Há alguns dias, a principal preocupação do mercado de petróleo era uma só:
o Estreito de Hormuz.
Agora existe outra.
O Bab el-Mandeb, passagem estratégica entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden, voltou ao centro da crise depois que forças Houthis avançaram sobre áreas estratégicas do Iêmen. Reuters
Isso muda a natureza do problema.
O mercado passa a lidar com mais de um gargalo logístico simultaneamente.
Por que Hormuz é tão importante?
O Estreito de Hormuz conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico.
Uma parcela enorme do comércio mundial de petróleo e gás passa por ali.
Nos últimos dias, o número de embarcações atravessando a região caiu para níveis excepcionalmente baixos.
Em 10 de setembro, apenas sete embarcações foram registradas atravessando o estreito, contra uma média pré-guerra de cerca de 125 por dia. Reuters
Agora existe o Bab el-Mandeb
O Bab el-Mandeb conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden.
É uma das principais rotas marítimas entre:
Ásia,
Oriente Médio,
Europa.
Se essa passagem também ficar comprometida, navios precisam procurar rotas alternativas.
Desviar navios custa caro
Um navio que evita uma passagem estratégica pode precisar contornar grandes distâncias.
Isso significa:
mais combustível,
mais tempo,
mais seguro,
mais tripulação,
menos disponibilidade de navios.
O custo logístico aumenta.
E o seguro de guerra já disparou
Operadores do setor relatam forte aumento dos prêmios de risco.
Em alguns casos, seguros relacionados ao transporte de petróleo chegaram a representar vários pontos percentuais do valor da carga. Reuters
Portanto, mesmo quando o petróleo chega fisicamente ao destino, ele pode chegar mais caro.
O mercado está precificando risco de oferta
O Brent chegou a aproximadamente US$ 109,97 nesta semana antes de recuar. Reuters
Na sexta-feira, recuou para cerca de US$ 105,90 em determinado momento, mas ainda acumulava alta semanal de aproximadamente 10%. Reuters
O preço está volátil.
Mas o problema estrutural continua.
A IEA fez uma revisão importante
A Agência Internacional de Energia agora estima que a oferta global de petróleo em 2026 cairá 5,7 milhões de barris por dia, ou cerca de 6%.
A previsão anterior apontava uma queda menor.
Isso mostra que a crise já está afetando a avaliação da oferta global. Reuters
Os estoques estão sendo consumidos
Os estoques globais caíram aproximadamente 3,1 milhões de barris por dia em agosto, segundo a IEA.
Isso é importante porque estoques funcionam como amortecedores.
Quando a produção cai, os estoques podem cobrir temporariamente a diferença.
Mas eles não são infinitos.
E o diesel está ainda mais pressionado
O problema não termina no petróleo bruto.
Refinarias também estão enfrentando restrições.
A IEA informou que os preços de combustíveis refinados, especialmente diesel, chegaram a níveis recordes em alguns mercados. Reuters
Isso é particularmente relevante porque diesel possui grande peso no transporte de mercadorias.
A crise pode atingir a economia real
Imagine uma cadeia simples:
petróleo mais caro
→ diesel mais caro
→ frete mais caro
→ custo industrial maior
→ preços maiores.
Esse processo pode atingir inflação mesmo quando o petróleo representa uma parcela pequena do custo final de determinados produtos.
Existe também um efeito sobre juros
Mercados de títulos já reagiram.
Nos Estados Unidos, o Treasury de dez anos chegou perto de 5%, enquanto investidores passaram a considerar uma política monetária mais restritiva diante do risco inflacionário. Reuters
Isso é um mecanismo importante.
Energia mais cara pode elevar inflação.
Inflação maior pode exigir juros mais altos.
Juros maiores reduzem o valor de ativos de risco.
O choque geopolítico chega ao mercado financeiro.
O problema pode se tornar global
A Índia já viu suas bolsas recuarem diante do petróleo acima de US$ 108 e das preocupações com inflação e juros. Reuters
Países importadores de energia tendem a sofrer mais.
Exportadores podem receber receitas maiores.
Mais uma vez, a distribuição do choque não é uniforme.
E o Brasil?
O Brasil possui uma proteção importante:
é grande produtor de petróleo.
Isso reduz parte da vulnerabilidade externa.
Mas não elimina:
combustíveis mais caros,
custos de transporte,
pressões inflacionárias,
efeitos sobre expectativas.
Além disso, empresas brasileiras importam derivados.
A conclusão
A novidade desta sexta-feira não é simplesmente que o petróleo subiu.
É que o risco logístico está se espalhando por diferentes rotas estratégicas.
Hormuz continua comprometido.
Bab el-Mandeb está sob nova pressão.
Estoques estão diminuindo.
O sistema de refino está pressionado.
E a IEA já revisou para baixo a oferta global.
Por isso, a pergunta agora não é apenas:
“o petróleo vai passar de US$ 100?”
Ele já passou.
A pergunta relevante é:
“por quanto tempo o sistema global de energia consegue absorver uma interrupção dessa magnitude sem produzir uma crise inflacionária mais ampla?”
Essa será uma das principais perguntas econômicas das próximas semanas.
Fontes: IEA e Reuters para dados recentes de oferta, estoques e preços.