Richard Cantillon: o economista que enxergou o empreendedor antes de quase todo mundo

Imagine alguém que decide comprar 100 sacas de trigo. Ele sabe quanto vai pagar. Sabe quanto custa transportar. Sabe quanto terá de gastar para armazenar. Mas não sabe por quanto conseguirá vender. O preço futuro depende da colheita. Da demanda. Do clima. Dos concorrentes. Da renda das pessoas. De acontecimentos que ainda não aconteceram. Essa…

Resumo

Imagine alguém que decide comprar 100 sacas de trigo. Ele sabe quanto vai pagar. Sabe quanto custa transportar. Sabe quanto terá de gastar para armazenar. Mas não sabe por quanto conseguirá vender. O preço futuro depende da colheita. Da demanda. Do clima. Dos concorrentes. Da renda das pessoas. De acontecimentos que ainda não aconteceram. Essa…

Imagine alguém que decide comprar 100 sacas de trigo.
Ele sabe quanto vai pagar.
Sabe quanto custa transportar.
Sabe quanto terá de gastar para armazenar.
Mas não sabe por quanto conseguirá vender.
O preço futuro depende da colheita.
Da demanda.
Do clima.
Dos concorrentes.
Da renda das pessoas.
De acontecimentos que ainda não aconteceram.
Essa pessoa está assumindo um risco.
Mas Cantillon enxergou algo além.
Ela está desempenhando uma função econômica específica.
Está assumindo a incerteza do mercado.
O economista por trás da ideia
Richard Cantillon foi um banqueiro e financista de origem irlandesa que viveu entre aproximadamente 1680 e 1734.
Sua principal obra, Essai sur la nature du commerce en général, foi publicada postumamente em 1755. O texto foi escrito décadas antes e acabou se tornando uma das obras fundadoras da economia política. INED
Cantillon viveu em uma época de grandes especulações financeiras.
E isso importa.
Ele não observava o mercado apenas de uma biblioteca.
Ele havia participado dele.
O empreendedor compra a um preço e vende a outro
Em um dos trechos mais importantes de sua obra, Cantillon descreve o agricultor como alguém que assume compromissos de custo conhecidos sem saber exatamente qual será o retorno.
O agricultor paga determinada renda pela terra.
Contrata trabalhadores.
Compra insumos.
Produz.
Mas não sabe exatamente por quanto venderá a colheita.
O preço dependerá das condições futuras do mercado. Wikisource
Isso é empreendedorismo em sua forma mais básica.
A diferença entre risco e certeza
O trabalhador recebe um salário previamente acordado.
O proprietário pode receber uma renda definida.
O empreendedor fica com o resultado residual.
Se vender bem, ganha.
Se vender mal, perde.
Sua remuneração é incerta.
Essa característica diferencia o empreendedor dos demais participantes da produção na análise de Cantillon.
Isso parece óbvio hoje
Mas não era.
Durante muito tempo, as explicações econômicas concentravam-se principalmente em:
terra,
trabalho,
capital.
Cantillon introduziu uma figura diferente.
O agente que compra recursos a preços conhecidos e tenta vendê-los sob condições futuras desconhecidas.
O empreendedor precisa antecipar
Imagine um comerciante que compra 10 mil guarda-chuvas antes da estação chuvosa.
Se chover muito, a demanda aumenta.
Ele ganha.
Se o inverno for seco, pode ficar com estoque parado.
Ele assumiu uma posição antes de saber qual seria o estado futuro do mercado.
Essa capacidade de antecipação é fundamental.
É aqui que empreendedorismo encontra economia
Empreender não significa simplesmente abrir uma empresa.
O conceito econômico é mais profundo.
É tomar decisões sobre recursos quando:
os custos são conhecidos
mas
os resultados futuros são incertos.
Isso acontece em uma grande empresa.
Em uma pequena loja.
Em uma fazenda.
Em uma startup.
Em um fundo de investimento.
Em uma indústria.
Cantillon enxergava o mercado como um sistema de decisões
Empreendedores observam preços.
Percebem diferenças.
Identificam oportunidades.
Compram.
Produzem.
Transportam.
Revendem.
E, ao fazer isso, ajudam a conectar oferta e demanda.
Se determinado produto está caro em uma região e barato em outra, existe uma oportunidade.
Alguém pode comprar onde está barato e vender onde está caro.
O lucro recompensa essa descoberta.
O empreendedor não precisa inventar nada
Esse é outro ponto interessante.
Uma pessoa pode ser empreendedora sem criar uma tecnologia nova.
Um comerciante pode simplesmente perceber uma oportunidade de arbitragem.
Comprar em uma região.
Vender em outra.
O ganho vem da capacidade de perceber uma diferença econômica antes que ela desapareça.
O conceito continua atual
Imagine um empreendedor hoje.
Ele lança um aplicativo.
Sabe quanto custa contratar programadores.
Sabe quanto custa infraestrutura.
Sabe quanto custa marketing.
Mas não sabe quantos usuários terá.
Não sabe qual será o preço que o mercado aceitará.
Não sabe qual concorrente surgirá.
Não sabe se a tecnologia será substituída.
O problema econômico é essencialmente o mesmo descrito por Cantillon.
Isso muda a forma de enxergar lucro
O lucro não é simplesmente “dinheiro que sobrou”.
Em parte, ele pode ser uma recompensa pela capacidade de assumir incerteza e organizar recursos em torno de uma expectativa.
Mas o contrário também acontece.
O prejuízo é o outro lado da mesma função.
Se todos os resultados fossem conhecidos antecipadamente, muitas decisões empresariais seriam muito mais simples.
A incerteza cria espaço para julgamento
Quando o futuro é incerto, não existe fórmula capaz de eliminar completamente a decisão.
Você precisa julgar.
Quanto produzir?
Quanto estocar?
Quanto investir?
Quanto cobrar?
Qual mercado entrar?
Qual tecnologia adotar?
Quanto pagar?
Essas decisões possuem informação incompleta.
É aqui que o empreendedor se diferencia
O empreendedor transforma uma expectativa sobre o futuro em uma decisão presente.
Essa frase resume bastante bem a ideia.
Ele precisa comprometer recursos agora para obter um resultado que só será conhecido depois.
Isso explica por que empreender é diferente de administrar
Administrar pode envolver otimizar uma operação conhecida.
Empreender envolve decidir qual operação deveria existir.
Um gestor pode melhorar uma fábrica.
Um empreendedor pode decidir construir uma fábrica completamente nova.
Um pode otimizar.
O outro precisa imaginar.
Schumpeter levaria a ideia mais longe
Mais de um século depois, Joseph Schumpeter colocaria inovação no centro da atividade empresarial.
O empreendedor schumpeteriano não apenas assume incerteza.
Ele introduz:
novos produtos,
novos métodos,
novos mercados,
novas formas de organização.
É a famosa ideia de destruição criativa.
Cantillon está antes disso.
Sua contribuição é mais básica:
alguém precisa decidir sob incerteza.
Hayek também encontrou uma conexão
Décadas depois, Friedrich Hayek destacaria outro problema:
o conhecimento está disperso.
Nenhuma autoridade possui todas as informações necessárias para coordenar uma economia.
Preços carregam sinais.
Empreendedores respondem a esses sinais.
Eles experimentam.
Alguns acertam.
Outros erram.
O mercado descobre.
Isso ajuda a entender por que falência também possui função econômica
Uma empresa que perde dinheiro está transmitindo uma informação.
Talvez o produto não tenha demanda.
Talvez o custo seja alto.
Talvez a tecnologia esteja errada.
Talvez o mercado tenha mudado.
A falência destrói capital.
Mas também libera recursos que podem ser utilizados de outra maneira.
O sistema empreendedor é um processo de tentativa e erro.
A IA torna essa discussão ainda mais interessante
Imagine um empreendedor em 2026.
Ele pode utilizar IA para:
pesquisar mercados,
programar,
analisar concorrentes,
criar campanhas,
testar produtos,
automatizar atendimento.
Isso reduz o custo de algumas decisões.
Mas não elimina a incerteza.
Na verdade, pode aumentar a velocidade com que empresas experimentam.
A barreira de entrada pode cair
Se criar um produto digital exige menos capital e menos trabalho graças à IA, mais pessoas podem experimentar.
Isso aumenta competição.
Também aumenta a taxa de fracasso.
Mais experimentos significam mais empresas que não funcionarão.
Mas também podem significar mais descobertas.
A pergunta de Cantillon continua viva
Quando alguém abre uma empresa, a pergunta econômica fundamental não é:
“Ela tem coragem?”
É:
“Ela está disposta a comprometer recursos hoje diante de um resultado que ainda não conhece?”
Isso é empreendedorismo em sentido econômico.
A conclusão
Richard Cantillon escreveu sobre agricultores, comerciantes e mercados há quase três séculos.
Mas sua pergunta continua perfeitamente atual.
Alguém precisa decidir:
o que produzir,
quanto produzir,
onde vender,
quanto investir,
qual preço cobrar.
E precisa fazer isso antes de saber exatamente o que acontecerá.
Esse alguém assume a incerteza.
Se acertar, pode obter lucro.
Se errar, pode sofrer prejuízo.
O mercado utiliza esse mecanismo para transformar expectativas individuais em decisões sobre recursos.
Talvez seja por isso que uma ideia escrita por um banqueiro do século XVIII continue sendo tão útil para entender a economia das startups, dos investimentos e dos negócios digitais.
A tecnologia mudou.
O mercado mudou.
Mas uma característica permanece:
empreender é transformar uma aposta sobre o futuro em uma decisão econômica no presente.

Fontes
– Cantillon, Richard. Essai sur la nature du commerce en général, texto original de 1755. Wikisource
– INED, edição crítica e histórica de Essai sur la nature du commerce en général. INED
– Project Gutenberg, edição de Essai sur le commerce. Project Gutenberg
– Biblioteca Nacional da França, registro bibliográfico da obra de Cantillon. Catálogo BnF