A desigualdade salarial costuma ser explicada de maneira intuitiva.
Algumas pessoas estudaram mais.
Algumas possuem mais experiência.
Algumas trabalham em profissões mais produtivas.
Mas existe um fenômeno mais difícil de explicar:
por que trabalhadores com características aparentemente semelhantes podem receber salários muito diferentes mesmo dentro da mesma profissão?
Um novo trabalho de Chris Edmond e Simon Mongey oferece uma resposta interessante.
Publicado pelo NBER em setembro de 2026, Unbundling Labor desenvolve um modelo de equilíbrio geral no qual trabalhadores não oferecem uma única habilidade ao mercado. Eles oferecem combinações de habilidades, e o valor de cada competência depende da ocupação em que ela é utilizada.
O resultado ajuda a entender uma característica importante do mercado de trabalho moderno: a tecnologia pode aumentar o valor de determinadas habilidades e, ao mesmo tempo, reduzir o valor de outras, mesmo sem alterar a composição dos trabalhadores.
O problema de pensar que cada trabalhador possui “uma produtividade”
Imagine dois profissionais igualmente bons em matemática.
Um trabalha como contador.
Outro como engenheiro.
A habilidade matemática não possui necessariamente o mesmo valor econômico nas duas ocupações.
Isso parece óbvio quando pensamos em profissões diferentes.
Mas possui uma consequência teórica importante:
o preço de uma habilidade depende de onde ela é utilizada.
Habilidades não são vendidas isoladamente
Um trabalhador não chega ao mercado oferecendo:
$$ 1\ unidade\ de\ matemática $$
ou:
$$ 1\ unidade\ de\ comunicação $$
Ele oferece um pacote.
Por exemplo:
$$ Habilidade = \{matemática,\ comunicação,\ programação,\ julgamento\} $$
O empregador compra esse conjunto.
O salário resulta do valor econômico da combinação.
É isso que os autores chamam de bundling, ou agrupamento de habilidades.
O que acontece quando uma tecnologia aumenta a produtividade cognitiva?
Suponha que uma nova tecnologia aumente a produtividade de habilidades cognitivas.
Seria natural imaginar:
$$ produtividade\ cognitiva \uparrow \Rightarrow salários\ cognitivos \uparrow $$
Mas o modelo mostra que a história pode ser mais complexa.
O efeito depende da ocupação.
Em profissões intensivas em habilidades cognitivas, o aumento da produtividade de uma competência pode elevar a dispersão salarial dentro da própria ocupação.
Ao mesmo tempo, profissões mais intensivas em trabalho manual podem experimentar dinâmica diferente.
A tecnologia não altera apenas quem trabalha
Ela altera o preço das habilidades.
Esse ponto é importante.
Imagine que uma tecnologia torne programação básica muito mais produtiva.
A empresa pode precisar de menos horas para executar determinada tarefa.
Mas isso não significa necessariamente que todos os programadores serão prejudicados.
Se a tecnologia complementar programadores capazes de resolver problemas complexos, o valor dessas competências pode aumentar.
A mesma tecnologia pode:
substituir uma habilidade;
e
complementar outra.
O estudo usa um modelo de equilíbrio geral
Essa é uma das partes mais interessantes metodologicamente.
Os autores não analisam apenas a relação entre salário e escolaridade.
Eles constroem um modelo no qual trabalhadores possuem múltiplas habilidades e escolhem ocupações.
A oferta de trabalho e os preços das habilidades interagem.
Isso permite estudar o que acontece quando a produtividade de determinada competência muda.
E então o resultado aparece nos dados
Os autores aplicam o modelo a dados americanos e encontram que diferenças nos preços das habilidades, e não apenas diferenças na composição dos trabalhadores, explicam por que a desigualdade salarial dentro das ocupações é maior em profissões intensivas em conhecimento.
Segundo as estimativas, essa variação nos preços das habilidades explica aproximadamente um terço do aumento da desigualdade salarial dentro das ocupações entre 1980 e 2010.
É um resultado importante porque muda a pergunta.
Não basta perguntar:
quem são os trabalhadores?
Precisamos perguntar:
quanto o mercado está pagando por cada combinação de habilidades?
A ocupação funciona como um mercado específico
Considere um economista.
Ele pode possuir:
capacidade quantitativa;
escrita;
programação;
conhecimento institucional;
comunicação.
Se o mercado valoriza muito análise quantitativa, essa competência aumenta seu salário.
Se ferramentas automatizadas tornam programação básica abundante, o valor relativo dessa habilidade pode cair.
Mas se a mesma tecnologia aumenta a demanda por profissionais capazes de interpretar modelos, o valor da combinação pode subir.
O salário não é simplesmente uma função da pessoa.
É uma função da pessoa dentro de uma estrutura produtiva.
Isso ajuda a explicar a desigualdade entre profissionais igualmente educados
Duas pessoas podem possuir o mesmo diploma.
Mas utilizar suas habilidades em mercados diferentes.
Uma trabalha em uma ocupação em que sua combinação de competências é escassa.
Outra trabalha em uma ocupação em que a mesma combinação é abundante.
A diferença salarial pode ser grande.
Não porque uma pessoa seja necessariamente mais produtiva em termos absolutos.
Mas porque suas habilidades possuem preços diferentes.
A tecnologia pode aumentar desigualdade sem aumentar diferenças de capacidade
Esse ponto merece atenção.
Imagine uma tecnologia que aumenta a produtividade de uma determinada competência.
Os trabalhadores que possuem essa competência podem se tornar mais valiosos.
A desigualdade cresce.
Mas ninguém ficou necessariamente “melhor” em termos individuais.
Mudou o preço relativo da habilidade.
Isso é uma explicação econômica poderosa para mudanças na distribuição salarial.
O mercado de trabalho é uma rede de complementaridades
Uma habilidade raramente possui valor isoladamente.
Um trabalhador que domina econometria pode ser muito mais produtivo quando também entende programação.
Um médico pode se tornar mais produtivo com ferramentas de diagnóstico.
Um advogado pode se beneficiar de sistemas de busca jurídica.
Um gestor pode se tornar mais eficaz com análise de dados.
A produtividade surge da combinação.
Isso significa que políticas de formação profissional que olham apenas para profissões podem ficar atrasadas.
Talvez seja mais importante pensar em portfólios de competências.
Isso também muda a discussão sobre IA
Existe uma conexão direta com a transformação tecnológica atual.
Quando IA reduz o custo de determinadas tarefas cognitivas, o preço relativo das competências pode mudar.
A pergunta não deveria ser simplesmente:
“A IA vai substituir essa profissão?”
A pergunta economicamente mais precisa é:
“Quais habilidades dentro dessa profissão serão substituídas, complementadas ou valorizadas?”
Um contador não é uma habilidade.
Um economista não é uma habilidade.
Um médico não é uma habilidade.
São combinações.
O trabalhador pode reagir
Quando os preços das habilidades mudam, trabalhadores podem investir em novas competências.
Isso é capital humano.
Mas o ajuste não é instantâneo.
Uma pessoa pode precisar de anos para adquirir determinada competência.
Isso gera custos de transição.
Quanto mais rápida for a mudança tecnológica, maior pode ser o descompasso entre:
$$ mudança\ na\ demanda $$
e
$$ mudança\ na\ oferta\ de\ habilidades. $$
É aí que surge um problema de política pública
Se a tecnologia muda rapidamente os preços relativos das habilidades, políticas educacionais precisam ser capazes de acompanhar.
Não significa que o Estado deva tentar prever exatamente quais profissões existirão daqui a vinte anos.
Essa previsão provavelmente seria ruim.
É mais útil formar competências que possam ser combinadas em diferentes ocupações.
Raciocínio quantitativo.
Comunicação.
Capacidade analítica.
Aprendizado.
Programação.
Conhecimento institucional.
Essas competências podem ser recombinadas.
A grande lição
A desigualdade salarial não depende apenas de quem possui mais educação.
Depende também de quais habilidades o mercado valoriza e de como essas habilidades são combinadas nas ocupações.
Essa perspectiva ajuda a explicar por que mudanças tecnológicas podem produzir efeitos distributivos muito diferentes entre trabalhadores que, à primeira vista, parecem semelhantes.
O mercado não paga apenas pelo que você sabe.
Paga pelo valor daquela combinação de conhecimentos no lugar específico onde ela é utilizada.
E quando a tecnologia muda, o preço dessa combinação também muda.
Fontes: Chris Edmond e Simon Mongey, Unbundling Labor, NBER Working Paper 35783, setembro de 2026.