico importante.
    Por que isso acontece?
    Porque indicadores são aproximações.
    Você quer medir uma coisa.
    Mas consegue observar outra.
    Quer medir:
    produtividade.
    Observa:
    número de unidades produzidas.
    Quer medir:
    qualidade.
    Observa:
    número de reclamações.
    Quer medir:
    bom atendimento.
    Observa:
    tempo médio de atendimento.
    Quer medir:
    educação.
    Observa:
    nota de uma prova.
    Nenhuma dessas medidas é perfeita.
    O problema aparece quando a recompensa está ligada à medida
    Imagine uma escola que remunere professores exclusivamente pela nota dos alunos.
    O professor possui um incentivo.
    Pode ensinar melhor.
    Mas também pode começar a ensinar apenas o conteúdo da prova.
    Ou excluir alunos com baixo desempenho.
    Ou treinar estratégias para aumentar a nota sem aumentar proporcionalmente o aprendizado.
    A nota sobe.
    O aprendizado pode não subir na mesma proporção.
    Isso é otimização de métrica
    É um fenômeno muito comum em empresas.
    Uma equipe de atendimento possui meta de responder cada chamado em menos de cinco minutos.
    O tempo cai.
    Mas os funcionários começam a encerrar chamados rapidamente.
    A empresa comemora.
    O cliente precisa abrir outro chamado.
    A métrica melhorou.
    O serviço piorou.
    A tecnologia tornou isso ainda mais importante
    Empresas modernas possuem indicadores para quase tudo.
    CAC.
    LTV.
    CTR.
    Conversão.
    Retenção.
    NPS.
    Tempo de resposta.
    Produtividade.
    Receita por funcionário.
    Esses indicadores são úteis.
    Mas nenhum deve ser confundido com o objetivo final.
    Marketing oferece exemplos perfeitos
    Imagine uma campanha cuja meta é maximizar cliques.
    A equipe começa a utilizar títulos cada vez mais sensacionalistas.
    O CTR aumenta.
    Mas os usuários abandonam a página rapidamente.
    O tráfego cresce.
    As vendas não.
    A empresa otimizou o indicador.
    Não o resultado econômico.
    Em investimentos também acontece
    Um gestor de fundos pode ser avaliado apenas pelo retorno anual.
    Isso pode gerar incentivo para assumir riscos excessivos.
    Se ganhar, recebe bônus.
    Se perder muito no longo prazo, talvez já tenha saído da empresa.
    O indicador de curto prazo criou um incentivo para aumentar risco.
    E governos sofrem do mesmo problema
    Imagine uma política pública cujo sucesso seja medido pelo número de pessoas atendidas.
    A burocracia passa a maximizar atendimentos.
    Mas não necessariamente resultados.
    Mais pessoas atendidas não significam necessariamente:
    mais renda,
    mais saúde,
    mais aprendizagem,
    mais produtividade.
    O indicador pode virar um objetivo burocrático.
    O problema não é medir
    Esse ponto é importante.
    A solução não é abandonar indicadores.
    Sem indicadores, gestores não sabem se estão avançando.
    O problema é acreditar que um único número consegue representar toda a realidade.
    Bons sistemas usam múltiplas métricas
    Imagine um hospital.
    Não basta medir quantos pacientes foram atendidos.
    É necessário observar:
    tempo de espera,
    mortalidade,
    reinternação,
    satisfação,
    complicações,
    custo.
    Quanto mais multidimensional for o objetivo, mais perigoso é utilizar apenas uma métrica.
    Existe também uma lição sobre política econômica
    Durante décadas, economistas utilizaram agregados monetários como indicadores relevantes para a política monetária.
    Mas quando relações econômicas mudam, o indicador pode perder parte de sua capacidade informativa.
    Isso foi parte importante do contexto em que Goodhart apresentou sua observação.
    O mundo muda
    Uma medida que funcionava bem ontem pode funcionar pior amanhã.
    Porque:
    comportamentos mudam,
    tecnologias mudam,
    instituições mudam,
    incentivos mudam.
    O indicador não existe isoladamente.
    Ele faz parte de um sistema.
    É aqui que Goodhart encontra teoria dos incentivos
    Quando você recompensa determinado comportamento, você altera o comportamento.
    Parece óbvio.
    Mas organizações frequentemente esquecem disso.
    Criam uma métrica.
    Colocam um bônus.
    E depois ficam surpresas quando as pessoas passam a trabalhar para a métrica.
    O princípio vale para a vida pessoal
    Você decide perder peso.
    Começa a medir apenas o número na balança.
    Pode adotar estratégias ruins:
    desidratação,
    restrição extrema,
    comportamentos insustentáveis.
    A balança caiu.
    Mas seu objetivo não era pesar menos.
    Era melhorar a saúde e a composição corporal.
    O indicador precisa continuar subordinado ao objetivo
    Essa é a lição.
    Métrica é instrumento.
    Não é necessariamente objetivo.
    Quando esquecemos essa distinção, criamos sistemas que recompensam o comportamento errado.
    A conclusão
    Goodhart é uma ideia simples com aplicações enormes.
    Empresas.
    Escolas.
    Hospitais.
    Governos.
    Marketing.
    Finanças.
    Gestão.
    Em todos esses ambientes existe uma tentação:
    transformar algo fácil de medir em substituto daquilo que realmente importa.
    O problema é que as pessoas respondem aos incentivos.
    Quando a métrica vira objetivo, elas aprendem a otimizar a métrica.
    Por isso, um bom gestor não pergunta apenas:
    “qual indicador devemos acompanhar?”
    Pergunta também:
    “o que acontecerá quando as pessoas perceberem que esse indicador determina sua recompensa?”
    Essa segunda pergunta costuma ser muito mais importante.

  • O petróleo subiu, mas a gasolina não. Por que o preço na bomba não acompanha imediatamente o mercado internacional?

    O petróleo subiu.
    A gasolina caiu.
    À primeira vista, parece contraditório.
    Na primeira semana de setembro, o preço médio da gasolina no Brasil recuou 0,3%, para R$ 6,53 por litro, enquanto o petróleo Brent subiu 7,6%, chegando a US$ 92,68. UOL Economia
    Mas não existe contradição.
    O preço que você paga na bomba não é simplesmente o preço internacional do petróleo convertido em reais.
    Entre uma coisa e outra existe uma cadeia inteira.
    O petróleo é apenas uma parte do preço
    Quando você paga R$ 6,53 por um litro de gasolina, esse valor inclui componentes diferentes.
    Existe o custo do produto.
    Tributos.
    Margens.
    Distribuição.
    Logística.
    Mistura obrigatória de biocombustíveis.
    Custos de comercialização.
    Portanto, uma mudança de 10% no petróleo não precisa provocar uma mudança de 10% na gasolina.
    A Petrobras também não repassa tudo imediatamente
    O preço doméstico depende da política comercial da empresa e das condições do mercado.
    Existe também estoque.
    Uma distribuidora pode ter comprado combustível anteriormente a determinado preço.
    O posto possui estoque.
    A refinaria possui estoque.
    A cadeia inteira possui defasagens.
    Por isso, o preço na bomba reage com algum atraso.
    Existe ainda o câmbio
    O petróleo é negociado internacionalmente em dólares.
    O consumidor brasileiro paga em reais.
    Imagine que o petróleo suba 10%, mas o real se valorize 10% frente ao dólar.
    Parte do impacto desaparece quando convertido para reais.
    Agora imagine o contrário.
    Petróleo sobe.
    Real se desvaloriza.
    O efeito pode ser muito maior.
    É por isso que petróleo e gasolina não caminham em linha reta
    Existe uma cadeia de transmissão.
    Podemos pensar assim:
    petróleo internacional → preço em dólar → câmbio → derivados → impostos → margens → preço final.
    Cada etapa altera o resultado.
    O diesel merece atenção especial
    O diesel é ainda mais relevante para a economia porque está diretamente ligado ao transporte de mercadorias.
    Caminhões transportam:
    alimentos,
    combustíveis,
    matérias-primas,
    produtos industriais.
    Se o diesel fica mais caro, o custo logístico aumenta.
    E isso pode aparecer posteriormente em outros preços.
    O governo está tentando conter parte desse impacto
    O governo criou em 2026 mecanismos de subvenção para combustíveis diante do choque provocado pela guerra no Oriente Médio.
    A ANP mantém regulamentação específica para o programa de subvenção ao diesel e ao GLP. Serviços e Informações do Brasil
    A lógica é simples.
    O governo utiliza recursos públicos para reduzir parte do impacto de preços elevados sobre produtores, importadores ou consumidores.
    Mas subsídio não elimina o custo
    Esse ponto precisa ser enfatizado.
    Se o preço internacional aumenta e o governo subsidia o combustível, o custo econômico continua existindo.
    A diferença é que uma parte deixa de aparecer imediatamente na bomba e passa a aparecer no orçamento público.
    É uma transferência.
    Não é desaparecimento do custo.
    Existe uma escolha econômica
    Imagine que o petróleo fique muito caro.
    O governo pode permitir que o preço doméstico suba.
    Isso reduz consumo, mas aumenta a inflação no curto prazo.
    Ou pode subsidiar.
    Isso reduz o impacto imediato sobre consumidores, mas gera custo fiscal.
    Não existe almoço grátis.
    E existe uma questão distributiva
    Quem mais se beneficia de um combustível subsidiado?
    Todos os consumidores.
    Mas quem consome mais combustível recebe maior benefício absoluto.
    Uma pessoa que utiliza pouco o carro recebe menos.
    Uma transportadora que consome milhares de litros recebe muito mais.
    Por isso, subsídios universais podem não ser a forma mais eficiente de proteger famílias de baixa renda.
    A gasolina também possui efeito indireto
    Mesmo quem não possui carro pode ser afetado.
    Produtos precisam ser transportados.
    Supermercados dependem de logística.
    Serviços utilizam veículos.
    Empresas possuem custos de deslocamento.
    Portanto, combustíveis podem afetar inflação de maneira direta e indireta.
    É por isso que o Banco Central acompanha o petróleo
    Choques de petróleo podem elevar inflação.
    Se o choque for temporário, o Banco Central pode avaliar que o efeito desaparecerá.
    Se contaminar expectativas e outros preços, a resposta pode ser diferente.
    É uma questão de segunda rodada.
    O preço do petróleo também depende de geopolítica
    O atual movimento internacional está relacionado às tensões no Oriente Médio e às incertezas sobre abastecimento. UOL Economia
    Isso mostra como uma guerra distante pode chegar ao bolso de um consumidor brasileiro.
    Não porque o Brasil necessariamente compre todo o petróleo utilizado de determinada região.
    Mas porque o petróleo possui um mercado global.
    O preço internacional funciona como referência
    Se uma quantidade grande de petróleo desaparece do mercado mundial, o preço tende a subir.
    Mesmo países que não compravam daquele fornecedor podem pagar mais.
    O mercado é integrado.
    A conclusão
    A gasolina não precisa subir imediatamente quando o petróleo sobe.
    E isso não significa que alguma coisa esteja errada.
    Existe uma cadeia de transmissão entre:
    petróleo,
    câmbio,
    refino,
    tributação,
    estoques,
    margens,
    distribuição.
    Além disso, subsídios podem alterar temporariamente o preço pago pelo consumidor.
    Mas existe uma distinção importante:
    um subsídio pode mudar quem paga a conta. Ele não elimina a conta.
    É exatamente por isso que preços de combustíveis são um excelente exemplo de economia aplicada.
    O preço que aparece na bomba é apenas o último elo de uma cadeia muito maior.

    Fontes: ANP e Ministério do Planejamento.

  • O Brasil tem superávit comercial, mas os números escondem uma mudança importante

    O Brasil acumulou US$ 55,32 bilhões de superávit comercial nos oito primeiros meses de 2026.
    É um número expressivo.
    Mas existe uma informação escondida dentro dele que merece mais atenção.
    Enquanto as exportações brasileiras cresceram 10,3% no período, as vendas para os Estados Unidos caíram 8,6%.
    Ao mesmo tempo, as exportações para a China cresceram 9,5% e para a União Europeia, 2,1%. Balança Comercial
    Isso ajuda a entender uma mudança importante no comércio exterior brasileiro.
    Superávit não significa que tudo esteja bem
    A balança comercial compara exportações e importações de bens.
    Se exportamos mais do que importamos, temos superávit.
    Se importamos mais, temos déficit.
    É um indicador importante.
    Mas ele não conta sozinho a história da economia.
    Um país pode ter um enorme superávit exportando commodities enquanto sua indústria perde participação.
    Pode também apresentar superávit porque importa pouco em um momento de fraqueza econômica.
    Por isso, olhar apenas para o saldo é insuficiente.
    O Brasil exportou US$ 250,9 bilhões
    Entre janeiro e agosto, as exportações chegaram a US$ 250,86 bilhões, crescimento de 10,3%.
    A indústria extrativa foi destaque, com alta de 19,6%.
    A indústria de transformação cresceu 6,6%.
    A agropecuária avançou 9,5%. Balança Comercial
    Há, portanto, crescimento em praticamente todas as grandes categorias.
    Mas a composição importa.
    O problema americano aparece nos detalhes
    No acumulado do ano, o Brasil exportou US$ 27,32 bilhões para os Estados Unidos, 8,6% menos que no mesmo período de 2025.
    As importações brasileiras provenientes dos EUA também caíram, para US$ 30,54 bilhões aproximadamente, deixando um déficit bilateral de US$ 3,21 bilhões. Balança Comercial
    Isso não significa que o Brasil esteja “perdendo dinheiro” com os Estados Unidos.
    Essa interpretação é equivocada.
    Comércio não é uma competição esportiva
    Se o Brasil compra US$ 100 bilhões de um país e vende US$ 80 bilhões, isso não significa automaticamente que o Brasil “perdeu” US$ 20 bilhões.
    As importações representam bens que os brasileiros receberam.
    Podem ser:
    máquinas,
    combustíveis,
    medicamentos,
    tecnologia,
    componentes,
    bens de consumo.
    O déficit bilateral não é, por si só, uma medida de prejuízo.
    Então por que olhar para ele?
    Porque a composição das relações comerciais pode revelar mudanças estruturais.
    Se um parceiro importante reduz compras de produtos brasileiros, as empresas precisam encontrar outros mercados.
    Isso pode ser administrável.
    Mas também pode exigir adaptação.
    A China continua sendo o principal parceiro
    Entre janeiro e agosto, o comércio com a China movimentou US$ 128,63 bilhões.
    Com os Estados Unidos, foram US$ 51,42 bilhões.
    Com a União Europeia, US$ 71,29 bilhões. Balança Comercial
    O Brasil possui, portanto, uma pauta comercial bastante diversificada.
    Isso é uma vantagem.
    Diversificação reduz dependência
    Imagine uma empresa que possui apenas um cliente responsável por 70% das vendas.
    Se esse cliente desaparece, o problema é enorme.
    Agora imagine que nenhum cliente represente mais de 20%.
    A empresa continua exposta a riscos, mas possui mais alternativas.
    Países enfrentam lógica semelhante.
    Diversificar mercados reduz a dependência de um único comprador.
    Mas diversificação não acontece automaticamente
    Vender para outro país exige:
    certificação,
    logística,
    conhecimento do mercado,
    adaptação do produto,
    negociação,
    escala.
    Por isso, substituir rapidamente um mercado perdido pode ser difícil.
    A Índia chama atenção
    O comércio Brasil-Índia cresceu fortemente em 2026.
    Nos primeiros sete meses do ano, a corrente de comércio chegou a US$ 10,1 bilhões, alta de 32,9%.
    As exportações brasileiras para a Índia cresceram 82,1%. Serviços e Informações do Brasil
    Isso mostra que existem mercados alternativos.
    Mas também mostra que diversificação exige trabalho comercial.
    A União Europeia também ganhou espaço
    Em agosto, as exportações brasileiras para a União Europeia cresceram 46,4%, chegando a US$ 5,82 bilhões.
    No mesmo mês, as vendas para os EUA aumentaram 12,1%, apesar da queda acumulada no ano. Balança Comercial
    O comércio exterior não é estático.
    Empresas procuram oportunidades onde elas aparecem.
    O ponto mais importante
    O Brasil não deveria comemorar apenas o tamanho do superávit.
    Deveria observar:
    o que estamos exportando?
    para quem?
    com qual valor agregado?
    quanto da pauta depende de commodities?
    quais mercados estão crescendo?
    Essas perguntas são mais importantes para o desenvolvimento econômico de longo prazo.
    A conclusão
    O Brasil está exportando muito.
    Isso é positivo.
    Mas o dado agregado esconde mudanças relevantes.
    As exportações para os Estados Unidos diminuíram no acumulado do ano, enquanto China, União Europeia e outros mercados ganharam importância.
    Isso não significa que o comércio brasileiro esteja em crise.
    Significa que o mapa comercial está mudando.
    E para um país com uma economia grande e diversificada, essa mudança pode ser tanto um risco quanto uma oportunidade.
    A questão não é simplesmente vender mais.
    É conseguir vender para mais mercados, produtos mais sofisticados e com maior valor agregado.

    Fonte principal: MDIC, dados consolidados da balança comercial de agosto de 2026.