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  • Ulisses amarrou-se ao mastro por uma razão que a economia moderna demorou séculos para explicar

    Ulisses amarrou-se ao mastro por uma razão que a economia moderna demorou séculos para explicar

    A história das sereias, contada por Homero, pode ser lida como uma das melhores metáforas para entender autocontrole, compromisso prévio e decisões que fazemos hoje contra nós mesmos.

    Ulisses sabia que seria fraco

    Há uma cena famosa na Odisseia.

    Ulisses está navegando pelo Mediterrâneo.

    Em algum lugar adiante estão as sereias.

    Segundo o mito, o canto delas é tão sedutor que os marinheiros que o escutam são atraídos para a morte.

    Ulisses quer ouvir.

    Mas sabe que não deveria ceder.

    Então faz algo estranho.

    Ele manda os companheiros colocarem cera nos próprios ouvidos.

    Depois ordena:

    amarrem-me ao mastro.

    E acrescenta uma instrução ainda mais importante:

    mesmo que eu peça para ser solto, não me libertem.

    A cena é antiga.

    O problema é moderno.

    O problema não é não saber o que fazer

    Ulisses sabe.

    Ele sabe que ouvir o canto pode levá-lo à morte.

    Não falta informação.

    Não falta inteligência.

    Não falta planejamento.

    O problema é que ele sabe que seu comportamento futuro pode ser diferente de sua decisão presente.

    Hoje podemos encontrar exemplos disso em toda parte.

    “Na segunda-feira começo a dieta.”

    “Não vou gastar esse dinheiro.”

    “Vou estudar antes de abrir o celular.”

    “Não vou responder essa mensagem com raiva.”

    “Vou dormir cedo.”

    Enquanto estamos tranquilos, fazemos planos.

    Depois chega o momento concreto.

    E alguma coisa muda.

    O nosso “eu de agora” não é exatamente o mesmo que o “eu de depois”

    Essa é a ideia central.

    Imagine alguém que decide às 10h da manhã:

    “Hoje não vou comer doce.”

    Às 22h, depois de um dia cansativo, diante de uma sobremesa, a mesma pessoa pensa:

    “Só hoje.”

    O problema não é que ela tenha esquecido a decisão.

    Ela pode lembrar perfeitamente.

    O problema é que o valor atribuído às alternativas mudou.

    Em economia comportamental, isso se aproxima do problema de preferências temporalmente inconsistentes.

    O que parece ótimo quando estamos longe da tentação pode parecer muito menos importante quando a tentação está diante de nós.

    Foi isso que fascinou Jon Elster

    Em 1977, o filósofo e cientista social Jon Elster publicou o artigo “Ulysses and the Sirens: A Theory of Imperfect Rationality”.

    Depois, desenvolveu o tema no livro Ulysses and the Sirens, publicado originalmente em 1979.

    A ideia era simples e poderosa:

    às vezes, uma pessoa racionalmente planejadora precisa limitar sua própria liberdade futura para conseguir fazer aquilo que decidiu hoje. Sage Journals

    Isso parece paradoxal.

    Se liberdade é poder escolher, por que alguém escolheria ter menos opções?

    Porque mais opções no futuro podem produzir um resultado pior.

    O cartão de crédito é uma pequena sereia

    Imagine alguém que quer economizar.

    Ela poderia simplesmente prometer:

    “Vou gastar menos.”

    Mas existe uma estratégia diferente.

    Cancelar o cartão.

    Criar uma conta sem acesso imediato.

    Programar uma transferência automática para investimentos.

    Estabelecer uma penalidade para retirar o dinheiro.

    Em todos esses casos, a pessoa está fazendo algo parecido com Ulisses.

    O “eu presente” cria uma restrição para proteger o “eu futuro” contra uma decisão que ele sabe que poderá querer tomar.

    Isso é um commitment device — um mecanismo de compromisso prévio.

    O mecanismo aparece em instituições também

    Agora imagine uma sociedade.

    Um governo decide:

    “Não devemos deixar a política monetária ser alterada a cada pressão eleitoral.”

    Uma possível resposta institucional é criar um banco central com determinado grau de independência.

    A ideia é parecida:

    limitar hoje a liberdade de decisão futura para reduzir um problema previsível.

    Instituições podem funcionar como mecanismos de compromisso.

    A literatura sobre política pública usa justamente a metáfora de Ulisses para discutir como governos podem se proteger contra decisões de curto prazo que prejudicam objetivos de longo prazo. Brookings

    Mas existe um problema

    Se comprometer demais também pode ser ruim.

    Imagine que Ulisses tivesse ordenado:

    “Nunca mais me soltem.”

    A decisão seria inútil.

    Uma restrição pode resolver um problema e criar outro.

    Esse é um dos pontos importantes na literatura posterior sobre precommitment:

    o compromisso precisa ser suficientemente forte para resistir à tentação, mas não tão rígido a ponto de impedir uma adaptação racional a novas informações.

    É uma distinção importante.

    Isso aparece na sua vida mais vezes do que você imagina

    Você faz um compromisso prévio quando:

    • agenda uma transferência automática para investimentos;
    • deixa o celular fora do quarto;
    • bloqueia aplicativos durante o estudo;
    • compra alimentos saudáveis antes de sentir fome;
    • define um limite de gastos;
    • estabelece uma rotina antes de estar cansado;
    • publica uma meta para outras pessoas;
    • cria uma consequência para descumprir um compromisso.

    Tudo isso tem a mesma estrutura:

    decidir hoje como limitar o comportamento de amanhã.

    E há algo profundamente filosófico nisso

    Ulisses não venceu as sereias por ser mais forte que elas.

    Ele venceu porque não confiou na própria força futura.

    Isso é extraordinariamente sofisticado.

    Em vez de dizer:

    “Quando chegar a hora, serei disciplinado.”

    ele disse:

    “Quando chegar a hora, talvez eu não seja. Então vou me proteger de mim mesmo agora.”

    Essa talvez seja uma das ideias mais importantes da história.

    Disciplina pode ser uma questão de arquitetura

    Frequentemente tratamos autocontrole como uma característica moral.

    A pessoa disciplinada seria aquela que consegue resistir.

    A indisciplinada, aquela que não consegue.

    Mas a história de Ulisses oferece outra possibilidade:

    talvez pessoas inteligentes não tentem vencer todas as tentações diretamente.

    Elas constroem ambientes em que certas tentações se tornam mais difíceis de acessar.

    Isso aproxima a antiga história de conceitos contemporâneos de economia comportamental, psicologia e desenho institucional.

    Não é necessariamente uma questão de ter mais força de vontade.

    É uma questão de desenhar melhor o conjunto de escolhas disponíveis.

    A lição final

    Existe uma pergunta que vale a pena fazer antes de qualquer grande decisão:

    “O que eu, no futuro, vou desejar fazer quando estiver cansado, irritado, eufórico ou diante de uma recompensa imediata?”

    Se a resposta for diferente daquilo que você quer hoje, talvez a solução não seja confiar mais em si mesmo.

    Talvez seja criar uma regra.

    Um limite.

    Uma automatização.

    Uma consequência.

    Uma barreira.

    Um compromisso.

    Ulisses não eliminou as sereias.

    Não mudou o canto delas.

    Não tentou convencer a si mesmo de que elas não eram atraentes.

    Ele apenas reconheceu uma verdade desconfortável:

    o homem que toma uma boa decisão hoje pode ser exatamente a pessoa que tentará desfazê-la amanhã.

    E, às vezes, a melhor maneira de permanecer fiel a uma decisão é retirar do seu futuro a possibilidade de abandoná-la.

    Fontes e referências

    1. Homero. Odisseia, episódio das sereias.
    2. Elster, Jon. “Ulysses and the Sirens: A Theory of Imperfect Rationality.” Social Science Information, 1977. Sage Journals
    3. Elster, Jon. Ulysses and the Sirens: Studies in Rationality and Irrationality, 1979; posteriormente desenvolvido em Ulysses Unbound. Cambridge
    4. Artigos contemporâneos sobre precommitment e mecanismos de compromisso. Springer Nature
    5. Brookings Institution — aplicação do conceito de mecanismos de compromisso à política pública. Brookings