Quando uma guerra destrói uma fábrica, o prejuízo parece fácil de entender.
A máquina desapareceu.
O prédio foi danificado.
O trabalhador precisou abandonar a região.
A produção caiu.
Mas existe uma segunda perda, muito menos visível.
Mesmo as empresas que continuam funcionando podem deixar de operar nos lugares, setores e combinações em que seriam mais produtivas.
A guerra não destrói apenas capital.
Ela pode destruir a alocação eficiente dos recursos.
É exatamente essa dimensão que Marvin Amann, Yuriy Gorodnichenko e Oleksandr Talavera investigam em um novo trabalho do NBER sobre a economia ucraniana durante a invasão russa de 2022.
Utilizando dados abrangentes em nível de firma, os autores encontram uma forte deterioração da produtividade alocativa na Ucrânia. A guerra reduziu a eficiência não apenas porque destruiu fatores produtivos, mas porque tornou mais difícil organizar os fatores sobreviventes de maneira eficiente.
Essa distinção muda a forma como pensamos o custo econômico de conflitos.
Uma economia pode perder eficiência sem perder todos os recursos
Imagine duas empresas.
A primeira é muito produtiva.
A segunda é pouco produtiva.
Em condições normais, capital e trabalhadores tendem, por diversos mecanismos de mercado, a se direcionar relativamente mais para a primeira.
Agora imagine uma guerra.
A empresa mais produtiva está em uma região afetada.
Seus funcionários migram.
Seus fornecedores desaparecem.
Seu acesso a crédito diminui.
Sua logística é interrompida.
A empresa continua existindo.
Mas sua capacidade de transformar recursos em produção diminui.
Ao mesmo tempo, uma empresa menos produtiva em uma região mais segura pode continuar funcionando.
O resultado agregado é uma piora da alocação.
Produtividade não é apenas tecnologia
Essa é uma distinção fundamental.
Podemos pensar na produtividade de uma firma como sua capacidade de transformar insumos em produção.
Mas a produtividade da economia depende também de onde os recursos estão alocados.
Imagine uma economia com duas empresas:
Empresa Produtividade Capital
A alta 100
B baixa 100
Se o mercado consegue direcionar mais capital para A, a produção agregada aumenta.
Se restrições institucionais obrigam capital a permanecer em B, a economia pode produzir menos mesmo sem nenhuma tecnologia ter mudado.
Essa diferença é chamada de eficiência alocativa.
A guerra interfere justamente nesse mecanismo
Uma guerra cria fricções extraordinárias.
Trabalhadores deixam determinadas regiões.
Empresas perdem fornecedores.
Transportes ficam mais caros.
Mercados financeiros funcionam pior.
Informações ficam menos confiáveis.
Empresas precisam priorizar sobrevivência em vez de produtividade.
O empresário pode saber que determinada atividade seria economicamente mais eficiente.
Mas não consegue executá-la.
A diferença entre eficiência privada e eficiência agregada aumenta.
O caso ucraniano é particularmente informativo
Amann, Gorodnichenko e Talavera utilizam dados em nível de firma para observar o que aconteceu durante a invasão em larga escala iniciada em 2022.
A estratégia empírica explora heterogeneidade espacial na intensidade da guerra.
Também compara a experiência de 2022 com episódios anteriores, incluindo a agressão russa de 2014 e a crise financeira global de 2008.
Essa comparação ajuda a separar o efeito específico do conflito de flutuações macroeconômicas mais gerais.
O choque não é uniforme
Uma das razões pelas quais dados regionais são importantes é que guerra não afeta todos os lugares igualmente.
Uma empresa localizada perto de uma frente de combate enfrenta problemas completamente diferentes de outra localizada em uma região distante.
A distância altera:
risco físico;
deslocamento de trabalhadores;
acesso a fornecedores;
infraestrutura;
transporte;
crédito;
expectativa sobre continuidade da operação.
Essa heterogeneidade funciona como uma fonte de identificação.
Não é um experimento aleatório.
Mas permite comparar exposições diferentes ao mesmo choque histórico.
A migração também altera a produtividade
Considere um trabalhador altamente qualificado que deixa sua cidade.
A empresa perde capital humano.
Mas a região para a qual ele migra também recebe um trabalhador.
Portanto, existe uma redistribuição espacial.
Em condições normais, essa mobilidade pode ser eficiente.
Durante uma guerra, entretanto, a migração é forçada por circunstâncias que não correspondem necessariamente às oportunidades produtivas.
O trabalhador pode acabar longe da empresa que mais precisa de suas competências.
Surge então uma fricção de matching.
Capital e trabalho existem.
Mas não estão juntos.
O mesmo acontece com empresas
Uma cadeia produtiva é uma rede.
Se uma empresa desaparece, seus fornecedores e clientes também são afetados.
Uma fábrica pode sobreviver fisicamente e ainda assim perder acesso aos insumos necessários.
Outro fornecedor pode existir, mas em uma região distante.
O custo de transporte aumenta.
O tempo de entrega aumenta.
O estoque necessário aumenta.
A produtividade efetiva diminui.
É por isso que destruir uma empresa pode produzir efeitos maiores do que a produção daquela empresa.
Ela pode funcionar como um nó de uma rede produtiva.
A guerra produz uma espécie de “descasamento” econômico
A economia normalmente resolve milhões de problemas de coordenação sem que alguém centralmente determine todas as combinações.
Empresas encontram fornecedores.
Trabalhadores encontram empregos.
Capital encontra projetos.
Consumidores encontram produtos.
Uma guerra interfere nesses mecanismos simultaneamente.
O problema econômico passa a ser menos “não existem recursos” e mais:
os recursos existentes não conseguem chegar aos lugares onde são mais produtivos.
Essa é uma perda econômica muito profunda.
A política de reconstrução precisa pensar além do capital físico
Existe uma consequência importante.
Quando termina uma guerra, reconstruir prédios e estradas é fundamental.
Mas isso pode não ser suficiente.
Também é necessário reconstruir:
redes de fornecedores, instituições financeiras, mercados de trabalho, mecanismos de mobilidade e capacidade empresarial.
Se essas conexões permanecerem quebradas, uma economia pode possuir infraestrutura física e ainda funcionar abaixo do seu potencial.
Isso vale também para desastres e grandes crises
A contribuição do estudo não se limita a guerras.
Desastres naturais, pandemias, crises financeiras e choques climáticos também podem desorganizar a alocação.
Uma empresa pode sobreviver, mas perder fornecedores.
Um trabalhador pode manter suas habilidades, mas perder o emprego.
Um banco pode continuar solvente, mas reduzir crédito.
O sistema continua funcionando.
Só que pior.
Existe uma lição importante para políticas públicas
Em uma crise, governos frequentemente concentram esforços em preservar ativos.
É compreensível.
Mas preservar capital não significa necessariamente preservar capacidade produtiva.
Às vezes o recurso mais importante é a capacidade de reorganização.
Permitir que empresas mudem rapidamente de fornecedores.
Facilitar mobilidade de trabalhadores.
Restabelecer crédito.
Reabrir corredores logísticos.
Reduzir barreiras burocráticas.
Garantir segurança jurídica.
Tudo isso pode aumentar a velocidade da recuperação sem exigir que o Estado substitua completamente o setor privado.
A reconstrução é uma questão de alocação
Essa talvez seja a maior lição econômica.
Reconstruir uma economia não significa simplesmente retornar ao estoque de capital que existia antes.
É necessário reconstruir o mecanismo que transforma capital, trabalho e conhecimento em produção.
A guerra destrói recursos.
Mas também pode destruir as conexões que permitiam que esses recursos fossem utilizados eficientemente.
Por isso o custo econômico de um conflito é maior do que a soma das fábricas destruídas, das estradas danificadas e das horas de trabalho perdidas.
Existe uma perda invisível.
A economia passa a funcionar pior com os recursos que ainda possui.
Fontes: Marvin Amann, Yuriy Gorodnichenko e Oleksandr Talavera, The Allocative Cost of War: A View to a Kill…ing of Productivity, NBER Working Paper 35704, setembro de 2026.