Doença de Baumol: por que alguns serviços ficam mais caros mesmo com uma economia mais produtiva?

Imagine uma orquestra tocando Beethoven. Quatro músicos precisam executar a obra. O primeiro violino toca sua parte. O segundo acompanha. O violista toca a sua. O violoncelista completa o conjunto. Agora imagine que uma fábrica próxima tenha inventado uma máquina que dobra a produtividade dos trabalhadores. O salário desses trabalhadores aumenta. Os músicos também querem…

Resumo

Imagine uma orquestra tocando Beethoven. Quatro músicos precisam executar a obra. O primeiro violino toca sua parte. O segundo acompanha. O violista toca a sua. O violoncelista completa o conjunto. Agora imagine que uma fábrica próxima tenha inventado uma máquina que dobra a produtividade dos trabalhadores. O salário desses trabalhadores aumenta. Os músicos também querem…

Imagine uma orquestra tocando Beethoven.
Quatro músicos precisam executar a obra.
O primeiro violino toca sua parte.
O segundo acompanha.
O violista toca a sua.
O violoncelista completa o conjunto.
Agora imagine que uma fábrica próxima tenha inventado uma máquina que dobra a produtividade dos trabalhadores.
O salário desses trabalhadores aumenta.
Os músicos também querem salários maiores.
Mas existe um problema.
Você não consegue fazer um quarteto de Beethoven durar metade do tempo simplesmente colocando mais capital no palco.
A música continua precisando de músicos.
Essa ideia, inicialmente estudada para as artes, ajuda a explicar um fenômeno muito maior:
por que alguns serviços ficam relativamente mais caros à medida que o restante da economia se torna mais produtivo.
É a chamada doença de Baumol.
A história começa com teatro e música
William Baumol e William Bowen estudaram a economia das artes performáticas e publicaram Performing Arts: The Economic Dilemma em 1966. Biblioteca da Universidade de Indiana
Eles observaram um problema curioso.
A produtividade de algumas atividades aumentava rapidamente.
Uma fábrica poderia produzir muito mais com o mesmo número de trabalhadores.
Mas certas atividades artísticas possuíam pouca margem para aumentar produtividade sem alterar a própria natureza do produto.
Uma apresentação de teatro ainda exige atores.
Um concerto ainda exige músicos.
O problema aparece quando os salários aumentam
Imagine uma economia com dois setores.
No primeiro, a produtividade cresce rapidamente.
No segundo, cresce pouco.
Se trabalhadores podem migrar entre os setores, os salários do setor mais produtivo tendem a pressionar os salários do setor menos produtivo.
Caso contrário, os trabalhadores abandonariam o setor de baixa produtividade.
Mas o segundo setor não consegue aumentar sua produtividade na mesma velocidade.
Resultado:
o custo por unidade de serviço aumenta.
Essa é a lógica básica da doença de Baumol.
Vamos usar um exemplo
Imagine uma fábrica que produzia 100 unidades com 10 trabalhadores.
Depois de uma inovação, os mesmos 10 trabalhadores produzem 200.
A produtividade dobrou.
Agora imagine uma escola.
Dez professores atendem 200 alunos.
Não existe uma tecnologia que simplesmente permita que os mesmos dez professores ofereçam exatamente a mesma qualidade para 400 alunos.
Podemos usar tecnologia.
Podemos melhorar materiais.
Podemos automatizar parte das tarefas.
Mas existe um limite.
A interação humana continua sendo parte do serviço.
Isso não significa que serviços sejam improdutivos
Esse é um erro comum.
Um professor pode ficar mais produtivo usando:
plataformas digitais,
materiais melhores,
IA,
automação administrativa.
Um médico pode utilizar:
diagnóstico assistido,
prontuários digitais,
telemedicina.
Um advogado pode utilizar:
bancos de dados,
automação documental,
IA.
A produtividade pode aumentar.
A tese de Baumol não exige produtividade zero.
Ela depende de uma diferença de velocidade.
Se a produtividade cresce muito mais lentamente em um setor do que em outro, seus custos relativos podem aumentar.
A doença não é necessariamente uma doença
O nome é enganoso.
Não significa que exista uma falha ou ineficiência.
Um serviço pode ficar mais caro simplesmente porque é difícil aumentar sua produtividade na mesma velocidade de outros setores.
Isso é importante.
Imagine um concerto que custa mais hoje que há 30 anos.
Isso não significa que músicos estejam trabalhando pior.
Pode significar que a produtividade de outros setores cresceu muito mais rapidamente.
É por isso que saúde e educação chamam atenção
Esses setores possuem atividades intensivas em trabalho.
Você pode automatizar parte do processo.
Mas ainda precisa de pessoas.
Uma cirurgia exige profissionais.
Uma consulta exige médico.
Uma aula exige professor.
Um julgamento exige profissionais do direito.
O trabalho humano continua tendo papel importante.
E isso cria um problema fiscal
Governos fornecem muitos serviços cuja produtividade cresce mais lentamente.
Saúde.
Educação.
Segurança.
Justiça.
Administração.
Se os salários desses trabalhadores precisam acompanhar os demais setores da economia, os custos desses serviços tendem a aumentar.
O governo enfrenta então uma escolha:
aumentar orçamento,
reduzir quantidade,
reduzir qualidade,
aumentar eficiência,
ou aceitar que o serviço fique relativamente mais caro.
É uma das razões pelas quais a doença de Baumol aparece frequentemente em discussões sobre o custo do Estado de bem-estar. Wiley Online Library
Isso ajuda a explicar uma coisa estranha
Você pode observar simultaneamente:
produtividade crescendo
e
serviços ficando mais caros.
Parece contraditório.
Não é.
Imagine que uma fábrica consiga produzir computadores cada vez mais baratos.
Ao mesmo tempo, uma consulta médica exige praticamente a mesma quantidade de tempo de um profissional.
Os computadores ficam mais baratos.
O trabalho médico pode ficar relativamente mais caro.
A economia como um todo ficou mais produtiva.
Mas o serviço médico não acompanhou a mesma velocidade.
Isso também aparece na educação
Uma universidade pode utilizar tecnologia para melhorar suas aulas.
Mas um professor ainda precisa preparar conteúdo, responder perguntas e avaliar alunos.
Se a economia inteira aumenta produtividade e salários, a universidade precisa competir por profissionais.
Os salários sobem.
O custo por aluno pode aumentar.
Isso pode acontecer mesmo que a universidade tenha adotado novas tecnologias.
A tecnologia pode aliviar o problema
Aqui entra a parte mais interessante para o presente.
IA pode alterar a produtividade de atividades que historicamente eram intensivas em trabalho.
Imagine um professor utilizando IA para:
preparar materiais,
criar exercícios,
corrigir trabalhos simples,
personalizar explicações.
Ele continua sendo necessário.
Mas pode conseguir atender mais alunos com a mesma quantidade de tempo.
Isso reduz parte do efeito Baumol.
Mas existe uma pergunta importante
Quanto da atividade pode realmente ser automatizado sem reduzir a qualidade?
Esse é o limite.
Uma aula não é apenas produção de texto.
Uma consulta não é apenas geração de diagnóstico.
Uma peça teatral não é apenas emissão de sons.
Existem componentes relacionais.
Humanos atribuem valor a esses componentes.
A IA pode mudar a fronteira
Isso torna a doença de Baumol particularmente interessante hoje.
Se a IA conseguir aumentar muito a produtividade de setores tradicionalmente intensivos em trabalho, parte do mecanismo pode enfraquecer.
Mas isso não significa que desaparecerá.
Porque a tecnologia pode aumentar produtividade justamente nas partes mais automatizáveis.
As atividades mais difíceis de substituir permanecerão.
E existe um efeito paradoxal
Quanto mais ricos ficamos, maior pode ser a demanda por serviços pessoais.
Quando uma pessoa possui renda maior, pode querer:
mais educação,
mais saúde,
mais cultura,
mais lazer,
mais cuidados,
mais experiências.
Esses serviços podem continuar intensivos em trabalho.
Então a economia fica mais produtiva e, simultaneamente, mais orientada para serviços.
A doença de Baumol ajuda a entender a transformação estrutural
Economias desenvolvidas tendem a empregar uma parcela maior dos trabalhadores em serviços.
Isso não significa necessariamente que estejam ficando menos produtivas.
Parte da mudança ocorre porque setores industriais aumentam produtividade tão rapidamente que precisam de menos trabalhadores.
Os trabalhadores migram para serviços.
O peso relativo dos serviços cresce.
Isso muda a política econômica
Se determinados serviços possuem baixa elasticidade de substituição do trabalho por tecnologia, esperar que seus custos caiam no mesmo ritmo da indústria pode ser irrealista.
A discussão passa a ser:
quanto vale esse serviço?
Não apenas:
quanto custa?
Uma consulta médica pode ficar mais cara.
Mas também pode gerar grande valor.
Uma aula pode custar mais.
Mas pode aumentar capital humano.
Uma apresentação artística pode não ter produtividade industrial.
Mas possui valor cultural.
Preço e valor não são a mesma coisa.
A doença de Baumol não é argumento automático por mais gasto público
Esse cuidado é importante.
O fato de determinado setor enfrentar custos crescentes não significa que todo aumento de gasto seja eficiente.
Ainda precisamos perguntar:
qual é o resultado?
qual é a qualidade?
qual é a produtividade?
há desperdício?
há tecnologia disponível?
há possibilidade de reorganização?
A doença de Baumol explica uma pressão de custos.
Não justifica qualquer nível de gasto.
A pergunta ficou ainda mais interessante com IA
Durante décadas, a doença de Baumol foi associada a atividades nas quais a automação tinha limites.
Agora estamos entrando em uma era em que inteligência artificial pode automatizar partes importantes do trabalho cognitivo.
Isso pode deslocar a fronteira.
Talvez atividades que pareciam estruturalmente intensivas em trabalho se tornem muito mais produtivas.
Mas ainda não sabemos até onde.
O verdadeiro teste
A questão não é se IA substituirá médicos, professores ou advogados.
É mais interessante perguntar:
quanto trabalho desses profissionais poderá ser ampliado por tecnologia?

Se um médico puder atender o dobro de pacientes sem reduzir qualidade, a produtividade mudou.
Se um professor puder personalizar aulas para três vezes mais alunos, a produtividade mudou.
Se um advogado puder analisar contratos dez vezes mais rapidamente, a produtividade mudou.
É assim que a tecnologia pode atacar a doença de Baumol.
A conclusão
A doença de Baumol começou com uma pergunta sobre músicos.
Por que um quarteto de Beethoven não poderia simplesmente produzir quatro vezes mais música por hora?
A resposta parecia banal.
Porque os músicos ainda precisam tocar.
Mas a consequência econômica é profunda.
Enquanto alguns setores aumentam produtividade rapidamente, outros continuam dependendo de trabalho humano em proporções elevadas.
Se os salários acompanham o restante da economia, esses serviços ficam relativamente mais caros.
Isso ajuda a explicar por que:
saúde
educação
cultura
serviços pessoais
e várias atividades públicas
podem ficar mais caras mesmo quando a sociedade como um todo se torna muito mais produtiva.
Agora a inteligência artificial introduz uma nova possibilidade.
Talvez algumas dessas atividades finalmente consigam acelerar sua produtividade.
Se isso acontecer, uma teoria criada para explicar o custo de uma orquestra poderá ajudar a explicar uma das maiores transformações econômicas da era da IA.

Fontes
– Baumol, W. J.; Bowen, W. G. Performing Arts: The Economic Dilemma, 1966. Biblioteca da Universidade de Indiana
– Baumol, W. J.; Bowen, W. G. “On the Performing Arts: The Anatomy of Their Economic Problems.” American Economic Review, 1965. Philanthropy Roundtable
– Andersen, T. M.; Kreiner, C. T. “Baumol’s Cost Disease and the Sustainability of the Welfare State.” Economica, 2017.