Autor: Rafaël Magalhães

  • IA no governo: por que contratar tecnologia sem governança pode sair caro

    A inteligência artificial está entrando rapidamente no setor público.
    Mas existe uma diferença enorme entre usar IA e saber governar seu uso.
    A partir de 1º de setembro de 2026, entra em vigor a Portaria SGD/MGI nº 5.921/2026, que atualiza as regras para contratação de serviços de operação de infraestrutura e atendimento de usuários de tecnologia no governo federal. Serviços e Informações do Brasil
    Uma das mudanças determina que as regras de utilização de ferramentas de IA pelas empresas contratadas precisam estar expressamente previstas no termo de referência ou em uma política de governança de IA do órgão.
    Parece uma mudança burocrática.
    Na verdade, toca em um dos maiores problemas da adoção de inteligência artificial:
    quem responde quando a máquina erra?
    O problema começa antes da IA
    Imagine um órgão público contratando uma empresa para administrar sua infraestrutura de tecnologia.
    A empresa começa a utilizar ferramentas de IA para:
    classificar chamados,
    produzir respostas,
    detectar problemas,
    analisar logs,
    automatizar tarefas,
    ou apoiar decisões operacionais.
    A tecnologia pode aumentar produtividade.
    Mas também pode criar novos riscos.
    O sistema pode gerar uma resposta incorreta.
    Pode expor informação sensível.
    Pode utilizar um serviço externo sem que o órgão tenha plena consciência.
    Pode produzir uma decisão difícil de auditar.
    Quem é responsável?
    Sem uma regra prévia, a resposta pode ser confusa.
    É por isso que governança importa
    Governança não significa proibir tecnologia.
    Significa estabelecer:
    quem pode usar
    para quê
    com quais dados
    sob quais condições
    com qual supervisão
    quem responde pelo resultado
    A nova portaria tenta colocar essas questões dentro da contratação pública. Serviços e Informações do Brasil
    Isso é importante porque contratos públicos criam incentivos.
    Se uma empresa é contratada apenas pelo menor preço, ela pode ter incentivo para reduzir custos.
    Se também precisa cumprir critérios de segurança, desempenho e governança, o cálculo muda.
    O governo está tentando evitar uma armadilha
    Existe uma tendência natural quando uma tecnologia nova aparece.
    Primeiro, todos querem experimentar.
    Depois, as pessoas descobrem os problemas.
    Só então começam a criar regras.
    Com IA, o governo está tentando inverter parcialmente essa ordem.
    A ideia é incorporar governança no próprio modelo de contratação.
    Isso é mais eficiente do que descobrir depois de um incidente que ninguém sabia exatamente quem deveria controlar a ferramenta.
    Mas existe um segundo problema: custo
    A portaria também incorpora conceitos de:
    Green IT
    GreenOps
    FinOps
    O objetivo é estimular uso sustentável e racional da infraestrutura, inclusive com atenção ao consumo de energia e aos custos de tecnologia. Serviços e Informações do Brasil
    Essa parte é particularmente interessante.
    Porque IA não é apenas software.
    IA consome:
    servidores,
    chips,
    energia,
    armazenamento,
    rede,
    refrigeração.
    Se o governo simplesmente disser “usem IA”, a conta pode crescer rapidamente.
    Mais IA não significa automaticamente mais produtividade
    Esse é um erro recorrente.
    Imagine um funcionário que leva uma hora para produzir determinado relatório.
    Uma ferramenta de IA pode reduzir esse tempo para 20 minutos.
    Ótimo.
    Mas e se o funcionário precisar gastar outros 40 minutos revisando erros produzidos pela ferramenta?
    O ganho real pode ser pequeno.
    Ou imagine que a ferramenta reduza o tempo de uma tarefa em 80%, mas produza erros em 10% dos casos.
    O resultado econômico dependerá do custo desses erros.
    Por isso, produtividade precisa ser medida no processo completo.
    Não apenas na velocidade de uma tarefa.
    É aqui que FinOps fica interessante
    FinOps é uma abordagem para gestão financeira de ambientes de tecnologia, especialmente computação em nuvem.
    A pergunta é simples:
    quanto estamos gastando e qual valor estamos recebendo por esse gasto?

    Com IA, essa pergunta ganha ainda mais importância.
    Um modelo pode ser extremamente poderoso.
    Mas se o custo por utilização for alto demais, talvez uma solução mais simples seja economicamente superior.
    A melhor tecnologia não é necessariamente a mais sofisticada.
    É a que produz o melhor resultado em relação ao custo e ao risco.
    O governo também precisa evitar o efeito “caixa-preta”
    Imagine um sistema de IA utilizado em uma operação pública.
    Ele recomenda determinada ação.
    O funcionário aceita.
    Depois surge um problema.
    Se ninguém consegue explicar:
    qual dado entrou,
    qual modelo foi utilizado,
    qual regra foi aplicada,
    qual pessoa supervisionou,
    o processo fica difícil de auditar.
    Em serviços públicos, isso é particularmente sensível.
    O cidadão não escolheu participar daquele sistema.
    O Estado está utilizando a tecnologia em seu nome.
    Governança não é inimiga da inovação
    Existe uma falsa oposição entre:
    inovação
    e
    regulação.
    Uma boa governança pode fazer o contrário.
    Ela pode criar confiança.
    Uma empresa pública que sabe exatamente como uma ferramenta pode ser utilizada consegue escalar sua adoção com menos incerteza.
    Uma que não possui regras pode ficar presa entre dois extremos:
    usar IA sem controle
    ou
    proibir IA por medo.
    Nenhum dos dois é desejável.
    A questão dos dados é ainda mais delicada
    IA depende de dados.
    E governos possuem dados extremamente sensíveis.
    Informações de saúde.
    Tributos.
    Identidade.
    Benefícios sociais.
    Segurança.
    Educação.
    O risco não está apenas no modelo.
    Está em quem pode enviar quais dados para qual sistema.
    Essa é uma das razões pelas quais governança precisa ser definida antes da contratação.
    Existe também o risco de dependência
    Se um órgão público passa a depender profundamente de uma ferramenta de IA de determinado fornecedor, trocar de tecnologia pode ficar caro.
    Isso cria um problema conhecido como vendor lock-in.
    O governo pode ficar preso a:
    um fornecedor,
    um formato,
    uma API,
    uma arquitetura,
    ou um modelo.
    Por isso, contratos públicos precisam pensar também em interoperabilidade e portabilidade.
    O que a nova regra não resolve
    A portaria é relevante.
    Mas não resolve sozinha todos os problemas da IA no setor público.
    Ainda será necessário definir, caso a caso:
    quais ferramentas podem ser usadas,
    como auditar resultados,
    como proteger dados,
    como medir produtividade,
    como responsabilizar fornecedores,
    como treinar servidores,
    como evitar dependência tecnológica.
    A norma cria uma estrutura.
    Não cria automaticamente uma boa governança.
    O verdadeiro teste será a execução
    É relativamente fácil escrever:
    “o uso de IA deve ser responsável”.
    Mais difícil é definir o que isso significa em um contrato de R$ 100 milhões.
    Quais métricas serão utilizadas?
    Qual erro será tolerável?
    Quem auditará?
    Qual penalidade será aplicada?
    Como o órgão descobrirá que uma ferramenta está sendo utilizada fora do escopo?
    Essas perguntas determinam se a governança será real ou apenas documental.
    A conclusão
    A entrada da IA no governo é inevitável em muitas áreas.
    A questão não é se o Estado deve utilizar inteligência artificial.
    É como utilizar sem transformar eficiência tecnológica em risco institucional.
    A nova regra do governo federal aponta na direção correta ao levar governança para dentro da contratação.
    Mas o sucesso dependerá de algo menos visível que a própria tecnologia:
    a capacidade de transformar princípios de governança em incentivos, métricas e responsabilidades concretas.
    Porque uma IA mal governada pode até economizar minutos.
    Mas uma falha mal governada pode custar anos de confiança.

    Fontes
    – Ministério da Gestão e da Inovação, Portaria SGD/MGI nº 5.921/2026 e novo modelo de contratação, 27 jul. 2026. Serviços e Informações do Brasil
    – Ministério da Gestão e da Inovação, lista de portarias de 2026. Serviços e Informações do Brasil

  • Salário mínimo de R$ 1.741 em 2027: quem ganha e quanto isso custa ao governo?

    O salário mínimo de 2027 deverá ser de R$ 1.741, segundo a projeção mais recente apresentada pelo governo. O valor é R$ 24 maior que os R$ 1.717 previstos anteriormente no PLDO e representa um aumento nominal de aproximadamente 7,4% sobre os R$ 1.621 vigentes em 2026.
    A notícia parece simples:
    o trabalhador ganha mais.
    Mas o salário mínimo brasileiro não afeta apenas quem recebe exatamente esse valor.
    Ele também serve de referência para aposentadorias, benefícios sociais e outras despesas públicas.
    Por isso, cada aumento do piso produz dois efeitos simultâneos:
    aumenta a renda de milhões de pessoas e aumenta o gasto de quem precisa pagar benefícios vinculados a ele.
    Como o salário mínimo é calculado?
    O reajuste não é simplesmente escolhido pelo governo.
    A política vigente combina a inflação medida pelo INPC com o crescimento real do PIB de dois anos antes, respeitando o limite de crescimento real de despesas estabelecido pelo arcabouço fiscal. Serviços e Informações do Brasil
    Isso cria uma fórmula relativamente previsível.
    Se a inflação sobe, o piso tende a subir.
    Se a economia cresceu dois anos antes, parte desse crescimento pode ser incorporada ao salário mínimo.
    Existe, portanto, uma conexão direta entre:
    inflação + crescimento econômico passado + regra fiscal.
    Por que R$ 1.741 não é apenas um número
    Imagine alguém que recebia o salário mínimo em 2026.
    Com R$ 1.621, essa pessoa possui uma determinada capacidade de compra.
    Se passa a receber R$ 1.741, sua renda nominal aumenta R$ 120 por mês.
    Em um ano, isso representa R$ 1.440 adicionais antes de considerar outros efeitos.
    Para uma família de baixa renda, esse valor pode ter impacto relevante.
    Mas existe uma segunda pergunta:
    o poder de compra realmente aumentou R$ 120?
    Não necessariamente.
    Se os preços também subirem, parte do aumento será apenas uma compensação pela inflação.
    É por isso que economistas distinguem:
    salário nominal de salário real.
    O que importa é o ganho real
    Se alguém recebe um reajuste de 7% e os preços sobem 5%, o ganho real é muito menor que 7%.
    O salário nominal aumentou.
    O poder de compra aumentou menos.
    Essa distinção é fundamental para interpretar a política de valorização do salário mínimo.
    O governo não está simplesmente transferindo mais dinheiro.
    Está tentando elevar o poder de compra dos trabalhadores de baixa renda.
    Mas o efeito real depende da inflação.
    Existe um segundo lado da conta
    O salário mínimo também é usado como referência para diversas despesas públicas.
    Aposentadorias e benefícios previdenciários vinculados ao piso são reajustados.
    Benefícios assistenciais também podem ser afetados.
    Isso significa que um aumento de R$ 1 no salário mínimo não custa apenas R$ 1 ao orçamento.
    Ele pode multiplicar-se por milhões de beneficiários.
    O próprio governo já destacou esse mecanismo ao explicar os impactos fiscais dos reajustes do piso. Em 2025, ao discutir o PLOA 2026, o Ministério do Planejamento estimou que cada R$ 1 adicional no salário mínimo poderia elevar as despesas previdenciárias em centenas de milhões de reais. Serviços e Informações do Brasil
    Então aumentar o salário mínimo é ruim para as contas públicas?
    Não necessariamente.
    Essa conclusão seria simplista.
    Um salário mínimo maior também pode:
    aumentar o consumo das famílias
    reduzir pobreza
    elevar a arrecadação sobre determinados fluxos
    melhorar a renda de trabalhadores de baixa remuneração
    O efeito fiscal precisa ser comparado ao benefício econômico e social.
    A questão é o tamanho do reajuste e a capacidade de a economia absorver esse aumento.
    Existe também um efeito sobre o mercado de trabalho
    Esse é um dos pontos mais discutidos na economia do trabalho.
    Se o salário mínimo sobe, trabalhadores que recebem pouco ganham mais.
    Mas, para empresas que empregam trabalhadores de baixa produtividade, o custo do trabalho também aumenta.
    Dependendo do mercado, isso pode produzir:
    aumento de preços,
    redução de margem,
    substituição de trabalhadores,
    redução de contratações,
    ou aumento de produtividade.
    O efeito não é necessariamente igual para todos os setores.
    Uma grande empresa pode absorver determinado aumento.
    Uma pequena empresa com margens estreitas pode ter menos espaço.
    O Brasil tem uma característica particular
    O salário mínimo não é apenas um piso salarial.
    Ele possui forte efeito sobre a estrutura de benefícios sociais.
    Isso faz com que a política de valorização do mínimo seja simultaneamente:
    política salarial
    política social
    política fiscal
    e, em alguma medida,
    política macroeconômica.
    É por isso que o debate é tão importante.
    O número ainda não é definitivo
    Esse detalhe precisa aparecer em qualquer notícia responsável sobre o assunto.
    R$ 1.741 é uma projeção.
    O valor definitivo dependerá das variáveis utilizadas na fórmula e da atualização das estimativas econômicas.
    O orçamento de 2027 ainda precisa passar pelo processo legislativo.
    Portanto, não devemos tratar R$ 1.741 como se já fosse uma decisão final e imutável.
    O que devemos observar daqui para frente
    Há três variáveis particularmente importantes.
    Inflação.
    Quanto maior o INPC, maior tende a ser o componente nominal do reajuste.
    PIB.
    O crescimento de dois anos antes entra na fórmula de valorização.
    Regra fiscal.
    O limite de crescimento real das despesas pode restringir o ganho real incorporado ao piso.
    Essas variáveis determinarão o número final.
    O verdadeiro debate
    A discussão sobre salário mínimo costuma ser apresentada como uma escolha entre:
    “valorizar o trabalhador”
    e
    “controlar os gastos”.
    É uma falsa dicotomia.
    É possível defender aumentos reais do salário mínimo e, simultaneamente, discutir a sustentabilidade fiscal desses aumentos.
    As duas perguntas são legítimas.
    A primeira é:
    quanto o trabalhador deve ganhar?

    A segunda é:
    quanto custa sustentar essa política ao longo do tempo?

    Uma boa política pública precisa responder às duas.
    A conclusão
    O salário mínimo de R$ 1.741 projetado para 2027 representa um aumento importante para quem está na base da distribuição de renda.
    Mas seus efeitos não terminam no contracheque.
    Ele afeta benefícios previdenciários, despesas públicas, consumo e custos de contratação.
    Por isso, o número precisa ser analisado em duas dimensões.
    Quanto ele aumenta o poder de compra?
    E:
    quanto custa financiar esse aumento?
    A política de valorização do salário mínimo pode ser socialmente relevante.
    Mas sua sustentabilidade depende de algo menos visível:
    a capacidade de a economia produzir renda suficiente para sustentar, no longo prazo, os ganhos prometidos.

    Fontes
    – Ministério do Planejamento e Orçamento, PLDO 2027. Serviços e Informações do Brasil
    – UOL Economia, declaração do ministro Dario Durigan sobre a projeção de R$ 1.741 para 2027. UOL Economia
    – Ministério do Planejamento e Orçamento, informações sobre a fórmula de valorização do salário mínimo. Serviços e Informações do Brasil
    – Governo Federal, PLOA 2026 e impactos fiscais do salário mínimo. Serviços e Informações do Brasil

  • A tragédia dos comuns: quando o interesse individual destrói o recurso de todos

    Imagine um pasto.

    Vários criadores de gado podem utilizá-lo.

    Cada um possui alguns animais.

    Enquanto poucos animais pastam, não há problema.

    Então um dos criadores percebe uma oportunidade.

    Se colocar mais um animal no pasto, receberá todo o benefício daquele animal.

    O custo da pastagem adicional, porém, será dividido entre todos os usuários.

    Individualmente, parece uma ótima decisão.

    Então outro criador faz a mesma coisa.

    E outro.

    E outro.

    Até que o pasto começa a desaparecer.

    Ninguém precisava querer destruir o recurso.

    Cada pessoa só precisava ter um incentivo para utilizá-lo um pouco mais.

    Essa é a ideia que ficou conhecida como tragédia dos comuns.

    A história ficou famosa com Garrett Hardin

    Em 1968, o ecólogo Garrett Hardin publicou na revista Science o artigo The Tragedy of the Commons.

    O argumento central era que determinados problemas não poderiam ser resolvidos apenas com tecnologia.

    Era necessário mudar os incentivos e as instituições.

    O exemplo do pasto compartilhado tornou-se uma das metáforas mais influentes da economia, ciência política e gestão de recursos naturais.

    O benefício é individual. O custo é coletivo

    Esse é o mecanismo.

    Imagine que colocar mais uma vaca no pasto gere R$ 1.000 de benefício para um criador.

    O custo ambiental da utilização adicional pode ser de R$ 1.000.

    Mas se existem dez usuários, aquele criador não arca sozinho com o custo.

    Ele pode internalizar apenas uma fração.

    Então, do ponto de vista individual:

    benefício = R$ 1.000

    custo privado = R$ 100

    A decisão parece racional.

    Mas se todos fizerem a mesma coisa, o custo coletivo será muito maior.

    O problema está na diferença entre:

    retorno privado

    e

    custo social.

    Isso aparece em lugares muito diferentes

    Pesca excessiva.

    Poluição.

    Congestionamento.

    Uso de água.

    Emissões de carbono.

    Recursos naturais.

    Até alguns problemas digitais possuem estrutura semelhante.

    Imagine uma plataforma na qual todos podem utilizar gratuitamente um determinado recurso computacional.

    Cada usuário tem incentivo para consumir um pouco mais.

    Se milhões fizerem isso simultaneamente, a infraestrutura pode ficar congestionada.

    O recurso compartilhado se deteriora.

    O problema não é a ganância

    Essa talvez seja a parte mais importante.

    Não é necessário que ninguém seja ganancioso.

    O problema pode surgir mesmo quando todos estão simplesmente tentando tomar boas decisões para si.

    Isso conecta a tragédia dos comuns ao artigo anterior sobre equilíbrio de Nash.

    Um comportamento individualmente racional pode produzir um resultado coletivamente ruim.

    Não precisamos de pessoas irracionais.

    Precisamos apenas de incentivos mal desenhados.

    Mas Hardin foi longe demais?

    Aqui precisamos fazer uma distinção histórica importante.

    A formulação de Hardin ficou famosa porque apresentou a tragédia como um problema estrutural muito difícil de evitar.

    Mas pesquisas posteriores mostraram que recursos comuns não estão condenados à destruição.

    Esse é um dos pontos mais importantes para compreender o legado da ideia.

    Elinor Ostrom mudou a discussão

    A economista e cientista política Elinor Ostrom estudou comunidades que conseguiram administrar recursos comuns durante longos períodos.

    Seu trabalho mostrou que existem situações em que usuários conseguem criar instituições para administrar coletivamente recursos compartilhados.

    Em vez de escolher necessariamente entre:

    privatização

    ou

    controle estatal

    podem existir arranjos comunitários capazes de funcionar.

    Ostrom recebeu o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 2009 por sua análise da governança econômica, especialmente dos bens comuns.

    Isso não destrói a ideia de Hardin.

    Mas mostra que ela não deve ser interpretada como uma lei universal.

    O problema real é institucional

    Imagine duas comunidades.

    Na primeira, ninguém sabe quem pode pescar, quanto pode pescar ou quais são as consequências de ultrapassar determinados limites.

    Na segunda, existem:

    regras claras,

    monitoramento,

    sanções,

    participação dos usuários,

    mecanismos para resolver conflitos.

    O recurso pode ter resultados completamente diferentes.

    A natureza do recurso é a mesma.

    Os incentivos mudaram.

    É por isso que instituições importam

    Uma instituição é, em certo sentido, uma maneira de estruturar expectativas.

    Se eu sei que todos respeitarão determinado limite, posso cooperar.

    Se acredito que ninguém respeitará, tenho incentivo para explorar o recurso antes dos demais.

    Isso cria um problema de confiança.

    E a confiança depende das regras.

    Pense em um condomínio

    Imagine uma área comum com uma pequena churrasqueira.

    Todos podem utilizá-la.

    Se cada morador deixar a sujeira para o próximo, rapidamente o espaço ficará desagradável.

    A solução não é necessariamente proibir a churrasqueira.

    Pode ser estabelecer:

    horários

    regras de limpeza

    responsabilidade

    sanções

    monitoramento

    O recurso continua comum.

    Mas o sistema passa a produzir incentivos diferentes.

    A tragédia dos comuns também aparece no trânsito

    Uma estrada é um exemplo interessante.

    Cada motorista possui um pequeno benefício ao utilizar seu carro.

    Mas, quando milhares fazem isso simultaneamente, o congestionamento aumenta.

    Cada motorista adiciona apenas uma pequena quantidade de atraso aos demais.

    Mas o efeito agregado pode ser enorme.

    Por isso existem pedágios, faixas exclusivas, rodízios, transporte coletivo e outras políticas.

    A ideia é alterar o custo privado para aproximá-lo do custo social.

    É aqui que entra a economia

    Quando uma atividade produz um custo sobre terceiros que não é incorporado à decisão individual, temos uma externalidade.

    A poluição é o exemplo clássico.

    Uma fábrica pode considerar:

    matéria-prima,

    salários,

    energia,

    capital.

    Mas, se ela despeja resíduos em um rio, pode impor um custo sobre outras pessoas.

    Se esse custo não entra na decisão da empresa, ela pode poluir mais do que seria socialmente desejável.

    A política pública pode tentar corrigir isso por meio de:

    impostos,

    regulação,

    limites,

    mercados de direitos,

    ou mecanismos institucionais.

    Mas existe um risco no outro extremo

    Reconhecer uma externalidade não significa que toda intervenção estatal seja automaticamente boa.

    Uma regra mal desenhada pode custar mais do que o problema que pretende resolver.

    Um imposto pode ser difícil de calibrar.

    Uma fiscalização pode ser cara.

    Uma proibição pode criar mercados ilegais.

    Uma política centralizada pode ignorar informações locais.

    É justamente por isso que o trabalho de Ostrom é tão importante.

    Ela mostrou que as instituições precisam levar em conta as características específicas do recurso e da comunidade.

    Não existe uma solução universal

    Essa talvez seja a principal evolução da discussão.

    A pergunta deixou de ser:

    “Quem deve controlar o recurso?”

    e passou a incluir:

    “Quais regras permitem que as pessoas tenham incentivos para preservar o recurso?”

    Às vezes será propriedade privada.

    Às vezes será regulação estatal.

    Às vezes será uma comunidade.

    Às vezes será uma combinação.

    A resposta depende do problema.

    O conceito é extremamente atual

    A tragédia dos comuns aparece em questões do século XXI.

    O clima é um exemplo evidente.

    Cada país possui incentivo para crescer.

    Mas as emissões acumuladas produzem um problema global.

    Se um país reduzir emissões sozinho enquanto os demais não fizerem o mesmo, ele pode arcar com custos competitivos enquanto recebe apenas uma pequena parcela do benefício climático.

    É um problema de ação coletiva.

    O mesmo raciocínio aparece em oceanos, biodiversidade, água e outros recursos compartilhados.

    E existe uma lição para empresas

    Nem todo recurso comum é natural.

    Dentro de uma organização, informações também podem ser tratadas como um recurso compartilhado.

    Imagine uma base de dados utilizada por vários departamentos.

    Se cada área modifica registros sem regras claras, a qualidade da informação deteriora.

    Cada departamento pode ganhar tempo no curto prazo.

    A organização perde qualidade no longo prazo.

    O problema é institucional.

    Não tecnológico.

    A grande lição

    A tragédia dos comuns não ensina que seres humanos são incapazes de cooperar.

    Ensina algo mais interessante:

    cooperação depende de instituições que tornem a cooperação racional.

    Quando o benefício é privado e o custo é distribuído entre todos, existe um incentivo para explorar demais o recurso.

    Mas esse resultado não é inevitável.

    Regras, reputação, monitoramento, participação e mecanismos de responsabilização podem mudar completamente o jogo.

    Foi justamente essa passagem, de uma visão mais pessimista de Hardin para uma compreensão mais sofisticada dos arranjos institucionais, que tornou o estudo dos bens comuns tão importante para a economia.

    No fim, a pergunta não é apenas:

    “As pessoas vão cooperar?”

    É:

    “Que tipo de instituição faz com que cooperar seja a decisão racional?”

    Essa é uma pergunta que vale para uma pastagem, um oceano, uma empresa ou até um país.

    Fontes
    Hardin, G. “The Tragedy of the Commons.” Science, v. 162, n. 3859, p. 1243–1248, 1968.
    Ostrom, E. Governing the Commons, Cambridge University Press, 1990.
    Science History Institute, discussão histórica sobre Hardin e a evolução do debate sobre bens comuns.
    Nobel Prize, trabalhos de Elinor Ostrom sobre governança dos recursos comuns.

  • Equilíbrio de Nash: por que decisões racionais podem produzir resultados ruins?

    Imagine duas empresas concorrentes.

    As duas estão pensando em reduzir preços.

    Se nenhuma reduzir, ambas mantêm margens razoáveis.

    Se uma reduzir e a outra não, a primeira conquista mercado.

    Então cada uma pensa:

    “Se meu concorrente reduzir, eu preciso reduzir também.”

    O problema é que as duas podem chegar à mesma conclusão.

    E terminam em uma situação em que ambas ganham menos.

    Não porque alguma delas tenha cometido um erro.

    Mas porque a melhor decisão de cada uma depende da decisão da outra.

    É justamente esse tipo de situação que a teoria dos jogos ajuda a compreender.

    E o conceito mais famoso associado a ela é o equilíbrio de Nash.

    A ideia de Nash

    Em 1950, John Nash publicou um artigo de apenas duas páginas no Proceedings of the National Academy of Sciences propondo um conceito de equilíbrio aplicável a uma classe muito mais ampla de jogos do que os modelos anteriores.

    A ideia central pode ser resumida assim:

    um conjunto de estratégias está em equilíbrio quando nenhum jogador consegue melhorar seu resultado mudando sua estratégia sozinho, mantendo as estratégias dos demais constantes.

    Parece abstrato.

    Mas acontece o tempo inteiro.

    O concorrente está dentro da sua decisão

    Imagine duas companhias aéreas que operam a mesma rota.

    Cada uma precisa decidir quantos voos oferecer.

    Se uma aumentar muito a oferta, pode conquistar passageiros.

    Mas também pode derrubar preços.

    Se as duas aumentarem simultaneamente, podem acabar com excesso de capacidade e margens menores.

    A decisão de cada empresa depende da expectativa sobre a outra.

    Esse é o ponto central da teoria dos jogos.

    Em mercados competitivos, você não escolhe apenas olhando para seus próprios custos.

    Você também precisa imaginar como os concorrentes reagirão.

    O equilíbrio não significa o melhor resultado

    Essa é uma das maiores confusões.

    Equilíbrio de Nash não significa:

    “todo mundo está feliz”.

    Também não significa:

    “esse é o melhor resultado possível”.

    Significa apenas que ninguém tem incentivo para mudar sozinho.

    É perfeitamente possível que exista um resultado melhor para todos.

    Mas para alcançá-lo, os participantes precisariam coordenar suas ações.

    Um exemplo simples

    Imagine dois restaurantes em uma mesma rua.

    Cada um pode escolher:

    preço alto

    ou

    preço baixo.

    Se os dois mantêm preço alto, ambos ganham bem.

    Se um reduz o preço, pode atrair clientes do outro.

    O segundo então terá incentivo para responder.

    O resultado pode ser:

    os dois com preço baixo e margens menores.

    Cada restaurante está fazendo o que parece racional diante do comportamento do concorrente.

    Mas os dois poderiam estar melhor se conseguissem coordenar suas decisões.

    O problema é que a coordenação pode ser difícil ou até ilegal em determinados contextos.

    É aqui que aparece a diferença entre equilíbrio e cooperação

    Uma empresa pode desejar cooperar.

    Mas se acreditar que a outra empresa vai traí-la, pode ser racional não cooperar.

    Esse problema aparece em diversas situações econômicas.

    Negociações salariais.

    Guerras comerciais.

    Corridas armamentistas.

    Investimentos.

    Preços.

    Publicidade.

    Leilões.

    Política internacional.

    Até decisões dentro de uma empresa podem ter estrutura estratégica.

    O conceito é muito maior que o famoso “Dilema do Prisioneiro”

    O Dilema do Prisioneiro é uma das aplicações mais conhecidas da teoria dos jogos.

    Mas Nash não criou esse problema específico.

    Seu conceito de equilíbrio é mais amplo.

    A contribuição de Nash foi oferecer uma forma de analisar situações estratégicas em que os resultados de cada participante dependem das escolhas dos demais, inclusive em jogos que não são de soma zero.

    Isso foi decisivo para ampliar o alcance da teoria dos jogos na economia.

    A teoria mudou a forma de pensar mercados

    Antes, muitos modelos econômicos tratavam os agentes como se cada um pudesse tomar decisões isoladamente.

    Mas empresas não vivem em um vácuo.

    Uma companhia que aumenta preços precisa imaginar a reação dos concorrentes.

    Um governo que aumenta tarifas precisa considerar a reação de outros países.

    Um banco central que muda os juros precisa considerar como famílias, empresas e mercados responderão.

    Uma empresa de tecnologia que lança um produto precisa antecipar o comportamento dos concorrentes.

    Economia é cheia de interdependência estratégica.

    E isso muda a definição de racionalidade

    Ser racional não significa escolher a melhor ação em absoluto.

    Significa escolher a melhor ação dadas as informações e as estratégias dos outros participantes.

    Esse detalhe é fundamental.

    A melhor estratégia de uma empresa pode mudar completamente se o concorrente mudar sua estratégia.

    Por isso, decisões estratégicas precisam considerar reações.

    Existe um problema ainda mais interessante

    Às vezes, todos sabem que existe uma situação ruim.

    Todos gostariam de sair dela.

    Mas ninguém consegue mudar sozinho.

    Esse é um dos motivos pelos quais instituições são importantes.

    Regras podem alterar os incentivos.

    Contratos podem reduzir incerteza.

    Leis podem impedir determinados comportamentos.

    Mecanismos de mercado podem facilitar coordenação.

    Reputação pode tornar a cooperação mais provável.

    A teoria dos jogos, portanto, não serve apenas para prever comportamento.

    Ela ajuda a pensar como mudar as regras do jogo.

    Isso é extremamente útil para gestão

    Imagine uma empresa que diga:

    “Precisamos que nossos departamentos cooperem mais.”

    Essa frase é insuficiente.

    É necessário perguntar:

    o sistema de incentivos recompensa cooperação?

    Imagine que o departamento de vendas seja premiado apenas pelo faturamento.

    E o departamento financeiro seja avaliado exclusivamente pela redução de custos.

    O vendedor tem incentivo para conceder descontos.

    O financeiro tem incentivo para bloqueá-los.

    Depois a diretoria pode reclamar que os departamentos não colaboram.

    Mas talvez o problema não esteja nas pessoas.

    Está no desenho dos incentivos.

    O jogo está produzindo o comportamento

    Esse é um dos maiores usos práticos da teoria.

    Quando uma organização observa um comportamento indesejado, pode perguntar:

    “Que estratégia racional esse sistema está incentivando?”

    A pergunta muda completamente a análise.

    Em vez de culpar imediatamente o indivíduo, examinamos a estrutura.

    Política pública também funciona assim

    Imagine um recurso natural compartilhado.

    Cada pescador possui incentivo para capturar mais peixes.

    Se ele reduzir sua pesca sozinho, seu concorrente pode capturar os peixes que deixou de capturar.

    Então a decisão individualmente racional pode contribuir para um resultado coletivo ruim.

    Esse problema aparece na chamada tragédia dos comuns, que veremos no próximo artigo.

    A conexão é direta.

    Os incentivos individuais dependem da estrutura do jogo.

    Nash ganhou o Nobel por algo que hoje parece óbvio

    Em 1994, John Nash recebeu o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas, junto com Reinhard Selten e John Harsanyi, por suas contribuições pioneiras à análise de equilíbrios na teoria dos jogos não cooperativos.

    Hoje, o conceito está incorporado à economia.

    Mas sua importância está justamente na simplicidade.

    Quando sua decisão depende da decisão de outra pessoa, você não está resolvendo apenas um problema de otimização.

    Está jogando um jogo.

    O equilíbrio pode ser quebrado

    E aqui existe uma consequência prática importante.

    Um equilíbrio não é necessariamente permanente.

    Se as regras mudam, os incentivos mudam.

    Se entra um novo concorrente, o jogo muda.

    Se surge uma nova tecnologia, as estratégias disponíveis mudam.

    Se uma empresa muda seu sistema de remuneração, o comportamento dos funcionários pode mudar.

    Portanto, para alterar o resultado, às vezes não precisamos convencer as pessoas.

    Precisamos alterar o ambiente no qual elas tomam decisões.

    A grande lição

    Muitos problemas parecem ser causados por pessoas irracionais.

    Mas, quando olhamos cuidadosamente, encontramos pessoas perfeitamente racionais respondendo a incentivos ruins.

    Cada indivíduo está tentando fazer o melhor para si.

    O resultado agregado, porém, pode ser péssimo.

    Essa é uma das ideias mais poderosas da teoria dos jogos.

    Não basta perguntar o que uma pessoa fará.

    É preciso perguntar:

    “O que ela fará sabendo o que as outras pessoas provavelmente farão?”

    A partir dessa pergunta, uma grande parte da economia começa a fazer mais sentido.

    Fontes
    Nash, J. F. “Equilibrium Points in N-Person Games.” Proceedings of the National Academy of Sciences, 1950.
    Holt, C. A.; Roth, A. E. “The Nash Equilibrium: A Perspective.” PNAS, 2004.
    Nobel Prize, John F. Nash Jr. – Facts, Prêmio de Ciências Econômicas de 1994.

  • Nvidia dispara com a IA. Mas quem vai pagar a conta dessa corrida?

    Existe uma imagem muito poderosa na economia.

    Uma nova tecnologia surge.

    Empresas começam a investir.

    A infraestrutura é construída.

    O dinheiro começa a circular.

    E, durante algum tempo, ninguém sabe exatamente quanto daquela capacidade será realmente necessária.

    É exatamente o momento que a economia da inteligência artificial parece estar atravessando.

    A Nvidia acaba de divulgar receita trimestral de US$ 96,2 bilhões, alta de 106% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. O negócio de data centers respondeu por US$ 89 bilhões, crescimento de 117%.

    É um número extraordinário.

    Mas a pergunta mais interessante não é quanto a Nvidia está vendendo.

    É:

    quanto valor econômico essa infraestrutura de IA conseguirá produzir?

    A máquina de investimento está acelerando

    A Nvidia afirma que a demanda por computação continua aumentando e que o investimento em infraestrutura de IA está em plena expansão.

    Os números confirmam a dimensão do movimento.

    A receita de data centers mais que dobrou em um ano.

    A margem bruta ficou em 75%.

    O lucro líquido chegou a quase US$ 59,7 bilhões no trimestre.

    Isso significa que, até aqui, não estamos diante de uma história de tecnologia sem receita.

    Existe demanda real.

    Existe faturamento real.

    Existe lucro real.

    Mas isso não encerra a discussão.

    Quem compra tantos chips?

    A resposta ajuda a entender o problema.

    Grandes empresas de tecnologia e laboratórios de IA estão construindo infraestrutura para treinar e executar modelos cada vez maiores.

    Isso exige GPUs.

    Exige data centers.

    Exige energia.

    Exige redes.

    Exige armazenamento.

    Exige refrigeração.

    A Nvidia está no centro dessa cadeia.

    Mas a Nvidia não é a economia da IA inteira.

    Ela vende uma parte da infraestrutura.

    A pergunta seguinte é:

    o que acontece depois que essa infraestrutura é instalada?

    Infraestrutura não é produtividade

    Uma fábrica nova pode aumentar a capacidade produtiva de uma empresa.

    Mas construir a fábrica não garante que os produtos serão vendidos.

    O mesmo vale para data centers.

    Uma empresa pode investir bilhões em computação.

    Isso cria capacidade.

    Mas a capacidade só se transforma em produtividade quando é utilizada para produzir algo que tenha valor econômico.

    Essa distinção é essencial.

    Investimento é uma condição para aumentar a capacidade produtiva. Não é garantia de retorno.

    A IA precisa atravessar essa ponte

    Imagine uma empresa que gaste US$ 1 bilhão para automatizar determinadas atividades.

    Se economizar US$ 200 milhões por ano e aumentar sua receita, o investimento pode fazer sentido.

    Se o sistema gerar apenas US$ 20 milhões de benefícios anuais, talvez não.

    A tecnologia pode ser excelente nos dois casos.

    O que muda é a produtividade econômica produzida por ela.

    Por isso, o debate sobre IA está começando a sair da pergunta:

    “O modelo consegue fazer isso?”

    e migrando para:

    “Quanto valor essa capacidade produz por unidade de capital investido?”

    Essa é uma pergunta de economia

    A produtividade é, no fundo, uma relação entre produção e recursos utilizados.

    Uma empresa pode produzir mais utilizando a mesma quantidade de trabalho e capital.

    Ou pode produzir a mesma coisa utilizando menos recursos.

    A IA promete atuar exatamente aí.

    Pode ajudar trabalhadores a produzir mais.

    Pode automatizar tarefas.

    Pode reduzir custos de busca e informação.

    Pode melhorar decisões.

    Pode acelerar desenvolvimento de software.

    Pode criar produtos que antes não eram economicamente viáveis.

    Mas tudo isso precisa aparecer nos números.

    O mercado ainda está tentando descobrir quanto

    Essa é uma das razões pelas quais as avaliações das empresas ligadas à IA estão sendo observadas com tanta atenção.

    Existe uma enorme diferença entre:

    uma tecnologia revolucionária

    e

    uma tecnologia revolucionária que gera retorno financeiro suficiente para justificar o capital investido.

    A primeira pode existir sem a segunda.

    A história econômica está cheia de tecnologias extraordinárias que demoraram décadas para produzir retornos proporcionais ao entusiasmo inicial.

    A infraestrutura pode chegar antes da demanda

    Esse fenômeno não é novo.

    Ferrovias foram construídas antes que todas as rotas se mostrassem lucrativas.

    Redes de telecomunicação foram instaladas antes de todo o potencial de uso ser conhecido.

    A internet recebeu investimentos enormes antes que muitos dos modelos de negócios atuais existissem.

    Isso não significa que os investimentos tenham sido “um erro”.

    Parte da infraestrutura criada acabou permitindo inovações que ninguém havia previsto.

    Mas também significa que alguns investidores ganharam muito menos do que imaginavam.

    A Nvidia está em uma posição diferente

    Existe uma diferença importante entre a empresa que constrói infraestrutura e a empresa que utiliza essa infraestrutura.

    A Nvidia vende para quem está investindo na corrida.

    Portanto, pode crescer muito mesmo enquanto seus clientes ainda estão tentando descobrir exatamente como monetizar toda a capacidade adquirida.

    Isso não significa que exista uma bolha.

    Significa que a rentabilidade de diferentes partes da cadeia pode ocorrer em momentos diferentes.

    E a energia entrou no problema

    Quanto mais computação, maior a demanda por energia.

    Data centers de IA precisam de enormes quantidades de eletricidade.

    Isso cria outra camada econômica.

    Se a demanda por computação cresce mais rápido que a oferta de energia e infraestrutura elétrica, o custo marginal da expansão pode aumentar.

    O gargalo deixa de ser apenas chips.

    Pode passar a ser:

    energia

    transmissão

    terrenos

    refrigeração

    redes

    capital

    Isso muda a economia do setor.

    Existe uma consequência para o trabalho

    A outra grande pergunta é produtividade.

    Se a IA permitir que um trabalhador produza o que antes exigia duas pessoas, a produtividade por trabalhador aumenta.

    Mas isso não significa automaticamente que todos ficarão mais ricos.

    Depende de como os ganhos serão distribuídos.

    Podem aparecer:

    salários maiores,

    lucros maiores,

    preços menores,

    novos produtos,

    novos empregos,

    ou uma combinação de todos eles.

    A história das revoluções tecnológicas mostra que produtividade e distribuição de renda são questões relacionadas, mas diferentes.

    O verdadeiro teste começa agora

    Até aqui, a indústria de IA conseguiu demonstrar algo importante:

    existe demanda extraordinária por computação.

    A Nvidia é uma das melhores evidências disso.

    Mas o próximo estágio é mais difícil.

    Será preciso demonstrar que:

    empresas conseguem monetizar IA;

    produtividade aumenta de forma mensurável;

    clientes mantêm a demanda depois dos primeiros experimentos;

    retornos superam o custo de capital;

    e a infraestrutura construída encontra utilização suficiente.

    Isso não é um argumento contra a IA

    É exatamente o contrário.

    Tecnologias importantes merecem análise econômica séria.

    Não precisamos escolher entre:

    “IA vai mudar tudo”

    e

    “IA é uma bolha”.

    As duas afirmações podem estar erradas ao mesmo tempo.

    A IA pode ser uma transformação tecnológica profunda e, ainda assim, determinados investimentos feitos durante a corrida podem produzir retornos ruins.

    Tecnologia e investimento não são sinônimos.

    A pergunta que vale acompanhar

    O número da Nvidia é impressionante.

    Mas, daqui para frente, talvez devamos olhar menos para o crescimento da capacidade computacional e mais para uma variável diferente:

    produtividade por dólar investido em IA.

    Se essa relação continuar melhorando, a revolução terá encontrado seu fundamento econômico.

    Se não melhorar, teremos construído uma quantidade extraordinária de capacidade antes de descobrir exatamente para que ela servirá.

    A corrida da IA ainda está acelerando.

    Agora começa a fase em que será preciso descobrir quem realmente captura o valor criado por ela.

    Fontes
    NVIDIA, Financial Results for Second Quarter Fiscal 2027, 26 ago. 2026.
    Financial Times, análise dos resultados da Nvidia e do ciclo de investimento em IA.
    Associated Press, reação dos mercados aos resultados de Nvidia e Salesforce, 27 ago. 2026.

  • Soberania digital: o que o Brasil realmente ganha ao controlar seus próprios dados?

    Quando se fala em soberania digital, é fácil imaginar que o governo esteja tentando construir uma espécie de internet brasileira, isolada do resto do mundo.

    Não é isso.

    O que está acontecendo é mais específico e, economicamente, mais interessante.

    O governo brasileiro está estruturando uma Nuvem Brasileira e, paralelamente, iniciou a migração de sistemas estratégicos do SUS para uma infraestrutura de nuvem soberana. O objetivo declarado é aumentar o controle nacional sobre dados, operação e infraestrutura crítica.

    A pergunta importante não é se o Brasil deveria “ter uma nuvem”.

    É:

    quanto controle um Estado precisa ter sobre a infraestrutura digital da qual depende?

    O que significa soberania digital?

    Imagine que um governo armazene informações extremamente sensíveis em uma infraestrutura controlada por uma empresa estrangeira.

    Os servidores podem estar fisicamente no Brasil.

    Os funcionários podem estar no Brasil.

    A empresa pode prestar um ótimo serviço.

    Ainda assim, podem existir questões sobre:

    quem controla as chaves de criptografia,

    quem administra a infraestrutura,

    a qual jurisdição a empresa está submetida,

    quem consegue interromper determinados serviços,

    e quanto o Estado depende daquele fornecedor para continuar funcionando.

    É por isso que soberania digital não se resume à localização física dos servidores.

    O próprio Serpro passou a trabalhar com a ideia de gradientes de soberania, considerando diferentes níveis de controle sobre dados, operação e tecnologia.

    O SUS virou um dos primeiros grandes testes

    Em agosto, o Ministério da Saúde iniciou a chamada Jornada para a Nuvem Soberana do SUS.

    A primeira etapa envolve o CadSUS e a Rede Nacional de Dados em Saúde.

    A RNDS reúne mais de 5 bilhões de registros, segundo o Ministério da Saúde. O CadSUS possui mais de 228 milhões de usuários ativos com CPF, além de usuários sem CPF.

    Não estamos falando, portanto, de um projeto experimental pequeno.

    É uma infraestrutura crítica.

    Se ela parar, não estamos diante apenas de um problema de tecnologia.

    Serviços públicos podem ser afetados.

    O que muda para o cidadão?

    Em princípio, muito menos do que parece.

    O cidadão não verá uma nova tela quando acessar um serviço do SUS.

    Não haverá necessariamente uma mudança perceptível na interface.

    O que muda está nos bastidores.

    O governo pretende aumentar sua capacidade de controlar:

    infraestrutura

    dados

    segurança

    continuidade

    interoperabilidade

    Esses quatro eixos aparecem explicitamente na estratégia do Ministério da Saúde.

    É uma discussão sobre infraestrutura.

    E infraestrutura costuma ser percebida apenas quando deixa de funcionar.

    Mas por que isso virou assunto agora?

    Porque a dependência tecnológica passou a ter uma dimensão geopolítica maior.

    Computação em nuvem, semicondutores, inteligência artificial e data centers deixaram de ser apenas assuntos de empresas de tecnologia.

    Eles passaram a fazer parte da infraestrutura estratégica dos países.

    Uma economia pode depender de uma empresa estrangeira para acessar determinada tecnologia.

    Isso é eficiente em muitos casos.

    Mas também cria dependência.

    A questão econômica passa a ser:

    qual é o custo dessa dependência em situações normais e quanto ela pode custar durante uma crise?

    Dependência não é necessariamente um problema

    Aqui existe uma distinção importante.

    Nenhum país precisa produzir internamente tudo aquilo que utiliza.

    Seria economicamente ineficiente tentar fabricar todos os chips, softwares, servidores e equipamentos necessários dentro de suas próprias fronteiras.

    A divisão internacional do trabalho existe justamente porque especialização pode aumentar produtividade.

    Portanto, soberania não deveria significar autossuficiência.

    O problema aparece quando uma dependência é tão concentrada que uma interrupção pode produzir consequências desproporcionais.

    É a mesma lógica da diversificação.

    Um investidor não precisa produzir todos os ativos de sua carteira.

    Mas também não deveria depender de uma única fonte de risco.

    A nuvem brasileira não significa abandonar empresas estrangeiras

    Esse ponto aparece no próprio desenho da política.

    O governo trabalha com uma infraestrutura nacional, mas também admite modelos híbridos e multinuvem.

    O objetivo é classificar diferentes cargas de trabalho conforme sua criticidade.

    Uma aplicação pública comum pode ter necessidades diferentes de uma base contendo dados extremamente sensíveis.

    A arquitetura pode refletir essa diferença.

    Essa é uma solução muito mais racional do que simplesmente dizer:

    “Tudo precisa ser nacional.”

    Existe um custo para a soberania

    E esse custo precisa entrar na análise.

    Construir e operar infraestrutura própria exige:

    capital

    profissionais especializados

    data centers

    energia

    segurança

    manutenção

    atualização tecnológica

    escala

    Se uma solução nacional for muito mais cara ou menos eficiente do que alternativas privadas, o governo estará utilizando recursos que poderiam ter outra finalidade.

    Aqui aparece novamente uma ideia econômica fundamental:

    soberania também possui custo de oportunidade.

    Não existe almoço grátis na infraestrutura digital.

    Mas existe também uma opção que o mercado sozinho pode não oferecer

    Imagine uma empresa que precise proteger uma informação extremamente estratégica.

    Ela pode decidir pagar mais por uma estrutura que lhe ofereça maior controle.

    Isso pode ser economicamente racional mesmo que o custo financeiro seja maior.

    Porque o benefício não está apenas no preço do serviço.

    Está na redução do risco.

    O Estado enfrenta algo parecido.

    Uma infraestrutura nacional pode ser mais cara em determinados casos, mas oferecer um benefício que não aparece na comparação simples de preços:

    autonomia em situações de crise.

    O desafio será definir o que realmente precisa ser soberano

    Esse talvez seja o ponto mais importante da política.

    Não é necessário que tudo seja soberano.

    É necessário saber o que não pode deixar de funcionar.

    E, depois:

    qual é o nível de controle necessário?

    qual é o custo?

    quais alternativas existem?

    qual é o risco de dependência?

    qual é o risco de concentração?

    Essa abordagem é muito mais próxima de gestão de risco do que de nacionalismo tecnológico.

    A inteligência artificial torna a discussão ainda mais importante

    IA depende de infraestrutura.

    Modelos precisam de:

    chips

    energia

    data centers

    dados

    redes

    computação em nuvem

    À medida que governos utilizarem IA em serviços públicos, a infraestrutura que sustenta esses modelos também passará a ter importância estratégica.

    A discussão sobre soberania digital, portanto, não é separada da discussão sobre inteligência artificial.

    Ela é uma de suas consequências.

    O Brasil está tentando construir um mercado

    A chamada Nuvem Brasileira está sendo estruturada por uma parceria envolvendo Ministério da Gestão e da Inovação, ABDI, Serpro e BNDES.

    O governo prevê uma escuta de mercado em 3 de setembro de 2026, justamente para mapear as capacidades da indústria nacional antes da definição do modelo.

    Esse detalhe é relevante.

    O Estado não está apenas tentando comprar uma tecnologia.

    Está tentando descobrir se consegue criar uma demanda pública capaz de estimular uma capacidade produtiva nacional.

    Isso aproxima o projeto de uma velha discussão de política industrial:

    o poder de compra do Estado pode ajudar a criar mercados?

    E aqui mora o risco

    Política industrial pode funcionar.

    Mas também pode produzir empresas protegidas, tecnologia cara e dependência de fornecedores escolhidos pelo governo.

    A diferença está no desenho institucional.

    Se o Estado simplesmente protege uma solução nacional da concorrência, pode reduzir incentivos à eficiência.

    Se usa seu poder de compra para criar demanda, mas mantém critérios de desempenho, segurança, interoperabilidade e custo, pode ajudar a desenvolver uma indústria.

    É uma diferença enorme.

    O que devemos observar

    A discussão sobre soberania digital brasileira ainda está no começo.

    Os próximos passos serão importantes para descobrir se o projeto conseguirá combinar:

    autonomia

    segurança

    competição

    eficiência

    inovação

    O sucesso não será medido pelo número de servidores nacionais.

    Será medido pela capacidade de o Brasil controlar aquilo que é estratégico sem pagar um preço econômico desnecessário por aquilo que não é.

    A questão é maior que a nuvem

    Durante muito tempo, infraestrutura digital parecia uma questão puramente técnica.

    Agora sabemos que não é.

    Quem controla a infraestrutura controla parte das condições em que dados, serviços e tecnologias podem funcionar.

    Para um país que quer desenvolver inteligência artificial e aumentar sua autonomia tecnológica, essa discussão será cada vez mais importante.

    A verdadeira soberania digital não é ter tudo dentro do país.

    É saber onde a dependência é aceitável, onde ela é perigosa e quanto custa reduzi-la.

    Fontes
    Governo Federal, Nuvem Brasileira.
    Ministério da Saúde, Jornada para a Nuvem Soberana do SUS, 11 ago. 2026.
    Serpro, critérios de soberania digital e Nuvem Brasileira, 21 ago. 2026.
    Serpro, Nuvem de Governo e soberania digital, 26 ago. 2026.

  • Jackson Hole: o que o novo presidente do Fed pode sinalizar sobre os juros?

    Há discursos de bancos centrais que passam quase despercebidos.

    E há discursos que podem mudar a direção dos mercados.

    O de Kevin Warsh em Jackson Hole, nesta sexta-feira, pertence à segunda categoria.

    Warsh assumiu a presidência do Federal Reserve em maio e fará hoje seu primeiro discurso no tradicional simpósio anual do Fed em Wyoming. Ele deve falar às 10h no horário da costa leste dos Estados Unidos, 11h em Brasília.

    O mercado está interessado em uma coisa principalmente:

    qual será a leitura de Warsh sobre inflação, crescimento e juros?

    Por que Jackson Hole importa tanto?

    O simpósio de Jackson Hole não é uma reunião formal de política monetária.

    Não é uma reunião do FOMC.

    Warsh não precisa anunciar uma decisão sobre os juros.

    Mas o encontro possui enorme peso simbólico.

    Presidentes e dirigentes de bancos centrais aproveitam o evento para apresentar ideias sobre a economia e, algumas vezes, preparar o mercado para mudanças futuras.

    Foi em Jackson Hole, por exemplo, que discursos de presidentes anteriores do Fed ajudaram a redefinir as expectativas dos mercados.

    Por isso, investidores prestam atenção não apenas à decisão oficial sobre juros, mas à linguagem utilizada pelos dirigentes.

    O problema é que o Fed está diante de um cenário desconfortável

    A inflação americana continua acima da meta de 2%.

    Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho e a atividade econômica não indicam uma recessão evidente.

    Isso cria um dilema.

    Se o Fed reduzir os juros cedo demais, pode reacender pressões inflacionárias.

    Se mantiver os juros elevados por tempo demais, pode provocar uma desaceleração maior da economia.

    A política monetária funciona com atraso.

    O que o Fed decide hoje afeta empresas e famílias ao longo dos meses seguintes.

    Por isso, o banco central precisa agir olhando para frente.

    O que o mercado quer ouvir

    O mercado está tentando descobrir se Warsh vê espaço para cortes.

    Mas essa pergunta precisa ser dividida em outras.

    A inflação está convergindo para 2%?

    O mercado de trabalho está perdendo força?

    A economia americana está desacelerando?

    Os riscos inflacionários estão aumentando?

    Dependendo das respostas, a mesma taxa de juros pode ser considerada adequada, restritiva ou insuficiente.

    O mercado já está dividido

    Segundo dados citados pela UOB, o mercado atribuía apenas cerca de 35% de probabilidade a uma alta dos juros em setembro antes do discurso.

    Isso mostra que a discussão não está simplesmente entre “cortar” ou “não cortar”.

    Existe também o risco de o Fed precisar voltar a apertar a política monetária.

    Essa possibilidade ficou mais relevante porque a inflação americana ainda apresenta resistência.

    E por que isso interessa ao Brasil?

    Porque o Fed não define apenas o custo do dinheiro nos Estados Unidos.

    A taxa americana influencia o preço dos ativos financeiros em todo o mundo.

    Imagine um investidor internacional.

    Ele pode aplicar em um título americano, considerado um dos ativos de referência do sistema financeiro global.

    Ou pode investir em um país emergente.

    Para aceitar o risco adicional de investir no Brasil, ele normalmente exige um retorno maior.

    Se o rendimento dos ativos americanos aumenta, o retorno exigido para investir em mercados emergentes também pode subir.

    É uma das razões pelas quais decisões do Fed afetam câmbio, juros e bolsas brasileiras.

    O dólar entra nessa história

    Quando os ativos americanos ficam relativamente mais atraentes, pode haver fluxo de capital em direção aos Estados Unidos.

    Isso pode pressionar moedas de países emergentes.

    O real pode sofrer.

    E uma moeda brasileira mais fraca pode aumentar o preço, em reais, de produtos importados e commodities negociadas em dólar.

    Isso pode criar pressão adicional sobre a inflação.

    Portanto, existe uma cadeia:

    Fed → juros americanos → fluxo de capital → dólar → preços no Brasil.

    Não é uma relação mecânica.

    Mas é um dos canais importantes da política monetária internacional.

    E existe o petróleo

    A situação geopolítica também interfere.

    Nesta sexta-feira, o Brent estava próximo de US$ 88 por barril, enquanto os mercados continuavam acompanhando as tensões envolvendo Estados Unidos, Irã e o Estreito de Ormuz.

    Um petróleo mais caro pode aumentar a inflação americana.

    Isso complica ainda mais a tarefa do Fed.

    O banco central não controla o preço internacional do petróleo.

    Mas precisa considerar seus efeitos sobre a inflação.

    O novo presidente do Fed também importa

    Há um elemento adicional neste discurso.

    Warsh não é simplesmente mais um dirigente.

    Ele é o novo presidente da instituição.

    Portanto, o mercado ainda está tentando entender seu estilo de comunicação e suas prioridades.

    O primeiro discurso em Jackson Hole oferece uma oportunidade para Warsh estabelecer uma espécie de referência inicial para sua visão da economia.

    O tom pode ser tão importante quanto qualquer número mencionado.

    O que seria um discurso “dovish”?

    Se Warsh enfatizar:

    desaceleração da atividade

    fraqueza do mercado de trabalho

    queda das pressões inflacionárias

    risco de manter juros altos por tempo demais

    o mercado pode interpretar o discurso como mais favorável a cortes.

    É o chamado tom dovish.

    E um discurso “hawkish”?

    Se o foco estiver em:

    inflação persistente

    expectativas desancoradas

    riscos fiscais

    necessidade de manter a política restritiva

    o mercado pode interpretar o discurso como hawkish.

    Nesse caso, os juros futuros podem subir.

    E isso pode repercutir imediatamente em outros mercados.

    O que o investidor brasileiro deveria observar

    Não é necessário tentar adivinhar cada palavra do discurso.

    Existem três coisas mais importantes.

    A inflação.

    Warsh considera que o processo de desinflação está avançando?

    O mercado de trabalho.

    Ele vê necessidade de proteger o emprego ou ainda considera a inflação o principal problema?

    A taxa de juros neutra.

    Qual é, na visão dele, o nível de juros compatível com uma economia que cresce sem gerar inflação excessiva?

    Essa terceira questão é especialmente importante porque ajuda a entender onde o Fed imagina que os juros deveriam estar no médio prazo.

    O discurso não muda a economia sozinho

    Existe uma armadilha comum na leitura de bancos centrais.

    Transformar cada frase em uma previsão definitiva.

    Não funciona assim.

    O Fed tomará decisões com base em dados que ainda não existem hoje.

    Novos números de inflação serão divulgados.

    O mercado de trabalho pode mudar.

    O crescimento pode acelerar ou desacelerar.

    Choques externos podem surgir.

    O discurso é uma sinalização.

    Não é uma promessa.

    O que pode mudar depois de Jackson Hole

    Se Warsh parecer mais preocupado com inflação, os juros futuros podem subir e o dólar ganhar força.

    Se parecer mais preocupado com crescimento e emprego, o mercado pode antecipar cortes.

    Se o discurso for equilibrado, a reação pode ser pequena.

    Em todos os casos, o mercado tentará comparar as palavras de hoje com os dados que vierem depois.

    Essa é a parte que costuma ser esquecida.

    Política monetária não é apenas comunicação. É comunicação acompanhada de ação.

    A pergunta mais importante

    Em vez de perguntar:

    “Warsh vai cortar os juros?”

    talvez seja melhor perguntar:

    “O que precisa acontecer para Warsh considerar que já é seguro reduzir os juros?”

    Essa pergunta revela muito mais sobre a função de reação do Fed.

    E é justamente isso que os mercados tentarão descobrir hoje em Jackson Hole.

    Fontes
    Reuters, cobertura do discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole, 28 ago. 2026.
    UOL Economia, mercados e expectativas antes do discurso.
    Kansas City Federal Reserve, informações sobre o simpósio de Jackson Hole.

  • IGP-M cai 0,22%. Por que o aluguel ainda pode subir?

    O IGP-M caiu 0,22% em agosto de 2026, depois de já ter recuado 1,16% em julho. Em 12 meses, porém, o índice ainda acumula alta de 2,16%. Para quem tem um contrato de aluguel atrelado ao IGP-M e faz aniversário em setembro, é esse acumulado que importa para o reajuste.

    É um daqueles casos em que a manchete pode induzir o leitor ao erro.

    O índice caiu.

    Mas o aluguel pode subir.

    As duas coisas são perfeitamente compatíveis.

    O número do mês não é o número do contrato

    Imagine um aluguel de R$ 1.500.

    Se o contrato estabelece reajuste anual pelo IGP-M e o aniversário acontece em setembro, o cálculo utiliza a variação acumulada nos 12 meses anteriores.

    Com uma alta acumulada de 2,16%, o aluguel passaria, em uma aplicação integral do índice, para aproximadamente R$ 1.532,40.

    Por isso, olhar apenas para os 0,22% negativos de agosto não responde à pergunta que interessa ao inquilino.

    O que interessa é:

    quanto o índice variou desde o último reajuste?

    Mas por que o IGP-M é chamado de inflação do aluguel?

    O apelido ficou popular porque o índice é utilizado tradicionalmente como referência para reajustes de contratos de locação.

    Mas ele não mede apenas os preços pagos pelos consumidores.

    O IGP-M é formado por três componentes:

    IPA: 60%

    IPC: 30%

    INCC: 10%

    O primeiro acompanha preços no atacado, o segundo preços ao consumidor e o terceiro custos da construção civil.

    Isso faz do IGP-M um indicador bastante diferente do IPCA.

    É por isso que IGP-M e IPCA podem divergir

    Imagine que o preço das commodities suba fortemente.

    Isso pode aumentar os preços recebidos por produtores e exportadores antes de chegar diretamente ao consumidor.

    O IPA captura esse movimento.

    O IPCA, por outro lado, foi construído para acompanhar a variação dos preços de uma cesta de consumo das famílias.

    São perguntas diferentes.

    O IGP-M tenta acompanhar uma parcela mais ampla da cadeia de preços.

    O IPCA procura medir a inflação enfrentada pelo consumidor.

    Por isso, não existe contradição quando um sobe e o outro cai.

    O que aconteceu em agosto?

    A queda do IGP-M foi puxada principalmente pelo componente de preços ao consumidor.

    O IPC recuou 0,41%, influenciado por quedas em itens como energia elétrica, tomate, batata, passagens aéreas e gasolina.

    O IPA caiu 0,34%, enquanto o INCC acelerou para 0,85%.

    Esse detalhe é importante.

    O índice cheio caiu, mas os componentes tiveram comportamentos diferentes.

    Isso significa que a leitura mais interessante não está apenas no número final.

    Está na composição.

    O atacado merece atenção

    O IPA representa 60% do IGP-M.

    Em agosto, os preços industriais recuaram, mas os produtos agropecuários tiveram uma alta expressiva.

    A taxa dos produtos agropecuários passou de queda de 0,20% em julho para alta de 2,73% em agosto.

    Esse comportamento mostra por que o IGP-M pode mudar rapidamente.

    Preços de commodities, alimentos, câmbio e custos de produção podem alterar o indicador antes mesmo de esses movimentos chegarem integralmente ao consumidor.

    Então o aluguel vai subir 2,16%?

    Se o contrato prevê reajuste integral pelo IGP-M acumulado nos 12 meses, esse é o percentual de referência.

    Mas existe uma ressalva importante.

    O índice não obriga, sozinho, todo contrato de aluguel a aplicar exatamente esse reajuste.

    As partes podem negociar outro percentual.

    Além disso, contratos diferentes podem estabelecer outros índices ou regras específicas.

    Por isso, o índice é uma referência contratual, não uma determinação automática para todos os contratos existentes.

    E existe outro problema: o IGP-M nem sempre representa bem o mercado de aluguel

    Essa é uma discussão importante.

    O aluguel de um imóvel não é simplesmente o preço de uma cesta de produtos no atacado, no varejo e na construção civil.

    Ele depende de:

    oferta de imóveis

    demanda por locação

    renda das famílias

    juros

    localização

    vacância

    preço dos imóveis

    condições do mercado imobiliário

    Por isso, existem indicadores específicos para acompanhar a variação dos aluguéis residenciais.

    O FGV IBRE, por exemplo, calcula o IVAR, justamente voltado para os preços efetivamente praticados em locações residenciais.

    Isso ajuda a explicar por que um IGP-M baixo não significa necessariamente que os aluguéis estejam baratos.

    O que o IGP-M está dizendo sobre a economia?

    Há uma informação interessante por trás do dado.

    O IGP-M acumula apenas 2,16% em 12 meses.

    Isso representa uma desaceleração importante em relação a períodos recentes de inflação mais elevada nos preços de produção.

    Mas a composição mostra que ainda existem pressões diferentes dentro da economia.

    O setor de construção, por exemplo, registrou aceleração do INCC.

    Produtos agropecuários também subiram.

    O resultado final é uma média ponderada dessas forças.

    O número que importa depende da pergunta

    Essa talvez seja a melhor forma de interpretar o IGP-M.

    Se a pergunta for:

    “Como os preços medidos pelo IGP-M variaram em agosto?”

    A resposta é:

    caíram 0,22%.

    Se a pergunta for:

    “Qual o reajuste anual de um contrato atrelado ao IGP-M com aniversário em setembro?”

    A resposta de referência é:

    2,16%.

    Se a pergunta for:

    “O aluguel residencial subiu 2,16% no Brasil?”

    A resposta é:

    não necessariamente.

    São três perguntas diferentes.

    E uma boa análise econômica começa justamente por não confundi-las.

    O que fica para o consumidor

    O IGP-M de agosto traz algum alívio para quem acompanha inflação.

    Mas quem paga aluguel precisa olhar para o acumulado e, principalmente, para o próprio contrato.

    A queda mensal do índice não significa redução automática do aluguel.

    O que determina o reajuste anual é a regra contratada e o indicador acumulado no período correspondente.

    A economia costuma ficar mais clara quando paramos de olhar apenas para o número da manchete e perguntamos:

    “Qual número responde à pergunta que eu realmente quero fazer?”

    Fontes
    FGV IBRE, calendário e metodologia do IGP-M.
    Reuters, divulgação do IGP-M de agosto de 2026.
    UOL Economia, impacto do índice nos contratos de aluguel.
    FGV IBRE, metodologia e evolução do IVAR.

  • A janela quebrada de Bastiat e o erro de confundir gasto com riqueza

    Uma história escrita em 1850 continua sendo uma das melhores maneiras de entender custo de oportunidade e os efeitos que não aparecem nas estatísticas.

    Imagine uma criança quebrando a janela de uma loja.

    O vidro precisa ser substituído.

    O vidraceiro recebe pelo serviço.

    Ele utiliza o dinheiro em outra compra.

    O comerciante também gasta.

    E assim por diante.

    Alguém poderia olhar para essa sequência e dizer:

    “Pelo menos a janela quebrada movimentou a economia.”

    Foi justamente esse raciocínio que o economista francês Frédéric Bastiat decidiu desmontar em 1850.

    Sua história ficou conhecida como falácia da janela quebrada.

    Ela continua relevante porque toca em uma das ideias mais importantes da economia:

    atividade econômica não é a mesma coisa que criação de riqueza.

    O que aparece na conta

    Bastiat publicou em 1850 o ensaio Ce qu’on voit et ce qu’on ne voit pas, conhecido em português como O que se vê e o que não se vê.

    A parábola da janela quebrada aparece logo no início.

    O comerciante precisa pagar seis francos para substituir o vidro.

    O vidraceiro recebe.

    A atividade econômica acontece.

    Se alguém olhar apenas para essa parte, parece que a destruição criou trabalho.

    Mas Bastiat pede que façamos uma segunda pergunta.

    O que o comerciante teria feito com aqueles seis francos se a janela não tivesse sido quebrada?

    O que não aparece

    Talvez ele comprasse um par de sapatos.

    Talvez um livro.

    Talvez investisse no negócio.

    Talvez simplesmente guardasse o dinheiro.

    Essa alternativa desapareceu.

    O comerciante agora possui uma janela nova.

    Mas não possui os seis francos que poderia ter utilizado para outra finalidade.

    A economia não ficou seis francos mais rica porque a janela foi quebrada.

    O dinheiro apenas mudou de destino.

    E, antes disso, uma janela foi destruída.

    Aqui aparece o custo de oportunidade

    O nome moderno para essa ideia é custo de oportunidade.

    Toda vez que utilizamos um recurso em uma finalidade, abrimos mão da melhor alternativa disponível.

    O dinheiro usado para comprar uma coisa não pode ser usado simultaneamente para comprar outra.

    O tempo gasto em uma atividade não pode ser usado em outra.

    Uma máquina utilizada para fabricar um produto não pode produzir outro ao mesmo tempo.

    Um orçamento público destinado a uma política não pode financiar simultaneamente todas as outras.

    O custo de oportunidade é justamente aquilo que deixamos de obter ao escolher uma alternativa.

    Bastiat não usava ainda a expressão moderna, mas sua parábola antecipava a ideia.

    O erro está no que conseguimos enxergar

    O vidraceiro recebeu dinheiro.

    Isso é visível.

    Ele pode ter contratado alguém.

    Isso também é visível.

    O comércio pode ter registrado uma venda.

    Também é visível.

    Mas ninguém vê o investimento que não aconteceu.

    Ninguém vê o livro que não foi comprado.

    Ninguém vê a máquina que não foi adquirida.

    Ninguém vê o dinheiro que permaneceu parado.

    Essa é a parte mais poderosa da história.

    O custo de uma decisão pode estar justamente naquilo que não aconteceu.

    Isso ajuda a entender o gasto público

    Imagine que um governo gaste R$ 10 bilhões para reconstruir uma infraestrutura destruída.

    O gasto gera empregos.

    Empresas recebem contratos.

    Materiais são comprados.

    O PIB pode registrar atividade.

    Mas isso não significa que a destruição tenha criado riqueza.

    O país está reconstruindo algo que já existia.

    Os R$ 10 bilhões utilizados para reconstrução também poderiam ter sido empregados em:

    educação,

    saneamento,

    infraestrutura nova,

    redução de impostos,

    investimento produtivo,

    ou qualquer outra finalidade.

    A análise econômica precisa comparar essas alternativas.

    É exatamente aí que a parábola de Bastiat continua útil.

    Mas existe uma nuance importante

    Seria errado transformar a janela quebrada em uma regra segundo a qual todo gasto de reconstrução é economicamente ruim.

    Não é.

    Depois de um desastre, reconstruir uma ponte pode ser essencial.

    Pode restabelecer produção.

    Pode reduzir perdas futuras.

    Pode gerar benefícios muito superiores ao custo.

    A questão é outra:

    o desastre em si não criou riqueza simplesmente porque obrigou alguém a gastar dinheiro.

    É preciso comparar o que existia antes, o que existe depois e quais recursos foram desviados de outras utilizações.

    Essa diferença é importante.

    PIB não é riqueza

    Aqui chegamos a uma distinção que muita discussão econômica perde.

    O PIB mede o valor dos bens e serviços finais produzidos em determinado período.

    Ele é extremamente importante.

    Mas não é uma medida completa de riqueza.

    Uma economia pode registrar atividade para reparar danos sem aumentar proporcionalmente seu estoque de capital.

    Se uma enchente destrói uma estrada e o governo gasta para reconstruí-la, a reconstrução aparece como atividade econômica.

    Mas parte do gasto simplesmente recupera uma capacidade que já existia.

    O país não ficou necessariamente mais rico porque voltou ao ponto de partida.

    A mesma lógica aparece em guerras

    Durante uma guerra, fábricas podem trabalhar intensamente.

    Empregos podem aumentar.

    Produção industrial pode crescer.

    Mas isso não permite concluir automaticamente que a guerra tenha enriquecido o país.

    Recursos utilizados para armas não podem ser utilizados simultaneamente para outros bens.

    Infraestrutura destruída precisa ser reconstruída.

    Pessoas são retiradas de atividades produtivas.

    Capital físico desaparece.

    A produção observada é apenas uma parte da história.

    O restante está no que deixou de acontecer.

    E isso vale para empresas

    Uma empresa pode aumentar seu faturamento e destruir valor ao mesmo tempo.

    Imagine uma companhia que venda muito, mas precise oferecer descontos enormes e consumir muito capital para produzir.

    A receita aumenta.

    A atividade aumenta.

    Mas o retorno sobre o capital pode cair.

    O mesmo erro da janela quebrada aparece em outra forma:

    confundir movimento com resultado.

    Uma empresa saudável não é aquela que movimenta mais dinheiro.

    É aquela que consegue transformar recursos em valor econômico de forma sustentável.

    A lição para investimentos também é poderosa

    Imagine uma empresa gastando bilhões em uma fábrica.

    A inauguração gera empregos.

    Fornecedores recebem.

    O investimento aparece nas estatísticas.

    Mas precisamos perguntar:

    qual será o retorno desse capital?

    Se a fábrica produz algo que ninguém quer comprar, o gasto não se transforma magicamente em riqueza.

    Se produz algo altamente demandado e aumenta a capacidade produtiva da economia, a história é diferente.

    O gasto é apenas o começo da análise.

    Precisamos olhar para o que ele produz.

    O que Bastiat queria que enxergássemos

    O título de seu ensaio resume a ideia:

    o que se vê e o que não se vê.

    Nós naturalmente prestamos atenção ao efeito imediato.

    O trabalhador contratado.

    A empresa que vende.

    O dinheiro que circula.

    O projeto inaugurado.

    Mas decisões econômicas possuem efeitos indiretos.

    O dinheiro usado aqui não pode ser usado ali.

    O trabalhador empregado em uma atividade não está disponível simultaneamente para outra.

    O capital direcionado a um projeto não pode financiar todos os demais.

    A economia é feita de escolhas.

    E toda escolha possui uma alternativa abandonada.

    A história continua atual

    É possível encontrar versões modernas da janela quebrada em praticamente todos os debates econômicos.

    “Esse desastre movimentou a economia.”

    “Essa obra gerou empregos, então foi um bom investimento.”

    “Essa indústria recebeu bilhões, portanto o país ganhou bilhões.”

    “Esse setor cresceu, então a política funcionou.”

    Nenhuma dessas frases é necessariamente falsa.

    Mas nenhuma é suficiente.

    A pergunta econômica precisa ser mais difícil:

    O que teria acontecido com esses recursos se eles tivessem sido utilizados de outra maneira?

    É essa pergunta que separa uma análise econômica de uma simples contagem de gastos.

    A lição

    Bastiat morreu em 1850.

    A janela quebrada continua inteira como instrumento de pensamento.

    Ela nos ensina que economia não consiste apenas em observar o que aconteceu.

    Também precisamos pensar no que poderia ter acontecido.

    O vidraceiro realmente recebeu os seis francos.

    Isso é fato.

    Mas o comerciante também deixou de comprar outra coisa.

    Isso é o custo de oportunidade.

    A primeira parte da história é visível.

    A segunda precisa ser construída pelo raciocínio.

    E talvez seja justamente essa a principal contribuição de Bastiat:

    em economia, aquilo que não aconteceu pode ser tão importante quanto aquilo que conseguimos enxergar.

    Fontes
    Bastiat, Frédéric. “Ce qu’on voit et ce qu’on ne voit pas”, 1850.
    Adam Smith Institute, análise da parábola e sua relação com custo de oportunidade.
    Literatura econômica sobre a distinção entre atividade, riqueza e custo de oportunidade.

  • Por que continuamos investindo em projetos ruins?

    A falácia dos custos afundados explica um dos erros mais caros em empresas, investimentos e decisões pessoais.

    Uma empresa gastou R$ 50 milhões em um projeto.

    Depois de dois anos, percebeu que o mercado mudou.

    O projeto não parece mais viável.

    Para terminá-lo, serão necessários outros R$ 30 milhões.

    E surge a frase:

    “Não podemos desistir agora. Já investimos R$ 50 milhões.”

    Parece razoável.

    Mas existe um problema.

    Os R$ 50 milhões já foram gastos.

    A decisão de hoje não pode recuperá-los.

    Esse é o coração da chamada falácia dos custos afundados, ou sunk cost fallacy.

    O dinheiro que já foi embora

    Em economia, um custo afundado é um gasto que já aconteceu e não pode ser recuperado.

    Ele pertence ao passado.

    Por isso, quando uma empresa decide o que fazer daqui para frente, o que deveria importar são os custos e benefícios que ainda podem ser alterados.

    Imagine que uma companhia tenha duas alternativas.

    Pode gastar R$ 30 milhões para terminar um projeto que agora deverá gerar R$ 20 milhões em valor.

    Ou pode abandonar o projeto e usar os recursos restantes em outra oportunidade que gere R$ 50 milhões.

    O fato de a empresa já ter gastado R$ 50 milhões não transforma o primeiro projeto em uma boa decisão.

    Esses R$ 50 milhões desapareceram da equação.

    Mas as pessoas não pensam assim

    A teoria econômica pode ser clara.

    O comportamento humano é outra história.

    Em 1985, Hal Arkes e Catherine Blumer publicaram um dos trabalhos clássicos sobre o assunto, mostrando que pessoas tendem a continuar uma atividade depois de realizar investimentos de dinheiro, esforço ou tempo nela. O estudo encontrou evidências de que indivíduos que haviam realizado um gasto anterior também tendiam a avaliar como maior a probabilidade de sucesso do projeto.

    A questão é interessante porque o dinheiro já gasto não deveria alterar a rentabilidade futura.

    Mas altera a nossa percepção.

    O problema não é apenas financeiro

    Imagine que você comprou um ingresso caro para um espetáculo.

    Chega ao teatro.

    A apresentação é ruim.

    Você olha para o relógio.

    E pensa:

    “Já paguei.”

    Então fica até o final.

    O dinheiro não volta se você ficar.

    Também não volta se você sair.

    A única decisão que ainda existe é:

    qual é a melhor utilização das próximas duas horas?

    É aí que aparece o custo afundado.

    Você não está tentando recuperar o dinheiro.

    Está tentando evitar a sensação de desperdício.

    Empresas fazem a mesma coisa

    Um projeto de tecnologia começa a consumir recursos.

    Depois surgem problemas.

    O cronograma atrasa.

    Os custos aumentam.

    O mercado muda.

    Mas a diretoria continua financiando.

    Por quê?

    Porque abandonar o projeto significa reconhecer que as decisões anteriores estavam erradas.

    E esse custo psicológico pode ser enorme.

    Barry Staw estudou esse fenômeno desde a década de 1970, mostrando como gestores podem aumentar o comprometimento com uma decisão anterior mesmo quando os resultados começam a piorar.

    Aqui aparece uma distinção importante.

    Custo afundado e escalada de comprometimento estão relacionados, mas não são exatamente a mesma coisa.

    O primeiro é um princípio econômico.

    O segundo descreve um comportamento de persistência diante de uma decisão que já não parece boa.

    O Concorde virou o exemplo clássico

    Poucas histórias ilustram isso tão bem quanto o Concorde.

    O projeto do avião supersônico anglo-francês acumulou enormes custos e enfrentou dificuldades comerciais.

    A ideia de que governos continuaram apoiando o projeto porque já haviam investido muito dinheiro acabou dando origem ao termo “Concorde fallacy”.

    A história é útil porque mostra como decisões institucionais podem ficar presas ao passado.

    Mas precisamos tomar cuidado com uma simplificação.

    Não é possível afirmar que todos os investimentos posteriores no Concorde foram simplesmente irracionais por causa dos gastos anteriores.

    Projetos de grande escala possuem efeitos tecnológicos, estratégicos e políticos que não cabem em uma conta simples.

    O exemplo é melhor entendido como uma metáfora para um problema mais geral:

    continuar investindo apenas porque já investimos muito.

    O passado não deve decidir o futuro

    Existe uma pergunta simples que ajuda a evitar o problema.

    Antes de continuar um projeto, pergunte:

    “Se eu não tivesse investido nada até agora, ainda escolheria começar este projeto hoje?”

    Se a resposta for não, existe um sinal de alerta.

    A pergunta remove psicologicamente o dinheiro já gasto da decisão.

    É como começar a análise do zero.

    Não porque o passado não tenha importância histórica.

    Mas porque ele não pode mais ser alterado.

    Isso vale para investimentos

    Um investidor compra uma ação.

    O preço cai 30%.

    Ele pensa:

    “Não vou vender agora porque já perdi muito.”

    Mas a decisão correta não é:

    “Quanto eu paguei?”

    É:

    “Se eu tivesse esse dinheiro hoje, compraria essa ação pelo preço atual?”

    Essa diferença é brutal.

    O preço de compra é relevante para calcular seu resultado financeiro.

    Mas não determina o valor futuro do ativo.

    O mercado não sabe quanto você pagou.

    E não tem obrigação de voltar ao seu preço de entrada.

    Isso também vale para empresas

    Imagine que uma empresa tenha uma fábrica antiga.

    Ela já gastou milhões naquela instalação.

    Mas uma tecnologia nova tornou a fábrica pouco competitiva.

    A pergunta não deveria ser:

    “Quanto já gastamos?”

    Deveria ser:

    “Quanto custa manter essa fábrica funcionando e qual é o retorno esperado em comparação com as alternativas?”

    A contabilidade registra o passado.

    A decisão econômica precisa olhar para frente.

    Existe uma razão psicológica para o erro

    Uma das explicações encontradas na literatura é a nossa aversão ao desperdício.

    Abandonar algo em que investimos significa admitir que parte do investimento não produziu o resultado esperado.

    Isso é desconfortável.

    Persistir permite construir uma narrativa diferente:

    “Ainda pode dar certo.”

    Às vezes dará.

    O problema é quando a esperança deixa de ser baseada nos dados e passa a existir apenas para justificar o investimento anterior.

    E aqui entra a responsabilidade

    Há uma diferença entre avaliar uma decisão que outra pessoa tomou e avaliar uma decisão que você mesmo tomou.

    Quando fomos responsáveis pela escolha inicial, abandonar o projeto pode parecer uma admissão de erro.

    Isso ajuda a explicar por que a escalada de comprometimento é especialmente relevante em organizações.

    O gestor não está apenas avaliando um projeto.

    Está, em alguma medida, avaliando a própria decisão passada.

    A literatura sobre o fenômeno mostra justamente essa relação entre responsabilidade pessoal e persistência.

    Mas existe uma ressalva importante

    Dizer que custos afundados são irrelevantes não significa dizer que todo gasto passado é irrelevante para toda decisão.

    Imagine que você tenha comprado uma máquina e ela ainda possua valor de revenda.

    Nesse caso, existe um valor recuperável.

    Ele não é simplesmente um custo afundado.

    Ou imagine que o investimento anterior tenha criado conhecimento que pode ser aproveitado em outro projeto.

    Esse conhecimento possui valor.

    A análise precisa separar:

    o que já foi perdido

    daquilo que ainda pode ser recuperado ou utilizado.

    Essa distinção evita transformar um conceito econômico importante em uma regra simplista.

    A pergunta que gestores deveriam fazer

    Toda vez que um projeto começa a consumir mais recursos do que o esperado, a empresa deveria interromper a discussão sobre o passado.

    Não:

    “Quanto já gastamos?”

    Mas:

    “A partir de hoje, qual é a melhor decisão?”

    Essa mudança de pergunta parece pequena.

    Mas pode evitar milhões de reais em perdas.

    A lição

    O dinheiro gasto ontem não pode ser recuperado por uma decisão tomada hoje.

    Mas existe uma tendência humana de tentar justificar o passado usando recursos do futuro.

    É assim que empresas continuam projetos ruins.

    Investidores mantêm ativos que já não desejam.

    Pessoas terminam livros que não querem ler.

    Continuam cursos que não fazem sentido.

    Ficam em negócios que perderam viabilidade.

    O problema não é falta de inteligência.

    É que admitir que uma decisão passada foi ruim tem um custo psicológico.

    A economia ensina uma coisa simples:

    uma decisão boa não é aquela que justifica o que você fez ontem. É aquela que produz o melhor resultado a partir de hoje.

    Fontes
    Arkes, H. R.; Blumer, C. “The Psychology of Sunk Cost.” Organizational Behavior and Human Decision Processes, v. 35, n. 1, 1985, p. 124–140.
    Staw, B. M. “Knee-Deep in the Big Muddy: A Study of Escalating Commitment to a Chosen Course of Action.” Organizational Behavior and Human Performance, 1976.
    Whyte, G. “Escalating Commitment to a Course of Action: A Reinterpretation.” Academy of Management Review, 1986.
    Sleesman et al., revisão da literatura sobre escalada de comprometimento e custos afundados.