Imagine um pasto.
Vários criadores de gado podem utilizá-lo.
Cada um possui alguns animais.
Enquanto poucos animais pastam, não há problema.
Então um dos criadores percebe uma oportunidade.
Se colocar mais um animal no pasto, receberá todo o benefício daquele animal.
O custo da pastagem adicional, porém, será dividido entre todos os usuários.
Individualmente, parece uma ótima decisão.
Então outro criador faz a mesma coisa.
E outro.
E outro.
Até que o pasto começa a desaparecer.
Ninguém precisava querer destruir o recurso.
Cada pessoa só precisava ter um incentivo para utilizá-lo um pouco mais.
Essa é a ideia que ficou conhecida como tragédia dos comuns.
A história ficou famosa com Garrett Hardin
Em 1968, o ecólogo Garrett Hardin publicou na revista Science o artigo The Tragedy of the Commons.
O argumento central era que determinados problemas não poderiam ser resolvidos apenas com tecnologia.
Era necessário mudar os incentivos e as instituições.
O exemplo do pasto compartilhado tornou-se uma das metáforas mais influentes da economia, ciência política e gestão de recursos naturais.
O benefício é individual. O custo é coletivo
Esse é o mecanismo.
Imagine que colocar mais uma vaca no pasto gere R$ 1.000 de benefício para um criador.
O custo ambiental da utilização adicional pode ser de R$ 1.000.
Mas se existem dez usuários, aquele criador não arca sozinho com o custo.
Ele pode internalizar apenas uma fração.
Então, do ponto de vista individual:
benefício = R$ 1.000
custo privado = R$ 100
A decisão parece racional.
Mas se todos fizerem a mesma coisa, o custo coletivo será muito maior.
O problema está na diferença entre:
retorno privado
e
custo social.
Isso aparece em lugares muito diferentes
Pesca excessiva.
Poluição.
Congestionamento.
Uso de água.
Emissões de carbono.
Recursos naturais.
Até alguns problemas digitais possuem estrutura semelhante.
Imagine uma plataforma na qual todos podem utilizar gratuitamente um determinado recurso computacional.
Cada usuário tem incentivo para consumir um pouco mais.
Se milhões fizerem isso simultaneamente, a infraestrutura pode ficar congestionada.
O recurso compartilhado se deteriora.
O problema não é a ganância
Essa talvez seja a parte mais importante.
Não é necessário que ninguém seja ganancioso.
O problema pode surgir mesmo quando todos estão simplesmente tentando tomar boas decisões para si.
Isso conecta a tragédia dos comuns ao artigo anterior sobre equilíbrio de Nash.
Um comportamento individualmente racional pode produzir um resultado coletivamente ruim.
Não precisamos de pessoas irracionais.
Precisamos apenas de incentivos mal desenhados.
Mas Hardin foi longe demais?
Aqui precisamos fazer uma distinção histórica importante.
A formulação de Hardin ficou famosa porque apresentou a tragédia como um problema estrutural muito difícil de evitar.
Mas pesquisas posteriores mostraram que recursos comuns não estão condenados à destruição.
Esse é um dos pontos mais importantes para compreender o legado da ideia.
Elinor Ostrom mudou a discussão
A economista e cientista política Elinor Ostrom estudou comunidades que conseguiram administrar recursos comuns durante longos períodos.
Seu trabalho mostrou que existem situações em que usuários conseguem criar instituições para administrar coletivamente recursos compartilhados.
Em vez de escolher necessariamente entre:
privatização
ou
controle estatal
podem existir arranjos comunitários capazes de funcionar.
Ostrom recebeu o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 2009 por sua análise da governança econômica, especialmente dos bens comuns.
Isso não destrói a ideia de Hardin.
Mas mostra que ela não deve ser interpretada como uma lei universal.
O problema real é institucional
Imagine duas comunidades.
Na primeira, ninguém sabe quem pode pescar, quanto pode pescar ou quais são as consequências de ultrapassar determinados limites.
Na segunda, existem:
regras claras,
monitoramento,
sanções,
participação dos usuários,
mecanismos para resolver conflitos.
O recurso pode ter resultados completamente diferentes.
A natureza do recurso é a mesma.
Os incentivos mudaram.
É por isso que instituições importam
Uma instituição é, em certo sentido, uma maneira de estruturar expectativas.
Se eu sei que todos respeitarão determinado limite, posso cooperar.
Se acredito que ninguém respeitará, tenho incentivo para explorar o recurso antes dos demais.
Isso cria um problema de confiança.
E a confiança depende das regras.
Pense em um condomínio
Imagine uma área comum com uma pequena churrasqueira.
Todos podem utilizá-la.
Se cada morador deixar a sujeira para o próximo, rapidamente o espaço ficará desagradável.
A solução não é necessariamente proibir a churrasqueira.
Pode ser estabelecer:
horários
regras de limpeza
responsabilidade
sanções
monitoramento
O recurso continua comum.
Mas o sistema passa a produzir incentivos diferentes.
A tragédia dos comuns também aparece no trânsito
Uma estrada é um exemplo interessante.
Cada motorista possui um pequeno benefício ao utilizar seu carro.
Mas, quando milhares fazem isso simultaneamente, o congestionamento aumenta.
Cada motorista adiciona apenas uma pequena quantidade de atraso aos demais.
Mas o efeito agregado pode ser enorme.
Por isso existem pedágios, faixas exclusivas, rodízios, transporte coletivo e outras políticas.
A ideia é alterar o custo privado para aproximá-lo do custo social.
É aqui que entra a economia
Quando uma atividade produz um custo sobre terceiros que não é incorporado à decisão individual, temos uma externalidade.
A poluição é o exemplo clássico.
Uma fábrica pode considerar:
matéria-prima,
salários,
energia,
capital.
Mas, se ela despeja resíduos em um rio, pode impor um custo sobre outras pessoas.
Se esse custo não entra na decisão da empresa, ela pode poluir mais do que seria socialmente desejável.
A política pública pode tentar corrigir isso por meio de:
impostos,
regulação,
limites,
mercados de direitos,
ou mecanismos institucionais.
Mas existe um risco no outro extremo
Reconhecer uma externalidade não significa que toda intervenção estatal seja automaticamente boa.
Uma regra mal desenhada pode custar mais do que o problema que pretende resolver.
Um imposto pode ser difícil de calibrar.
Uma fiscalização pode ser cara.
Uma proibição pode criar mercados ilegais.
Uma política centralizada pode ignorar informações locais.
É justamente por isso que o trabalho de Ostrom é tão importante.
Ela mostrou que as instituições precisam levar em conta as características específicas do recurso e da comunidade.
Não existe uma solução universal
Essa talvez seja a principal evolução da discussão.
A pergunta deixou de ser:
“Quem deve controlar o recurso?”
e passou a incluir:
“Quais regras permitem que as pessoas tenham incentivos para preservar o recurso?”
Às vezes será propriedade privada.
Às vezes será regulação estatal.
Às vezes será uma comunidade.
Às vezes será uma combinação.
A resposta depende do problema.
O conceito é extremamente atual
A tragédia dos comuns aparece em questões do século XXI.
O clima é um exemplo evidente.
Cada país possui incentivo para crescer.
Mas as emissões acumuladas produzem um problema global.
Se um país reduzir emissões sozinho enquanto os demais não fizerem o mesmo, ele pode arcar com custos competitivos enquanto recebe apenas uma pequena parcela do benefício climático.
É um problema de ação coletiva.
O mesmo raciocínio aparece em oceanos, biodiversidade, água e outros recursos compartilhados.
E existe uma lição para empresas
Nem todo recurso comum é natural.
Dentro de uma organização, informações também podem ser tratadas como um recurso compartilhado.
Imagine uma base de dados utilizada por vários departamentos.
Se cada área modifica registros sem regras claras, a qualidade da informação deteriora.
Cada departamento pode ganhar tempo no curto prazo.
A organização perde qualidade no longo prazo.
O problema é institucional.
Não tecnológico.
A grande lição
A tragédia dos comuns não ensina que seres humanos são incapazes de cooperar.
Ensina algo mais interessante:
cooperação depende de instituições que tornem a cooperação racional.
Quando o benefício é privado e o custo é distribuído entre todos, existe um incentivo para explorar demais o recurso.
Mas esse resultado não é inevitável.
Regras, reputação, monitoramento, participação e mecanismos de responsabilização podem mudar completamente o jogo.
Foi justamente essa passagem, de uma visão mais pessimista de Hardin para uma compreensão mais sofisticada dos arranjos institucionais, que tornou o estudo dos bens comuns tão importante para a economia.
No fim, a pergunta não é apenas:
“As pessoas vão cooperar?”
É:
“Que tipo de instituição faz com que cooperar seja a decisão racional?”
Essa é uma pergunta que vale para uma pastagem, um oceano, uma empresa ou até um país.
Fontes
Hardin, G. “The Tragedy of the Commons.” Science, v. 162, n. 3859, p. 1243–1248, 1968.
Ostrom, E. Governing the Commons, Cambridge University Press, 1990.
Science History Institute, discussão histórica sobre Hardin e a evolução do debate sobre bens comuns.
Nobel Prize, trabalhos de Elinor Ostrom sobre governança dos recursos comuns.