A Conab projeta uma nova safra recorde para o Brasil.
A produção de grãos na temporada 2026/27 pode chegar a 366,6 milhões de toneladas, alta de 1,4% sobre a temporada anterior. A área plantada deve alcançar 85,3 milhões de hectares.
O número impressiona.
Mas existe uma conclusão que não devemos tirar dele:
produção agrícola maior não significa automaticamente alimentos mais baratos para o consumidor brasileiro.
Essa diferença é uma das melhores maneiras de entender como funcionam preços agrícolas.
Produzir mais é apenas o primeiro passo
O preço de um alimento depende da interação entre oferta e demanda.
Em uma simplificação:
$$ P=f(Q_d,Q_s) $$
Se a oferta aumenta e todo o resto permanece constante, o preço tende a cair.
Mas o “todo o resto” é enorme.
Inclui:
demanda doméstica;
exportações;
câmbio;
custos de transporte;
preços internacionais;
estoques;
clima;
processamento;
impostos;
margens;
estrutura de mercado.
Por isso, uma safra recorde pode coexistir com preços elevados em determinadas cadeias.
O Brasil não produz apenas para brasileiros
Esse é talvez o ponto mais importante.
O Brasil é uma potência exportadora.
Quando o produtor pode vender sua soja, milho ou carne no exterior, o preço doméstico passa a estar relacionado às condições internacionais.
Se a demanda externa está forte, parte da produção adicional pode simplesmente ser absorvida pelo mercado internacional.
O aumento da produção não precisa gerar uma queda proporcional no preço interno.
O câmbio também importa
Imagine que a soja internacional custe US$ 400 por tonelada.
Com dólar a R$ 5:
$$ R\$2.000 $$
Com dólar a R$ 6:
$$ R\$2.400 $$
Mesmo que o preço internacional não mude, a receita em reais aumenta.
Isso altera incentivos de exportação.
O produtor compara preços.
Se exportar é mais rentável, a oferta disponível internamente pode ser menor do que seria em um mercado completamente fechado.
A produção de milho ilustra bem a expansão
Segundo a Conab, a área de milho da primeira safra deve crescer 10,7%, para 4,54 milhões de hectares.
A produção da primeira safra pode alcançar 32,1 milhões de toneladas.
Somadas as três safras, a produção de milho pode chegar a aproximadamente 148 milhões de toneladas em 2026/27.
Isso representa uma mudança relevante na capacidade produtiva.
Mas o efeito sobre preços dependerá de quanto dessa produção adicional será absorvida por:
ração animal, indústria, exportação, estoques e consumo doméstico.
Produção não é estoque
Outro ponto frequentemente esquecido.
Uma safra é um fluxo.
O preço em determinado momento depende também do estoque disponível.
Se uma safra excepcionalmente grande acontece depois de estoques baixos, o impacto pode ser significativo.
Se os estoques já forem elevados, a produção adicional pode ter efeito menor.
Por isso, analistas agrícolas acompanham tanto produção quanto estoques.
O clima continua sendo a variável invisível
A projeção da Conab é uma estimativa.
A própria companhia destaca que o potencial produtivo dependerá das condições climáticas durante o desenvolvimento das lavouras.
Isso é particularmente importante em uma agricultura de grande escala.
Uma projeção de área plantada não é uma colheita.
Entre uma coisa e outra existem:
seca;
excesso de chuva;
temperatura;
pragas;
doenças;
janela de plantio;
logística.
A produção efetiva só aparece no final do ciclo.
Mais área não significa necessariamente mais produtividade
A Conab projeta aumento da área, mas ligeira redução da produtividade média nacional:
de 4.335 para 4.296 quilos por hectare.
Isso é economicamente interessante.
O crescimento da produção está vindo principalmente da expansão da área, e não de um salto de produtividade.
Isso levanta uma questão de longo prazo.
Até quando o Brasil consegue expandir a produção apenas colocando mais terra em produção?
O crescimento sustentável depende da produtividade
Existe uma diferença fundamental entre:
$$ Produção \uparrow $$
e
$$ Produtividade \uparrow $$
A primeira pode ocorrer porque utilizamos mais fatores.
A segunda significa produzir mais com os mesmos fatores.
No longo prazo, produtividade é o motor mais importante do crescimento.
Na agricultura, isso significa sementes melhores, manejo, tecnologia, irrigação, mecanização, logística e conhecimento.
E existe uma questão ambiental
Expandir área agrícola não é economicamente equivalente a aumentar produtividade.
Se uma tonelada adicional é produzida porque a produtividade aumentou, o custo de recursos por unidade produzida pode cair.
Se é produzida porque uma área adicional foi incorporada, os custos ambientais podem ser diferentes.
Isso não significa que expansão de área seja necessariamente ruim.
Significa que a composição do crescimento importa.
A infraestrutura pode virar gargalo
Produzir mais não basta.
É preciso transportar.
Armazenar.
Processar.
Exportar.
O Brasil possui grandes distâncias entre áreas produtoras e portos.
Uma safra recorde pode aumentar pressão sobre ferrovias, rodovias, portos e armazenagem.
Se a infraestrutura não acompanhar, parte do ganho de produção pode ser capturada por custos logísticos maiores.
O produtor também não controla o preço
Essa é uma característica interessante do mercado agrícola.
Muitos produtores são pequenos em relação ao mercado internacional.
Individualmente, têm pouca capacidade de determinar preços.
São, em grande medida, price takers.
Por isso, aumento de produtividade não significa automaticamente aumento proporcional da renda do produtor.
Se todos aumentarem produção simultaneamente, o preço pode cair.
O produtor pode produzir mais e ainda assim receber menos por unidade.
O consumidor está em outro ponto da cadeia
Mesmo quando o preço agrícola cai, o preço no supermercado pode não cair na mesma proporção.
Entre produtor e consumidor existem:
transporte;
armazenagem;
processamento;
atacado;
varejo;
impostos;
custos trabalhistas;
energia;
aluguel;
margens.
Se o grão representa apenas uma parte do preço final, uma queda de 10% na commodity não produz necessariamente queda de 10% no produto industrializado.
Isso é um problema clássico de transmissão de preços.
O recorde da Conab é importante por outro motivo
O número de 366,6 milhões de toneladas mostra algo estrutural.
O Brasil continua aumentando sua capacidade de produção agrícola mesmo diante de desafios de produtividade, clima e infraestrutura.
Isso fortalece a posição do país no comércio internacional.
Mas também aumenta a dependência da economia brasileira das condições globais.
Quanto maior a participação nas exportações, maior a importância de:
China, câmbio, preços internacionais, fretes e política comercial.
A pergunta correta não é “quanto o Brasil vai produzir?”
É:
quanto dessa produção será transformado em renda, produtividade e bem-estar?
Uma safra recorde é um excelente ponto de partida.
Mas o resultado econômico depende do que acontece depois da colheita.
Se a infraestrutura funcionar, produtores tiverem acesso a mercados, produtividade continuar avançando e os ganhos forem transmitidos ao restante da economia, a produção maior pode gerar efeitos amplos.
Se gargalos logísticos, baixa produtividade e concentração de renda impedirem essa transmissão, o recorde poderá aparecer apenas como um número impressionante nas estatísticas.
A agricultura ensina uma lição econômica importante:
produzir mais é necessário. Transformar produção em valor é outra questão.
Fontes: Companhia Nacional de Abastecimento, Perspectivas para a Agropecuária 2026/27, setembro de 2026.