Uma das dificuldades mais persistentes da economia é medir o retorno de políticas cujo efeito demora décadas para aparecer.
Uma estrada nova pode reduzir imediatamente o custo de transporte.
Uma redução de imposto pode alterar decisões empresariais em poucos meses.
Uma mudança na taxa de juros pode afetar crédito e consumo relativamente rápido.
Educação é diferente.
Quando um governo aumenta os recursos destinados às escolas, o gasto acontece hoje. O trabalhador que recebeu uma educação melhor, porém, pode entrar no mercado de trabalho muitos anos depois.
Isso cria um problema para a avaliação de políticas públicas.
Como saber se o investimento educacional realmente aumenta a produtividade da economia?
Um novo trabalho de C. Kirabo Jackson, publicado pelo NBER em setembro de 2026, oferece uma resposta particularmente interessante. O estudo combina evidência causal em nível individual, um modelo de substituição de coortes e um event study para estimar o efeito de reformas no financiamento escolar sobre renda e produto agregado.
O resultado é expressivo: reformas estaduais de financiamento escolar nos Estados Unidos estão associadas a ganhos de longo prazo de aproximadamente 5% no PIB per capita em relação ao cenário contrafactual, após cerca de três décadas.
A parte mais importante, entretanto, não é o número.
É o tempo necessário para que ele apareça.
O retorno privado não é necessariamente o retorno da economia
Existe uma distinção importante na literatura econômica.
Uma pessoa pode ganhar mais porque recebeu mais educação.
Mas isso não significa automaticamente que a economia inteira ficou mais produtiva.
Imagine que um trabalhador obtenha um diploma e passe a receber salário maior.
Uma possibilidade é que ele realmente esteja produzindo mais.
Outra é que esteja apenas ocupando uma posição que antes era ocupada por outra pessoa.
Nesse segundo caso, existe um ganho privado, mas o efeito agregado pode ser menor.
É o chamado problema de equilíbrio geral.
O que Jackson procura testar
O trabalho parte justamente dessa diferença.
A literatura de economia do trabalho encontra retornos privados relevantes para investimentos educacionais.
Mas uma pergunta permanece:
esses ganhos privados se agregam em maior produção econômica?
Ou parte deles representa apenas redistribuição de posições, sinalização ou mudanças na composição do emprego?
Jackson tenta responder usando reformas de financiamento escolar que ocorreram em diferentes momentos nos estados americanos.
Isso produz uma variação temporal que pode ser explorada econometricamente.
A estratégia combina micro e macroeconomia
Essa é uma das partes metodologicamente mais interessantes do trabalho.
Primeiro, o autor utiliza estimativas causais em nível individual para medir como maior financiamento escolar afeta rendimentos.
Depois, incorpora esses efeitos em um modelo de substituição de coortes.
A lógica é simples.
Uma reforma que melhora a educação de uma criança não altera imediatamente a produtividade média do Estado.
Ela precisa acompanhar essa criança durante o ciclo de vida.
A primeira geração afetada ainda está na escola.
Depois entra no mercado de trabalho.
Gradualmente, uma parcela maior da força de trabalho passou pela reforma.
O efeito agregado cresce.
O gráfico imaginário é quase uma curva em S
Podemos pensar no efeito assim:
$$ Educação \uparrow $$
mas:
$$ PIB_t \approx 0 $$
nos primeiros anos.
Depois:
$$ PIB_t \uparrow $$
à medida que as coortes tratadas entram no mercado de trabalho.
O modelo prevê pouca alteração durante aproximadamente 10 a 15 anos.
Depois os ganhos começam a aparecer.
Aos 30 anos, os rendimentos estaduais por trabalhador ficam aproximadamente 4,7% acima do contrafactual.
Para o PIB per capita, o efeito também cresce e ultrapassa 5% após três décadas.
Isso muda a maneira como avaliamos políticas públicas
Imagine um governo avaliando uma reforma educacional dois anos depois de implementá-la.
Se observar apenas PIB, provavelmente concluirá:
“Não funcionou.”
Mas essa conclusão pode estar errada.
O problema não é a política.
É o horizonte temporal da avaliação.
Uma política que altera capital humano possui uma função de produção com defasagem.
O investimento ocorre hoje.
O trabalhador qualificado aparece amanhã.
O efeito agregado pode surgir apenas depois.
A identificação também é importante
O estudo não simplesmente compara estados que gastam mais com estados que gastam menos.
Isso seria insuficiente.
Estados que aumentam o financiamento escolar podem ser diferentes dos demais em inúmeras dimensões.
Podem possuir governos diferentes.
Economias diferentes.
Populações diferentes.
Trajetórias demográficas diferentes.
A estratégia utiliza a implementação escalonada das reformas entre estados e um event study para observar como os resultados evoluem antes e depois da mudança.
A vantagem é poder verificar se os efeitos aparecem no momento esperado.
O tempo funciona como parte da identificação
Existe uma consequência metodológica interessante.
Se a reforma realmente aumenta capital humano, não esperamos necessariamente um grande efeito imediato.
Esperamos um padrão temporal.
Primeiro, quase nada.
Depois, aumento gradual.
À medida que os estudantes tratados substituem trabalhadores de coortes anteriores, o efeito cresce.
O próprio formato da trajetória fornece informação sobre o mecanismo.
Não é apenas:
$$ Tratamento \rightarrow Resultado $$
É:
$$ Tratamento \rightarrow Capital\ humano \rightarrow Entrada\ no\ mercado \rightarrow Produtividade \rightarrow PIB $$
Essa cadeia causal é muito mais rica.
O resultado desafia uma visão estreita do gasto público
Existe uma tendência de analisar educação apenas como despesa.
Isso produz uma contabilidade incompleta.
Uma escola pública representa um gasto no orçamento hoje.
Mas também pode ser um investimento em capacidade produtiva futura.
A mesma lógica vale para:
saúde infantil;
nutrição;
primeira infância;
infraestrutura urbana;
saneamento;
formação profissional.
O desafio é separar gasto que simplesmente aumenta consumo presente de gasto que altera a capacidade produtiva futura.
Mas nem todo gasto educacional terá o mesmo retorno
Essa ressalva é essencial.
O estudo não autoriza a conclusão:
“quanto mais o governo gastar em educação, maior será o PIB.”
Isso seria extrapolação.
A qualidade da aplicação importa.
Uma expansão de recursos pode financiar melhores professores.
Pode reduzir tamanho das turmas.
Pode ampliar tempo de instrução.
Pode melhorar infraestrutura.
Pode financiar programas específicos.
Também pode ser mal alocada.
O efeito depende do mecanismo.
Existe ainda um problema de escala
Uma política pode funcionar em determinada população e produzir efeito diferente em outra.
Instituições importam.
Mercado de trabalho importa.
Qualidade escolar inicial importa.
Estrutura produtiva importa.
Por isso, evidência causal de um estado americano não pode simplesmente ser transplantada para o Brasil.
Mas o mecanismo econômico é altamente relevante.
O Brasil deveria pensar em décadas
Essa talvez seja a principal lição para políticas públicas brasileiras.
O debate fiscal costuma privilegiar medidas cujo efeito pode ser contabilizado dentro do mandato.
Educação é quase o oposto.
O custo é imediato.
O retorno é lento.
O benefício político pode aparecer muito depois.
Isso cria um problema de incentivos.
Governos eleitos hoje pagam pela política.
Governos futuros podem colher seus resultados.
Existe, portanto, uma espécie de miopia institucional.
A avaliação precisa acompanhar o ciclo de vida
Para políticas de capital humano, avaliações de curto prazo são insuficientes.
Precisamos acompanhar:
escolaridade → habilidades → emprego → salário → produtividade → arrecadação → crescimento.
É uma cadeia longa.
E isso exige bases administrativas capazes de acompanhar indivíduos ao longo do tempo.
A economia moderna da avaliação de políticas públicas está justamente avançando nessa direção.
O retorno não está apenas no salário
Existe ainda uma questão que o PIB não captura completamente.
Educação pode produzir benefícios sociais que não aparecem diretamente na renda.
Saúde.
Participação cívica.
Crime.
Fertilidade.
Mobilidade social.
Qualidade institucional.
Se o estudo encontra efeitos positivos sobre produto agregado apenas por meio dos rendimentos, o benefício total da política pode ser ainda maior.
O que essa pesquisa ensina sobre investimento público
Existe uma maneira ruim de discutir gasto público:
“É gasto ou é investimento?”
A pergunta é mais difícil.
O correto é perguntar:
qual mecanismo transforma o recurso público em capacidade produtiva futura?
Se o mecanismo é plausível e a evidência causal é consistente, o gasto pode ter retorno econômico elevado.
Se não existe mecanismo verificável, o rótulo “investimento” não significa nada.
A nova evidência sobre financiamento escolar é interessante justamente porque conecta as duas pontas.
Uma intervenção observada em nível micro.
Uma trajetória temporal.
E, finalmente, um efeito macroeconômico.
É uma boa demonstração de que microeconomia e macroeconomia não são mundos separados.
Às vezes, o crescimento de um país começa em uma sala de aula.
E pode levar trinta anos para aparecer nas estatísticas.
Fontes: C. Kirabo Jackson, The Macroeconomic Returns to School Finance Reforms: Micro-Calibrated Predictions Meet Causal Evidence, NBER Working Paper 35755, setembro de 2026.