Eco Invest Brasil: como R$ 1 público pode tentar atrair vários reais privados

Imagine que exista um projeto capaz de gerar retorno. Uma usina. Uma startup. Uma indústria. Um projeto de bioeconomia. O problema é que ninguém quer ser o primeiro a colocar dinheiro. O risco parece alto demais. É justamente nesse ponto que aparece uma ideia importante das finanças: capital público pode ser usado para reduzir determinados…

Resumo

Imagine que exista um projeto capaz de gerar retorno. Uma usina. Uma startup. Uma indústria. Um projeto de bioeconomia. O problema é que ninguém quer ser o primeiro a colocar dinheiro. O risco parece alto demais. É justamente nesse ponto que aparece uma ideia importante das finanças: capital público pode ser usado para reduzir determinados…

Imagine que exista um projeto capaz de gerar retorno.
Uma usina.
Uma startup.
Uma indústria.
Um projeto de bioeconomia.
O problema é que ninguém quer ser o primeiro a colocar dinheiro.
O risco parece alto demais.
É justamente nesse ponto que aparece uma ideia importante das finanças:
capital público pode ser usado para reduzir determinados riscos e tornar investimentos privados viáveis.
Essa é uma das lógicas por trás do Eco Invest Brasil.
O programa já movimentou bilhões
Segundo o Ministério da Fazenda, o quarto leilão do Eco Invest Brasil destravou R$ 13,2 bilhões para projetos de bioeconomia, turismo sustentável e infraestrutura, com cerca de R$ 9 bilhões direcionados à Amazônia Legal. Serviços e Informações do Brasil
Em janeiro, o terceiro leilão havia homologado R$ 15 bilhões em capital catalítico público, com potencial estimado de viabilizar cerca de R$ 53 bilhões em investimentos em equity. Serviços e Informações do Brasil
Esses números são grandes.
Mas existe uma pergunta mais importante:
como esse dinheiro consegue multiplicar capital privado?
O conceito é o blended finance
Em português, costuma-se falar em financiamento combinado.
A ideia é juntar diferentes fontes de capital com diferentes níveis de risco.
O dinheiro público pode aceitar determinada exposição ao risco para que o dinheiro privado aceite entrar.
Não significa necessariamente que o governo esteja pagando todo o investimento.
Significa que ele pode assumir uma parte do risco que impede a operação de acontecer.
Pense em uma ponte
Imagine um projeto que exige R$ 100 milhões.
Investidores privados calculam que existe uma chance relevante de perda.
Eles não entram.
Agora imagine que o governo aceite absorver parte da primeira perda ou ofereça proteção cambial.
O risco esperado para o investidor diminui.
O projeto pode se tornar atraente.
O governo não precisou colocar os R$ 100 milhões.
Colocou um instrumento capaz de destravar os outros R$ 100 milhões.
Esse é o efeito de alavancagem
A palavra pode assustar.
Mas a ideia é simples.
Se R$ 1 de capital público consegue mobilizar R$ 4 de capital privado, dizemos que houve uma alavancagem de 4 vezes sobre o recurso público.
No terceiro leilão, o governo informou que R$ 15 bilhões de capital catalítico poderiam viabilizar aproximadamente R$ 53 bilhões em investimentos em equity. Serviços e Informações do Brasil
É uma relação aproximada de 3,5 para 1.
Mas multiplicar dinheiro não significa criar dinheiro
Esse cuidado é essencial.
O governo não transforma R$ 15 bilhões em R$ 53 bilhões por mágica.
Ele utiliza os R$ 15 bilhões para alterar a estrutura de risco da operação.
O restante vem de investidores.
A função econômica é reduzir uma barreira.
Por que o setor privado não investe sozinho?
Porque existem riscos que não são facilmente precificados.
Imagine uma empresa que queira construir uma infraestrutura nova.
Ela pode enfrentar:
risco cambial,
risco regulatório,
risco tecnológico,
risco de demanda,
risco ambiental,
risco de crédito.
Se o risco for muito alto, o retorno esperado precisa ser enorme para compensá-lo.
Alguns projetos socialmente interessantes podem então não sair do papel.
O Estado pode entrar justamente aí
O Estado possui capacidade de assumir determinados riscos de forma diferente do investidor privado.
Pode criar garantias.
Pode oferecer hedge cambial.
Pode financiar parte do projeto.
Pode compartilhar perdas.
Pode criar regras de longo prazo.
A questão é utilizar essas ferramentas apenas onde elas corrigem uma falha ou restrição relevante.
O hedge cambial é um bom exemplo
Imagine um investidor estrangeiro colocando US$ 100 milhões no Brasil.
O projeto pode ser ótimo.
Mas existe uma preocupação:
quanto valerá o real quando o investimento gerar retorno?
Uma desvalorização cambial pode reduzir o retorno em dólares.
O Eco Invest incorporou mecanismos de proteção cambial justamente para reduzir esse tipo de risco. Serviços e Informações do Brasil
O câmbio pode impedir bons projetos
Suponha que um projeto renda 10% em reais.
Parece excelente.
Mas se a moeda brasileira perder 15% de valor frente ao dólar, o investidor estrangeiro pode terminar com retorno negativo em sua própria moeda.
O projeto não necessariamente ficou pior.
O risco cambial apenas mudou a atratividade para aquele investidor.
Esse tipo de mecanismo pode aumentar o investimento
O terceiro leilão do Eco Invest foi desenhado para atrair capital privado e externo para empresas inovadoras e projetos relacionados à transformação ecológica. Serviços e Informações do Brasil
Entre os setores indicados estavam:
combustível sustentável de aviação,
baterias,
veículos elétricos,
tecnologias verdes.
Isso conecta finanças a política industrial.
Mas existe um risco do lado público
Aqui está a parte que normalmente desaparece da propaganda de programas de investimento.
Se o governo assume risco, alguém precisa pagar quando o risco se materializa.
Pode ser o Tesouro.
Pode ser um fundo.
Pode ser uma instituição pública.
Mas o risco não desaparece.
Ele muda de mãos.
O objetivo não deve ser eliminar risco
Se o Estado eliminar todo o risco do investidor, o desenho pode ficar ruim.
O investidor fica com o ganho.
O contribuinte fica com a perda.
Isso gera um problema clássico de risco moral.
Por isso, mecanismos de blended finance precisam dividir riscos de forma adequada.
O sucesso precisa ser medido pelo adicional
Imagine que um projeto receberia R$ 1 bilhão de investimento privado mesmo sem o Eco Invest.
Nesse caso, o programa não necessariamente criou R$ 1 bilhão de investimento adicional.
Talvez apenas tenha reduzido o custo para quem já investiria.
Isso é diferente de um projeto que só se torna viável graças ao instrumento.
É a lógica do contrafactual
A pergunta correta é:
quanto investimento teria acontecido sem o programa?
Se a resposta for R$ 50 bilhões e com o programa aconteceram R$ 55 bilhões, o efeito adicional pode ser de apenas R$ 5 bilhões.
Se sem o programa aconteceriam R$ 10 bilhões e com ele foram R$ 50 bilhões, a história é completamente diferente.
Essa distinção é fundamental para avaliar políticas públicas.
O programa também enfrenta um problema de acesso
Uma reportagem publicada hoje aponta dificuldades de pequenos produtores para acessar recursos do Eco Invest, apesar do volume elevado mobilizado pelo programa.
Entre os obstáculos estão garantias, custos de comprovação ambiental e complexidade dos requisitos. UOL Economia
Esse é um problema interessante.
Um instrumento financeiro sofisticado pode funcionar muito bem para empresas grandes e ainda assim não alcançar quem possui menos estrutura.
Financiamento também é infraestrutura
Essa é uma ideia que merece atenção.
Quando falamos de infraestrutura, pensamos em:
estradas,
portos,
energia,
internet.
Mas existe outra infraestrutura invisível:
a infraestrutura financeira.
Sem mecanismos adequados de financiamento, projetos economicamente viáveis podem não acontecer.
O Eco Invest é uma experiência interessante justamente por isso
O programa tenta combinar:
capital público,
mercado de capitais,
bancos,
investidores privados,
capital estrangeiro.
Não é simplesmente um programa de crédito subsidiado.
A ambição é construir estruturas capazes de mobilizar diferentes fontes de capital.
O resultado ainda precisa ser julgado
Os números de mobilização são impressionantes.
Mas mobilização não é a mesma coisa que impacto.
Precisamos acompanhar:
investimento efetivamente realizado,
produtividade,
empregos,
exportações,
emissões evitadas,
inovação,
retorno financeiro,
inadimplência,
perdas para o setor público.
É isso que permitirá saber se o mecanismo realmente funcionou.
A conclusão
O Eco Invest Brasil traz uma ideia financeira sofisticada para uma linguagem relativamente simples.
Às vezes, o problema de um investimento não é falta de dinheiro.
É falta de disposição para assumir determinado risco.
O Estado pode tentar resolver isso utilizando capital público como catalisador.
Mas existe uma linha delicada.
Se o governo assumir o risco certo, pode destravar investimentos que jamais aconteceriam.
Se assumir riscos que o setor privado poderia suportar sozinho, pode apenas transferir dinheiro público para investidores.
Por isso, o sucesso do Eco Invest não deveria ser medido apenas pelo tamanho dos números anunciados.
A pergunta mais importante é outra:
quantos reais de investimento privado adicional surgiram porque o Estado reduziu um risco que o mercado, sozinho, não conseguia absorver?
Essa é a diferença entre simplesmente gastar dinheiro público e usar dinheiro público para mobilizar capital privado.

Fontes
– Ministério da Fazenda, resultados do terceiro leilão do Eco Invest Brasil. Serviços e Informações do Brasil
– Tesouro Nacional, resultados do quarto leilão do Eco Invest Brasil. Serviços e Informações do Brasil
– Tesouro Nacional, regulamentação e estrutura dos leilões do Eco Invest Brasil. Serviços e Informações do Brasil
– Reportagem sobre acesso de pequenos produtores ao programa. UOL Economia